‘Close Enough’: pais inexperientes vivem situações cômicas em animação para adultos | Levando a Série | F5 News - Sergipe Atualizado

‘Close Enough’: pais inexperientes vivem situações cômicas em animação para adultos
Humor e inteligência compõem retrato insólito da maturidade – ou melhor, da busca por ela
Blogs e Colunas | Levando a Série 27/11/2021 20h35 - Atualizado em 27/11/2021 21h38

Ter um filho ou filha costuma ser determinante para buscar um estilo de vida mais responsável e menos afeito a farras e inconsequências afins. Não é bem o que acontece em uma série de animação adulta que me levou às gargalhadas: Close Enough – traduzido na dublagem como “Quase Lá”, bem mais apropriado do que o título da Netflix Brasil, “Sem maturidade para isso”.

O casal formado por Josh e Emily, na faixa dos 30 anos e morador de Los Angeles, na Califórnia, assume com obstinação a tarefa de criar da melhor forma possível a filha Candice (Jessica DiCicco), uma menina alegre e às vezes esperta em demasia para seus cinco anos. O título original ilustra esse empenho positivamente, ao contrário da versão em português, que sugere falha em tal objetivo.

Josh, um otimista por natureza, amoroso marido e pai, trabalhou como designer de videogames, carreira a que almeja retornar, de preferência granjeando fama mundial. Mas enquanto isso não acontece, ganha a vida num emprego de zero perspectiva, na firma de instalação de TVs Plugger-Inners. Emily (Gabrielle Walsh) é o oposto do marido em diversos aspectos, principalmente pelo perfil lógico e organizado que a leva a conseguir delinear algum planejamento, mesmo em situações de aparente caos. Ela se submete a um emprego de onde não extrai qualquer gratificação emocional, como assistente na mega indústria de alimentos processados Food Corp. Porém, o salário entrando com a devida regularidade e o seguro de saúde que inclui a filha Candice compensam a falta de apreço por suas atribuições profissionais.  

Cada episódio de 20 e poucos minutos traz duas histórias que partem de circunstâncias triviais, a exemplo de Josh e Emily conseguirem alguém para cuidar da filha e decidirem ir para uma balada que se revela surreal. Quase sempre alicerçadas na ansiedade em suprir expectativas, no campo das finanças ou no da criação de Candice, situações mundanas fogem totalmente ao controle do casal. No território livre da animação voltada ao público adulto, em poucos minutos se evidencia que tudo pode acontecer.

Numa das primeiras cenas, Josh, um “crianção”, está filmando a filha de skate, percorrendo um circuito que ele montou dentro do apartamento, incluindo obstáculos e manobras cuja execução é obviamente inalcançável para a menininha. Candice se estabaca no chão, reproduzindo a métrica dos antigos desenhos animados, nos quais, por exemplo, o Coiote caia de um desfiladeiro, virava pasta lá embaixo, mas logo ressurgia novinho em folha em sua caçada infindável ao Papa-Léguas.

As aventuras muito loucas dos pais de primeira viagem são em geral vividas junto a outro casal, com quem Josh e Emily dividem moradia, situação um tanto insólita pois são recém-divorciados: o professor universitário Alex Dorpenberger, o mais velho do quarteto, beirando os 40 anos, e a influenciadora digital nipo-americana Bridgette Yoshida (Kimiko Glenn), a mais jovem, com 26. Melhor amigo de Josh, Alex dá aulas em uma faculdade comunitária, mas ambiciona escrever livros de sucesso, com temática relacionada aos vikings, foco de suas pesquisas para obtenção do grau de PhD em Antropologia. O ator que dubla o personagem, Jason Mantzoukas, teve papéis em três séries excelentes criadas por Michael Schur, todas já recomendadas aqui: Parks and Recreation (como Dennis Feinstein); Brooklyn Nine-Nine (como Adrian Pimento); e The Good Place (como Derek Hostedtler).

