Mobilidade nas cidades: um desafio de políticas públicas aos comportamentos | Clarisse de Almeida | F5 News - Sergipe Atualizado

Mobilidade nas cidades: um desafio de políticas públicas aos comportamentos
Precisamos mudar a mentalidade das cidades e também de seus habitantes
Blogs e Colunas | Clarisse de Almeida 20/09/2021 20h45

Essa semana uma manchete nos noticiários nos obrigou a uma reflexão: a morte de mais um ciclista por atropelamento.

Precisamos mudar a mentalidade das cidades, de seus habitantes. É mais que urgente um redesenho delas e do comportamento de seu povo contemplando os novos modais, e nesse mover nossa Aracaju anda a “passos de cágado”.

Sim, a mobilidade urbana vem representada neste século XXI por milhares de motos, patinetes, bicicletas, e pelo pedestrianismo, como opções de mobilidade individuais, e ainda pelos transportes coletivos de alto desempenho, como metrô de superfície e trens elétricos, e pequenos veículos como micro ônibus, vans, tuktuk (autoriquixá que pode carregar até seis passageiros) etc.

O que irreversivelmente se percebe em várias cidades no mundo é a retração do uso dos automóveis e a quase extinção dos ônibus urbanos movidos a diesel. Berlim investe alto em super estradas para bicicletas; Londres cobra caro daqueles que insistem em circular de carro no centro da cidade; Bruxelas proibe a circulação em mais da metade da cidade; Nova York implanta várias áreas exclusivas para pedestres; Bogotá já tem 320 km de ciclovias por toda parte. México, Madri, Paris, entre muitas outras capitais, criam novas formas e espaços de mobilidade e restringem o uso dos carros, sem falar nas megacidades asiáticas onde estes nunca foram venerados como no ocidente.

Impossível nesta modesta coluna abordar todos os aspectos dessa problemática, mas podemos pensar sobre alguns.

 As cidades brasileiras desenvolvidas ao longo do século XX, influenciadas pelo urbanismo modernista, se comprometeram perigosamente em oferecer conforto e espaço para os carros, desprestigiando o pedestre. A frota nacional cresceu tanto nos últimos 20 anos que não circula mais sem transformar em caos suas já desgastadas malhas viárias.

“Os carros ocupam muito mais espaço para atender a pouco mais que uma fração do total de viagens, sendo que a maior parte das viagens de carro atendem somente a um ou dois passageiros. Segundo a Confederação Nacional de Transportes (CNT), os automóveis – apesar de transportarem cerca de 20% dos passageiros – ocupam 60% das vias públicas, enquanto ônibus – que transportam 70% dos passageiros – ocupam 25% do espaço viário nas grandes cidades brasileiras.”

Nessa reta final da pandemia, estabelecido o fim do isolamento, já se revive o cotidiano de engarrafamentos e invasões das calçadas promovidos pelo uso obstinado dos veículos particulares.

Com o custo elevadíssimo do combustível, era de se esperar que, assim como nas principais capitais do mundo, o reinado do legado de Henry Ford, também aqui em terras brasileiras, estivesse chegando ao fim. Mas na verdade resiste bravamente, ainda povoando os sonhos de consumo de muitos que não se conformam em utilizar um transporte coletivo de péssima qualidade como o que oferecem, por exemplo, em Aracaju.

Aliás, aqui em nossa cidade, na contramão das novas intervenções urbanas que visam criar espaço para as pessoas, em avenidas como a Hermes Fontes, ao custo de canteiros com árvores, se fazem obras de alargamento das faixas de rolamento de carros, ao tempo em que se constroi ciclovias em locais estreitos e quentes, como a da avenida Augusto Franco que francamente, sem árvores promovendo sombra, está fadada a subutilização no verão causticante que se avizinha.

Sobre essa questão alguém me diria que Aracaju tem uma malha de ciclovias bem desenvolvida, porém argumento  que, embora significativa, se torna ineficaz por falta de conexão entre elas, e por falta de conforto térmico para sua utilização, pela ausência de arborização urbana de que tanto falo.

Sobre essas ampliações da malha viária foi dito: “Os espaços públicos são cada vez mais tomados pelo automóvel. Cada alargamento ou extensão de avenida, cada nova ponte e viaduto, cada túnel dedicado aos automóveis acaba por incentivar ainda mais o uso do carro, piorando o congestionamento depois de um curto período de alívio ilusório.”

Medidas para diminuição do uso do automóvel são impopulares, justamente porque os transportes alternativos não encontram espaços adequados para seu uso. Mesmo quando estes são projetados atendendo às novas demandas, como foi o caso na urbanização em curso da nova Orla Sul, contemplada com uma ciclovia e um calçadão para caminhadas, não se consegue uma convivência harmoniosa entre seus usuários. A falta de educação para o trânsito é generalizada. pedestres invadem a ciclovia, e as bicicletas, o calçadão.

 Motoristas dos veículos de passeio não conseguem ser tolerantes com as dificuldades dos ciclistas, que são obrigados a usar o acostamento das ruas e avenidas, quase sempre ocupados por estacionamentos. Em contrapartida, alguns destes, misturados aos primeiros, também se recusam a obedecer às mais simples regras de trânsito, por vezes até mesmo um sinal vermelho! Incluindo-se neste comportamento os motociclistas e usuários de patinete.

Está posto o impasse.

Hoje começa a Semana da Mobilidade Urbana, evento europeu que respinga por aqui, onde muito se debaterá sobre as sugestões / soluções para implantação de transportes alternativos aos carros, como meio de recuperar a saúde de nossas cidades. Porém enquanto não for transformada a mentalidade de nossa gente, mais mortes ocorrerão ironicamente entre aqueles que ousam em pionerismo,  ao optar por uma vida melhor.

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Arquiteta e Urbanista pela FAUSS/RJ, especialista em Tecnologia Educacional pela UERJ e em Paisagismo pela UFLA/MG. Atua com ênfase em Desenho Urbano e Projetos de Edificação e Paisagismo. Leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIT. Possui trabalhos reconhecidos nacionalmente e tem sido palestrante em variados eventos. É membro da equipe da Ágora Arquitetos.

E-mail: arqclarissedealmeida@gmail.com

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