‘Bom dia, Verônica’ e ‘Manhãs de Setembro’: o Século XXI exposto no streaming | Levando a Série | F5 News - Sergipe Atualizado

‘Bom dia, Verônica’ e ‘Manhãs de Setembro’: o Século XXI exposto no streaming
Violência doméstica e relações humanas acima de gêneros são ingredientes de ótimos suspenses
Blogs e Colunas | Levando a Série 10/09/2021 15h55 - Atualizado em 10/09/2021 16h28

Lembram que na coluna sobre a série brasileira Dom, original Amazon Prime Video, situei as plataformas de streaming como tábua de salvação para a agonizante indústria nacional do entretenimento televisivo e cinematográfico?  Movida por esse espírito, fui conferir mais duas opções, nas quais verifiquei plenitude criativa, ambas libertas, como devem ser as produções no segmento, sob prisma de lógica inquestionável: ninguém é obrigado a assistir o que não estiver a fim. Para isso, inventaram um aparelho fantástico há décadas, cujo nome é controle remoto.

Dito isso, vamos à primeira sugestão – Bom dia, Verônica -, original Netflix de continuidade já assegurada pela plataforma, uma ótima notícia não só para os profissionais brasileiros diretamente envolvidos na série, mas para um processo civilizatório onde violência seja tratada como o que é: crime. A primeira temporada estreou em outubro do ano passado, com receptividade capaz de colocá-la por dias no top 10 da plataforma por aqui. Sinceramente, me deixa feliz ver o Brasil consumindo uma história muito bem elaborada, ficcional porém ilustrativa de uma realidade inaceitável, que só não vê quem não quer: a da violência sobre mulheres dentro do que utopicamente era para ser o lugar mais seguro, feliz e harmonioso para elas. Aquele espaço próximo do que, em tese, deveria se chamar de lar, pervertido por homens, seus “companheiros”, cujos sérios problemas internos explodem na forma de abusos físicos e/ou psicológicos.

Se isso já representa ousadia nos tempos atuais – e eu adoro ousadia -, a Amazon Prime Video foi ainda mais longe: atenta ao público ciente de que vivemos no Século XXI, bancou como original da plataforma a brasileira Manhãs de Setembro, produzida pela O2 Filmes e disponível em pelo menos 200 países desde junho passado.  A protagonista é uma mulher trans e negra, interpretada pela idem cantora e compositora Liniker, a quem, admito, eu mesma não conhecia, apesar dela já ter se apresentado em turnê internacional. A série, de apenas cinco episódios, já teve continuidade confirmada e as gravações da segunda temporada devem iniciar no próximo mês.

Bom dia, Verônica estreou em outubro de 2020 na Netflix e foi renovada já em novembro, mas ainda não circulou data de lançamento. O enredo se baseia no livro homônimo, de autoria de Raphael Montes e Ilana Casoy, que assinam o trabalho literário sob o pseudônimo de Andrea Killmore.

Em termos gerais, acompanhamos a trajetória da escrivã de polícia Verônica Torres (Tainá Müller), lotada no Departamento de Homicídios de São Paulo. Nessa rotina profissional, ela se depara usualmente com a barbárie. A jovem segue os passos do pai, policial marcado pela tragédia, e resolve ir para cima de um golpista que encontrava suas vítimas em sites de relacionamento, às quais roubava depois de dopá-las, num crime de perversidade amplificada pelo abuso sexual subsequente.

Verônica só quer fazer cumprir a lei e colocar o bandido na cadeia, mas gente pior, muito pior, surgiria em seu caminho. A policial conhece Janete, uma mulher totalmente controlada pelo marido. Ele “brinda” a esposa com os típicos comportamentos de uma relação tóxica, que tantas mulheres já viveram ou ainda vivem, começando pela operação metódica em destruir a autoestima das respectivas vítimas, a quem juram amor, mesmo que antes da jura tenham deixado roxos os olhos delas.