Fica meio nebuloso o porquê da ex-mulher dele, Bridgette, não cair no mundo após o término do casamento, já que bafejada pela fortuna de sua família. Entre a preguiça, o egocentrismo e atípicos laivos de generosidade, a influenciadora protagoniza cenas hilariantes, mas também inspiradoras de reflexão. Um exemplo ocorre quando se vê impedida de acessar o telefone que é quase uma extensão de suas mãos, substituído por uma barra de chocolate em que simula teclar furiosamente, no esforço por romper sua total dependência de redes sociais.

Bridgette sucumbe a esse “desmame” tecnológico por imposição de Pearle Watson (Danielle Brooks), uma senhora aposentada, proprietária e moradora do pequeno prédio onde aluga um dos apartamentos aos dois casais de amigos que o dividem. A personagem é fascinante por suas posturas contraditórias. De um lado, ainda encarna a ex-detetive do Departamento de Polícia de Los Angeles, intrépida, ágil e sagaz como no auge da carreira. De outro lado, se mostra a mãe de excessiva benevolência com o filho adotivo, Randy (James Adomian), trintão que depende totalmente dela, sequer cumprindo a contento a tarefa que lhe foi designada: administrar os imóveis de cuja renda provém sua subsistência. O personagem invariavelmente aparece nu da cintura para cima, mesmo em circunstâncias nas quais seria obrigado a completar o modelito, no mundo real. O curioso, porém, é que tenha se bronzeado usando uma camisa, ao ponto de deixar a marca dela na pele - indelével, pelo jeito.

No enredo insano de cada episódio de Close Enough, há espaço para uma conspiração envolvendo presuntos; para robôs obcecados e perigosos e para um pesadelo existencial inspirado na fórmula prosaica em séries de comédia, com suas famílias fofas e claques, entre outros contextos a promoverem divertimento sem maiores pretensões.

Em um dos episódios, Josh faz amizade com um cão antropomorfizado, despertando frenético ciúme em Alex. O personagem híbrido, de nome Cachorro-Menino (DogBoy), é um labrador. Para quem assistiu a Bojack Horseman, impossível não associá-lo de imediato ao Mr. Peanutbutter dessa outra animação adulta, igualmente ótima e também disponível na Netflix.

De volta a Close Enough, significativa parcela de sua sedução vem do fato de quase todos os personagens terem potencial de gerar alguma espécie de identificação no público. Muitos casais hoje dividem moradia com amigos, de maneira a dividir também as contas; homens e mulheres adultos têm dificuldade de sair da casa dos pais, por questões de ordem financeira e/ou emocional, como o Randy – embora, nesse caso específico, haja cristalino pendor ao parasitismo.

Originalmente desenvolvido para o canal por assinatura TBS, Close Enough acabou no streaming, provavelmente por apresentar linguagem chula e cenas de discreto teor erótico mais apropriadas a essas plataformas, lembrando que a animação se destina ao público adulto. Nos Estados Unidos, está no catálogo da HBOMax; aqui, no da Netflix.

Close Enough lida com o que você está sentindo sobre onde você está na sua vida, talvez não exatamente onde você achava que estaria, mas ‘perto o suficiente’”, definiu o criador, JG Quintel, que também dubla o Josh, explicando o título da série. Imperdível como entretenimento e mais além, a animação toca especialmente as pessoas naquela faixa etária em que a juventude acaba de dar lugar à vida adulta, suas obrigações, cobranças e, não raro, expectativas frustradas por força da realidade que soterra utopias.

Deixo à reflexão um pensamento atribuido ao escritor britânico John Wilmot que me fez muito sentido: “Antes de me casar, eu tinha seis teorias sobre como educar filhos. Agora tenho seis filhos e não me resta nenhuma teoria”.

Para maratonar:

Close Enough (Sem Maturidade para Isso) – duas temporadas, total de 16 episódios, disponível na Netflix.

 

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