Novo Lar
Crianças em situação de vulnerabilidade recebem nova perspectiva em casa de acolhimento
Em três meses, mais de 20 menores em situação de vulnerabilidade são identificados em Aracaju
Cotidiano| Por Fernanda Araujo 12/10/2018 07:18 - Atualizado em 13/10/2018 19:34

Desde o nascimento, Gabriel, hoje com 13 anos, vive em um abrigo. Ainda na maternidade, a mãe abriu mão do filho e, desde então, ele foi acolhido pela assistência social no município de Aracaju. Mesmo diante das tentativas de inserção à família de origem ou substituta, ele voltou ao sistema de acolhimento institucional e hoje vive em uma Casa Lar, um ambiente que se assemelha a uma residência particular.

Essa é a realidade de milhares de crianças e adolescentes espalhados pelo país e que não têm quase nenhuma perspectiva de família ou de lar, muitos deles provenientes das ruas, do abandono, da negligência, vítimas de abusos sexuais, e vivendo à margem de condições necessárias para a sobrevivência com base no amor e na plena dignidade.  

No trimestre junho, julho e agosto deste ano, equipes da Assistência Social identificaram na capital sergipana 24 crianças e adolescentes em situação de rua. Duas delas, ambas com a mãe, dormindo em calçadas, tentando se abrigar da chuva ou do sol, enquanto as outras passavam o dia nas ruas por questão de sobrevivência e depois retornavam para alguma residência. Atualmente, uma das crianças, que pernoitava nas ruas, retornou à casa em que residia com a família e a outra foi acolhida por parentes distantes.

A falta do contexto familiar, independente de como seja a configuração da família, e as situações de risco em que são colocados, segundo a psicóloga Daniella Leite, afetam diretamente o desenvolvimento psicossocial dessas crianças e adolescentes. Antes de irem para abrigos, esses meninos e meninas já passaram por enfrentamentos diversos e que precisam ser tratados individualmente.

“Alguns acabam trazendo questões psiquiátricas, mas cada um é de forma individual. Obviamente, todos trazem marcas, uma dificuldade de estabelecer um relacionamento, uma confiança ou vínculo justamente pela parte do abandono, agressividade e aí são diversos. Acredito que não seja somente pelo abandono, mas pelas causas de risco que foram colocadas e acabam trazendo questões que são totalmente compreensíveis, no olhar psicológico e psiquiátrico”, afirma a profissional.

Essas crianças e adolescentes, porém, ganham um refúgio quando passam a ser inseridos no modelo de assistência, a Casa Lar: as cuidadoras são a mãe e duas tias, e os acolhidos se relacionam como irmãos. Como uma estrutura de família comum, ao contrário de abrigos convencionais, as Casas Lares, mantidas pela Secretaria Municipal da Assistência Social, se propõem a criar um local de referência familiar para que os menores que tiveram o seu vínculo familiar interrompido por conta de situações de vulnerabilidade social sintam menos os efeitos da institucionalização com o passar do tempo e não repliquem a mesma condição em que viveram no futuro.

“A gente percebe que essas crianças conseguem ter uma maior possibilidade de se sentirem pertencentes a esse mundo. O sistema de acolhimento deixa a pessoa como se tivesse um pouco isolada desse contexto social. O ‘Gabriel’ apresenta as feridas de nunca ter dito essa mãe ou esse pai, em alguns momentos com comportamento irregular na escola. A gente tenta fazer com que a essas crianças não sejam aquelas de abrigos, sejam só crianças”, afirma a psicóloga Fernanda Nunes, integrante da equipe multidisciplinar que atende nas Casas Lares.

O Amor é igual

Magna Simone, 43 anos, é mãe social há dois anos e como resultado disso já teve seis ‘filhos’, todos ‘casados’ (adotados), como ela diz feliz, mas com saudades. Hoje, quatro meninas e meninos residem com ela no bairro Salgado Filho, zona sul da capital sergipana. Para ela, que trabalhava como cozinheira em um abrigo, o sentimento de mãe é igual para todos.

“Sou a mãe que protege, briga, defende, ensina, educa, não vejo diferença da minha filha biológica. E eles não querem ir embora, querem ficar comigo. Nesse tempo em que sou mãe social já vi coisas que nunca presenciei na minha família. A cada amanhecer é uma nova experiência. Eles pedem para conversar comigo, para que eu intervenha em determinada situação ou quando não gostam de algo que eu fiz. Essa é a hora que eu vejo que surge a necessidade de uma mãe”, afirma Simone.

Nas Casas Lares todos têm horário de acordar e dormir, precisam cooperar nos afazeres domésticos, ter disciplina escolar e participam de atividades de lazer e extracurriculares, como cursos profissionalizantes a depender da idade. Inseridos na comunidade em que convivem, os meninos e meninas estudam em escolas públicas, são assistidos em unidades básicas de saúde e participam de uma rotina comum de família. A mãe social se torna a responsável pelos cuidados higiênicos, saúde básica, alimentação, escola e lazer, diferentemente dos abrigos onde funcionários trabalham em regime de plantão e o acolhimento é temporário.

“Eu acordo, tomo café da manhã, vou pra escola, dia de segunda tenho curso de inglês, faço balé nas quartas-feiras, participo de palestras, em alguns dias faço as rotinas de casa. Eu me sinto muito bem aqui, aqui é como se fosse família, não tem briga, é com harmonia, é diferente de como vivia antes”, conta Suelen (nome fictício), de 13 anos, que mora com os irmãos de 10 e 12 anos, e há dois anos vive na Casa Lar.

 “A função também é que as crianças tenham acesso à comunidade e depois ganhem independência. Para determinar uma Casa Lar, é avaliada a sua localização, se tem escola, praça e posto de saúde próximos, justamente para facilitar esse convívio”, ressalta Thaís Henrique Santos, coordenadora das casas lares.

O acolhimento social

Geralmente os casos que levam as crianças aos abrigos, de acordo com a Assistência Social, não derivam apenas do abandono, mas principalmente de situações como abuso de drogas ou prostituição na família, crianças vítimas de abuso sexual, de mãe aliciadora, ou casos de negligência dos pais.

“Apesar de na Casa Lar ter um perfil de crianças e adolescentes para longo período de acolhimento institucional, só este ano já tivemos seis adoções. Independente de já ter faixa etária considerada tardia, a gente trabalha para que essa criança ou adolescente possa sair para inserção de família substituta”, declara a psicóloga Fernanda Nunes.

A Casa Lar

A Casa Lar é um serviço tipificado pelo sistema único de assistência social, adotado na capital sergipana que também utiliza o modelo de abrigos. Atualmente, existem quatro casas lares, com total de 19 acolhidos, entre crianças e adolescentes. Atende a meninos e meninas de 0 a 18 anos em vulnerabilidade, sendo grupos de irmãos ou não, abrangendo ainda crianças e adolescentes com qualquer tipo de deficiência – neste caso, a casa é adaptada.

Segundo a assistência social, a prefeitura presta assistência aos menores em situação de rua, os inserindo em benefícios sociais e no ensino formal, caso não estejam, e os encaminhando ao serviço de saúde e assistência, inclusive, com a inserção dos pais para retirada de documentos, quando necessário.

*Foram utilizados nomes fictícios para preservar a identidade das crianças citadas na reportagem.
Fotos: Cedidas pela PMA

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