O sujeito desprezível em Bom dia, Verônica é o tenente-coronel da PM Cláudio Antunes Brandão, tido na corporação como uma referência, um exemplo de bravura a serviço da segurança dos cidadãos. Na verdade, ele é um psicopata e, como se sabe, portadores dessa patologia são experts em transmitir a imagem na qual querem que as pessoas acreditem, enquanto apodrecem por dentro e propagam o mal sem qualquer peso na consciência – característica basilar da psicopatia.

Muita gente criticou a atuação de Tainá Müller, afirmando que ela não conferiu à protagonista Verônica a potência dramática que a personagem requer. Respeitosamente, concordo. Quem de fato mostra a que veio são os intérpretes desse  casal lamentavelmente tão presente no mundo real. A atriz Camila Morgado dá um show em meio às nuances emocionais desse tipo de relação – o medo constante, o nervosismo, o eterno pisar-em-ovos e, no outro extremo, o alívio quando o marido se mostra carinhoso. Não é permitido a ela ter um celular, falar com a irmã ou com a mãe – amigos, nem pensar -, tudo em prol de mantê-la sob completo domínio. O discurso é o corriqueiro na boca dessa laia de homem: Janete é frágil e precisa ser protegida por ele. Não por acaso, o marido a chama de “passarinha”. Mas o que essa mulher precisa mesmo é ser protegida dele, como muitas outras em situações idênticas fora da ficção.

Quanto ao intérprete do psicopata Cláudio Brandão, o ator Eduardo Moscovis responde por outro show. Com uma extensa carreira em novelas, se teve algum dia o rótulo de galã, acreditem, se desvencilhou por completo. Nesse papel, provoca engulhos e muita revolta pelo que faz com Janete – ao menos no público sadio emocionalmente -, mas surgirão atrocidades ainda piores perpetradas pelo personagem. Camila Morgado e Eduardo Moscovis foram aclamados, em 2020, como  melhor atriz e melhor ator no Prêmio APCA de Televisão, da Associação Paulista de Críticos de Arte. Seguramente, o trabalho de ambos contribuiu para que, na mesma edição, Bom dia, Verônica vencesse na categoria “Dramaturgia”.

De volta ao enredo, a policial Verônica Torres embarca no propósito de conter esse lixo desumano, mas acaba verificando que há toda uma trama em torno do sujeito. Assim, precisa lidar com o delegado Wilson Carvana (Antônio Grassi), a quem ela admira como um padrinho, já que, até então, encontrara nele apoio e mentoria. Obstáculos também são criados por sua superior imediata, Anita Berlinger (Elisa Volpatto), bonitona por fora... e só.

Felizmente, Verônica conta com preciosos auxílios, a exemplo dos proporcionados pelo colega e amigo Nélson – papel do sempre carismático Sílvio Guindane –, responsável pela tecnologia de informação na delegacia, cujos talentos como hacker se mostram essenciais às investigações. Outra mão estendida para a policial é a do amigo legista Victor Prata, papel do experiente Adriano Garib, que também encarnou o diretor de prisão Demóstenes, na série Um Contra Todos, já recomendada aqui.

Verônica é bem casada com Paulo (César Mello) e mãe de dois adolescentes. Às agruras cotidianas na luta contra o crime, incluídos os esquemas poderosos a sustentá-lo, soma-se o desafio de dar conta da própria família, que vai ficando para escanteio no auge das investigações. Embora secundário na narrativa, esse recorte ilustra com mérito a sobrecarga e as doses de culpa corriqueiras na vida de grande parte das mulheres cujas carreiras profissionais são realmente significativas para elas – por escolha, necessidade ou ambas circunstâncias interligadas, caso da maioria, ouso afirmar.   

A realidade brasileira da ignorância, do machismo e do preconceito fomentando violência alicerça também Manhãs de Setembro, título da série original Amazon Prime Video em alusão e homenagem à cantora Vanusa que, em 1973, emprestou sua voz e interpretação à linda música homônima de autoria do compositor Mário Campanha. Ocorre que Cassandra, a protagonista da história, é super fã de Vanusa – falecida em novembro do ano passado, aos 73 anos – e busca realizar seu sonho de ser cover da “ídola”, a quem ouve como um alter ego, uma espécie de voz da consciência, no caso a da gloriosa Elisa Lucinda, poetisa, jornalista, escritora, cantora e atriz.

