Com imprecisão histórica não assumida, Netflix irrita realeza britânica | Levando a Série | F5 News - Sergipe Atualizado

Com imprecisão histórica não assumida, Netflix irrita realeza britânica
“The Crown” faz sucesso, enquanto recebe críticas por misturar realidade e ficção
Blogs e Colunas | Levando a Série 11/12/2020 16h00 - Atualizado em 13/12/2020 17h20

 

Esta semana a coluna é diferente: aborda uma série só. Mas entre informação e fofoca, o interesse por ela só aumenta: The Crown (A Coroa), original Netflix. A família real britânica sempre esteve envolta numa mística de encantamento – ainda que em paralelo enfrente razoável reprovação à monarquia de modo geral. Pelo sucesso que se verificou em todo o mundo, essa atração é longeva como a ocupante do trono. Aos 94 de idade, a rainha Elizabeth II acaba de comemorar 73 anos de casamento com o príncipe Philip, ele aos 99 de vida. A estreia da quarta temporada da série, no mês passado, foi um dos eventos mais esperados pelos assinantes do streaming este ano. “Esta série dramática segue a política, rivalidades e relacionamentos da rainha Elizabeth II, e os eventos que fizeram a história”, apresenta a sinopse da própria Netflix. Mas é justo aí que reside uma celeuma de grandes proporções, “briga de cachorro grande”, como se diz. Vamos a ela.

Até a terceira temporada, a família real britânica fez o que faz desde sempre: se manteve discreta e avessa a controvérsias. Só que nesta quarta temporada entra em cena a relação conturbada de Diana Spencer – a Lady Di – com o príncipe Charles (Josh O'Connor). E, além disso, aspectos da gestão da primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra no Reino Unido, Margaret Thatcher. Sobre a primeira, a atriz Emma Corrin incorporou a princesa com talento para além da semelhança física. Mas no que se refere à segunda, fui até assistir uns vídeos da premiê que ficou conhecida como “Dama de Ferro”, na busca por conferir se ela sempre falava de perfil, estilo comum à personagem da atriz Gillian Anderson. Não é o caso. Uma curiosidade: nesta quarta temporada, mudou o elenco a encarnar a família real. A rainha Elizabeth II mais jovem era a atriz Claire Foy; agora é Olivia Colman, esta dotada de experiência no ramo,digamos assim: em 2019, Colman ganhou o Oscar e o Globo de Ouro na categoria Melhor Atriz, por sua atuação como a rainha Ana da Grã-Bretanha no filme The Favourite (A Favorita). Outra curiosidade, esta sobre o ator que interpreta o príncipe Philip na nova fase, Tobias Menzies: ele é o mega vilão de Outlander, série de sucesso merecido, sobre a qual ainda falarei.  

Mas voltemos ao baphon criado pela série. Em uma carta ao jornal UK’s Times, posteriormente encaminhada pelo Palácio de Buckingham à CNN, o secretário de Comunicações da rainha, Donal McCabe, afirmou: "A Casa Real nunca concordou em vetar ou aprovar conteúdo, não pediu para saber quais tópicos seriam incluídos e nunca expressaria um ponto de vista sobre a precisão do programa". Entretanto, no que concerne ao item mais polêmico do enredo da quarta temporada, o príncipe William, primogênito de Charles e Diana, chutou o balde. Segundo o jornal Times, ele classificou a série como “profundamente intrusiva” e dando uma “visão perversa e nojenta dos membros mais importantes da família real britânica”. Na mesma entrevista, ele afirma que seus pais foram “apresentados de uma forma falsa e simplista”.

É onde mora o perigo: na necessidade de separar o joio do trigo, algo que a Netflix jamais se ocupou em deixar claro. “Se as pessoas estão usando a série como fonte para a história da realeza, aí é problema. A Netflix tem o dever de informar sobre o programa, e os produtores deveriam ser mais honestos sobre o que é fato e o que é ficção”, disse uma fonte palaciana à revista Vanity Fair. E concluiu: “um pouco mais de honestidade da parte dos criadores sobre isso ser um drama não faria mal".

