Caso Cristian Góes: jornalista recorrerá da decisão nesta sexta (12)
Cotidiano 11/07/2013 20:50

Por Sílvio Oliveira

O jornalista Cristian Góes antecipou a F5 News que pretende entrar com recurso nesta sexta-feira (12), na Junta Recursal do Tribunal de Justiça de Sergipe, solicitando que seja revista a decisão judicial que o condenou a 7 meses e 16 dias de prisão, revertida em prestação de serviços, por conta de um texto ficcional intitulado “Eu, o coronel em mim”, publicado em 2012 em seu blog, e que supostamente fazia referência a um desembargador de Justiça do Estado.

A decisão judicial ganhou repercussão nas páginas dos principais jornais nacionais e inclusive do exterior, em países como Inglaterra, Espanha, Venezuela, Argentina, Portugal, França e Estados Unidos, em cujas análises a sentença condenatória ameaça o direito à liberdade de expressão.

“ É surreal, nos tempos de hoje ninguém pode ser condenado por ter escrito um texto em que há suposições. Sei que a decisão é objetiva contra mim, clara. Mas tem reflexos terríveis para todo o curso do jornalismo e a liberdade da escrita ou de qualquer pessoa que quiser se manifestar”, afirmou.

Para Cristian, a decisão judicial é uma indicação de que as instituições precisam avançar no exercício da liberdade de expressão, que, segundo ele, vem antes do exercício da imprensa. “Democracia é não questionar os direitos ou questionar e ser questionado?”, perguntou.

O jornalista alega que, na sentença, o juiz diz que seu texto “deu a entender” que fez uma associação com o desembargador, ou seja, uma suposição, portanto desprovida de base para uma sentença judicial. "Isso requer provas exatas", afirma.

Liberdade de expressão

A jornalista Carole Galindo (foto ao lado) disse que a sentença fere a liberdade de expressão, posto que um jornalismo que não exercita a crítica, que não questiona, se alinha à mediocridade. Para ela, o caso abre um perigoso precedente, a fim de que outros profissionais se sintam acanhados se forem escrever sobre qualquer assunto de forma criativa.

O presidente do Coletivo Intervozes, Paulo Vitor Melo, (foto ao lado) afirmou que, além de ferir a comunicação e o princípio da liberdade de expressão, a decisão é uma afronta aos direitos garantidos, fundamentais, instituídos na Constituição. “Se não respeita a liberdade de expressão, fere a minha humanidade”, afirmou.

A presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de Sergipe (Sindijor), Caroline Santos, (foto abaixo), destacou que a instituição ficou bastante preocupada desde o início do processo. “A gente considera que é querer calar não só os jornalistas e radialistas, mas professores, artistas e qualquer pessoa que seja formadora de opinião. Esperamos que, com o recurso, possa reverter essa situação”, disse.

Fotos: Sílvio Oliveira

Leia na integra o texto do jornalista

Eu, o coronel em mim.

Mando e desmando. Faço e desfaço

Está cada vez mais difícil manter uma aparência de que sou um homem democrático. Não sou assim, e, no fundo, todos vocês sabem disso. Eu mando e desmando. Faço e desfaço. Tudo de acordo com minha vontade. Não admito ser contrariado no meu querer.  Sou inteligente, autoritário e vingativo. E daí?

No entanto, por conta de uma democracia de fachada, sou obrigado a manter também uma fachada do que não sou. Não suporto cheiro de povo, reivindicações e nem com versa de direitos. Por isso, agora, vocês estão sabendo o porquê apareço na mídia, às vezes, com cara meio enfezada: é essa tal obrigação de parecer democrático.

Minha fazenda cresceu demais. Deixou os limites da capital e ganhou o estado. Chegou muita gente e o controle fica mais difícil. Por isso, preciso manter minha autoridade. Sou eu quem tem o dinheiro, apesar de alguns pensarem que o dinheiro é público. Sou eu o patrão maior. Sou eu quem nomeia, quem demite. Sou eu quem contrata bajuladores, capangas, serviçais de todos os níveis e bobos da corte para todos os gostos.

Apesar desse poder divino sou obrigado a me submeter à eleições, um absurdo. Mas é outra fachada. Com tanto poder, com tanto dinheiro, com a mídia em minhas mãos e com meia dúzia de palavras modernas e bem arranjadas sobre democracia, não tem para ninguém. É só esperar o dia e esse povo todo contente e feliz vota em mim. Vota em que eu mando.

Ô povo ignorante! Dia desses fui contrariado porque alguns fizeram greve e invadiram uma parte da cozinha de uma das Casas Grande. Dizem que greve faz parte da democracia e eu teria que aceitar. Aceitar coisa nenhuma. Chamei um jagunço das leis, não por coincidência marido de minha irmã, e dei um pé na bunda desse povo.

Na polícia, mandei os cabras tirar de circulação pobres, pretos e gente que fala demais em direitos. Só quem tem direito sou eu. Então, é para apertar mais. É na chibata. Pode matar que eu garanto. O povo gosta. Na educação, quanto pior melhor. Para quê povo sabido? Na saúde...se morrer “é porque Deus quis”.

Às vezes sinto que alguns poucos escravos livres até pensam em me contrariar. Uma afronta. Ameaçam, fazem meninice, mas o medo é maior. Logo esquecem a raiva e as chibatadas. No fundo, eles sabem que eu tenho o poder e que faço o quero.  Tenho nas mãos a lei, a justiça, a polícia e um bando cada vez maior de puxa-sacos.

O coronel de outros tempos ainda mora em mim e está mais vivo que nunca. Esse ser coronel que sou e que sempre fui é alimentado por esse povo contente e feliz que festeja na senzala a minha necessária existência .

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