Enquanto avança em seus objetivos, a mulher trans e negra se sustenta como entregadora de aplicativos. A série começa com Cassandra aos 30 anos. Ela acabara de conseguir um espaço para chamar de seu – uma quitinete no centro de São Paulo –, enfim desocupando o sofá de uma amiga; namora Ivaldo (Thomas Aquino) e se divide entre o trabalho circulando de moto e o microfone do bar onde canta frequentemente. Mas o inesperado acontece: Leide (Karine Teles), uma amiga com quem Cassandra teve um envolvimento casual uma década antes, surge do nada trazendo um garoto que alega ser o filho de ambas, Gersinho (Gustavo Coelho).

“Leide traz um passado que, na verdade, não pertence à Cassandra, enquanto Gersinho representa um futuro para o qual ela não estava preparada”, resume Liniker, cantora e compositora que ficou “super feliz” só em receber o convite para fazer o teste à protagonista da série, segundo relatou ao jornal El País. O despreparo da motogirl para conviver com o filho que recém-descobrira é evidente para ela, mas Gersinho insiste em se cravar na vida e no coração de Cassandra, para incômodo da própria.

Particularmente, o que mais chamou minha atenção em Manhãs de Setembro foi a condução da narrativa. Além de Cassandra, várias mulheres trans ou travestis, amigas que também se apresentam no bar onde ela canta, tocam suas vidas em paz com as próprias escolhas, com quem já são ou querem ser. Embora surjam diálogos expondo situações nas quais elas foram alvos de preconceitos e maldades, a série não se limita a erguer uma bandeira de cobrança legítima por respeito. Posso estar errada – acontece muito -, mas me parece que a ideia foi contar uma história do Século XXI, sem dar a mínima para quem prefere estar vivendo na Idade Média, corretamente apelidada de Idade das Trevas.  

Cassandra tem o afeto de suas amigas e dos amigos de fé, pau pra toda obra, o casal Décio (Paulo Miklos) e Aristides (Gero Camilo). Essa turma formou uma rede de apoio mútuo bela, generosa e eficiente, Ninguém sequer espera entendimento sincero por parte da sociedade – em geral mais propensa a julgar a vida alheia do que a evoluir –, respeito já estaria de bom tamanho. E mesmo sem ele, não se submetem e caminham sob os próprios termos, eventual ou frequentemente precisando lutar pelo direito óbvio de buscar a felicidade a seu modo.

Mas a personagem que melhor representa o Brasil é Leide, a mãe que cuidou sozinha do filho, aos trancos e barrancos, com seus parcos ganhos indo direto “da mão para a boca”, expressão ilustrativa da rotina cruel de insegurança alimentar, crescente no país. São comoventes o amor e a força dessa mulher, que trabalha no que for possível e incorre em pequenos delitos tranquilamente, se isso significar comida na barriga de Gersinho.

Manhãs de Setembro tem direção de Dainara Toffoli e Luis Pinheiro, concretizando uma proposta do roteirista Miguel de Almeida que, apresentada à Amazon Prime Video, recebeu aprovação “com entusiasmo, pela importância da diversidade, discussão da tolerância, alinhamento e percepção em validar o afeto entre as famílias” – conforme exposto no portal da O2 Filmes, responsável pela produção. Muito bom viver no Século XXI, mesmo com todo o atraso ainda reinante.

Por fim, deixo à reflexão frase da fantástica Malala Yousafzai, vencedora do prêmio Nobel da Paz em 2014: “A diversidade promove a tolerância. Quando você não encontra pessoas diferentes, não percebe coisas, não percebe o quanto tem em comum com elas”. Tô contigo, Malala.

Para maratonar:

Bom dia, Verônica – uma temporada com 8 episódios, disponível na Netflix;

Manhãs de Setembro – uma temporada com 5 episódios, disponível na Amazon Prime Video.

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