O irmão da saudosa princesa Diana, o conde Earl Charles Spencer, expressou diretamente esse incômodo numa entrevista: "A preocupação para mim é que as pessoas vejam um programa como esse e se esqueçam que é ficção. Os americanos me dizem que assistiram The Crown como se tivessem feito uma aula de história. Bem, eles não fizeram... é ficção".  

Particularmente, apreciei The Crown desde o início. Mas eu acompanhei na vida real a trajetória de Lady Di, que conquistou a mim e a meio mundo. Em sintonia com algumas críticas e baseada no que me lembro, a série mostra muito mais as fragilidades da princesa – ok, em parte verídicas, inclusive o transtorno da bulimia -, porém, reforço, a Diana ficcional não chega nem perto do poder que emanava daquela mulher cravada na minha memória, sujeita a variáveis dores, aprendizados e decisões complexas, como qualquer mortal.

Deixando claro que a questão aqui não inclui a validade - ou não - da monarquia britânica, em resumo, a quarta temporada de The Crown situa o príncipe Charles entre um babaca e um frouxo. No roteiro, sua infidelidade com Camilla Parker Bowles é vivida no decorrer do casamento com Lady Di, praticamente tão logo se encerrou a cerimônia – um dos eventos televisivos mais assistidos em âmbito mundial. Falo por mim, e que cada um que tire suas próprias conclusões, mas se eu vejo a história dos meus pais sendo adaptada aos sabores da audiência, como se tudo ali fosse verdade, eu não ia ficar nada feliz.  

O próprio Peter Morgan, o criador da série, adaptada da peça de sua autoria “The Audience”, declarou ao Times em novembro passado: "Fazemos o nosso melhor para acertar, mas às vezes tenho que confundir [incidentes]. Os momentos privados em que apenas a família real estava presente, é claro, devem ser escritos por meio de suposições educadas; não é como se a rainha fosse entregar uma transcrição”. O que ele situa como “suposições educadas” inclui na série um diálogo da princesa Anne, irmã do príncipe Charles, com a mãe, a rainha Elizabeth, em que ela se refere a uma “porta giratória” citada nas fofocas de bastidores, ilustrando o suposto acesso de um rol de amantes contínuos à alcova de Lady Di.  

Uma das minhas atrizes favoritas - Helena Bonham Carter – que agora interpreta a princesa Margaret em The Crown e, antes disso, foi inesquecível como a rainha Elizabeth I no maravilhoso filme “O discurso do rei” – já opinou que a Netflix deveria deixar realmente explícito que a série se trata de uma obra de ficção. Exatamente o pedido feito pelo governo britânico, que o streaming negou, alegando que The Crown já é classificada como drama. Colocando lenha na fogueira, o antigo mordomo de Lady Di, Paul Burrell, veio a público afirmar que a narrativa é coerente com os fatos e  classificou The Crown como “a melhor série já feita até agora” sobre o tema. Em termos financeiros, é uma das mais caras: estima-se que orçamento – só da primeira temporada – tenha chegado a US$ 130 milhões. 

Por falar em dinheiro, o príncipe Harry, caçula de Charles e Di, parece ter passado ao largo da confusão. Ele e a esposa, a ex-atriz que virou duquesa Meghan Markle, assinaram um contrato de vários anos com a Netflix estimado em US$ 150 milhões. A ideia é que o casal, dono de uma produtora, assine junto com o streaming vários conteúdos, de documentários a programas infantis, disseminando “mensagens edificantes”. 

A fortuna vai cair bem. Harry e Meghan abdicaram de seus títulos na Família Real Britânica. Conforme revelou uma "fonte próxima do casal" ao jornal The Sun, o agora ex-príncipe acelerou a renúncia preocupado com a saúde mental da esposa, que não teria se adaptado à rotina de obrigações palacianas.

Por fim, fica a reflexão de Friedrich Nietzsche – olha ele aí de novo: “As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”.

Para maratonar:
The Crown – quatro temporadas, total de 40 episódios, disponível na Netflix


 

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