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Confira duas minisséries que você pode maratonar em um domingo
 ‘Eu, a Vó e a Boi’ e ‘O Maior Roubo de Arte de Todos os Tempos’ operam em cima da realidade
Blogs e Colunas | Levando a Série 16/04/2021 19h45 - Atualizado em 16/04/2021 19h54

A frase do filósofo Aristóteles, segundo o qual “a arte imita a vida”, ganha reforço nas duas opções em minisséries das quais trataremos hoje. A primeira, Eu, a Vó e a Boi, original da Globoplay, teve início no perfil do jovem programador Eduardo Almeida no Twitter. Corria o mês de junho de 2017, ele estava na fila de uma padaria e resolveu matar o tempo contando naquela rede social a história da ferrenha – e muito duradoura – inimizade entre sua avó e uma vizinha dela.

A primeira das postagens em sequência - a chamada thread – diz: “tô esperando pão de queijo aqui na padaria então deixa eu contar o conflito que já ultrapassa 50 anos entre minha vó e a vizinha dela, a Boi”. A narrativa se estendeu por 60 tweets e viralizou ao ponto de chegar ao conhecimento da novelista Glória Perez, que imediatamente cogitou entregar o projeto ao multifacetado Miguel Falabella, ator e roteirista em várias séries, incluída Sai de Baixo, já recomendada aqui. Ele aceitou o desafio e, assim, começava a operação para transformar em arte cênica aquele insano recorte da vivência familiar de Eduardo Hanzo – como o programador assina seus perfis.

Em setembro de 2018, se confirmava a produção da minissérie Eu, a Vó e a Boi, criada e escrita por Miguel Falabella, com Flávio Marinho e Ana Quintana, a partir da ideia original de Eduardo Hanzo, que também participou do roteiro e das gravações, no ano seguinte.

Importante situar que a obra adentrou livremente no território ficcional. Por exemplo, a vizinha da avó de Hanzo, na minissérie, é a outra avó dele. Pelo lado materno, temos Arlete Salles como Turandot; pelo paterno, Vera Holtz, como Yolanda - ambas atrizes a dispensar apresentações, mais uma vez emanando o talento evidente no decurso das respectivas carreiras. Mas essa circunstância, convenhamos, piora significativamente o panorama já desconfortável para o neto narrador da história adaptada, no meio da guerrilha entre duas ancestrais e rebatizado de Roblou (Daniel Rangel).

Assisti à minissérie sem ter ciência de sua adaptação livre sobre fatos, o que descobri apenas ao iniciar a pesquisa para recomendá-la. Foi especialmente divertido conferir que várias cenas a me soarem exageradas, pelo ardor prático e cruel da inimizade entre as protagonistas, integravam o relato verdadeiro. A avó de Eduardo Hanzo, segundo o próprio, operou uma rotina cujo único objetivo era infernizar o juízo da vizinha. Uma obcessão retroalimentada com iguais doses de ódio e perversidade pela inimiga, a quem realmente apelidou de “Boi”, para variar da ofensa usual até então: “vaca”.

As entrevistas de Eduardo Hanzo ilustram algumas apostas da versão ficcional que se dissociaram das insanidades testemunhadas rotineiramente por ele. O ódio fermentado na vida da avó e da vizinha não chegou a contaminar as relações dos descendentes de ambas, que cresceram e brincaram juntos, em paz. Na minissérie, porém, surge um romance proibido entre a filha de Turandot, Norma, e o filho de Yolanda/Boi, Montgomery, cujo fruto é o neto das inimigas, Roblou.  

Norma se engrandece pela interpretação de Danielle Winits, que garante preciosas nuances ao estereótipo gostosa/burra, mérito alcançado no mesmo nível por Montgomery, papel de Marco Luque, a quem eu conhecia apenas no campo da comédia, mas cuja atuação se mostrou muito além, uma agradável surpresa para mim.

Vale citar ainda Alessandra Maestrini no papel da policial gay “Seu Rocha” – como a personagem prefere ser chamada –, que nutre uma paixão por Norma. É a filha de Turandot que a ajuda a deixar de lado o visual sóbrio da farda, pelo uso de maquiagem, vestidos cheios de brilhos e salto alto, mas isso apenas quando Seu Rocha se apresenta como cantora lírica. A performance de Alessandra Maestrini em Eu, a Vó e a Boi amplifica sua voz e afinação privilegiadas, dom seguramente conhecido por Miguel Falabella, que contracenou com a atriz em “Toma lá, dá cá” – série na qual ela interpretou a inesquecível Bozena, empregada doméstica cujo bordão “Lá em Pato Branco...”, que dava início a seus causos, lhe rendeu o título de cidadã honorária pato-branquense.

Em uma entrevista sobre Eu, a Vó e a Boi, ainda em 2019, Falabella expõe a contemporaneidade do enredo. “É o que nós estamos vivendo: polarizações, ódios...”. Sem entrar em spoiler, tal percepção explica a cena final da série, espantosa e ainda plena em atualidade.

A segunda sugestão de hoje é uma minissérie documental, ou seja, opera sobre fatos, teoricamente sem admitir qualquer licença à ficção - "This Is a Robbery: The World’s Biggest Art Heist", na versão em português O maior roubo de arte de todos os tempos.  Disponível na Netflix, ela reúne, porém, vários elementos comuns às melhores histórias de gênero policial, e a gente ainda aprende um bocado sobre obras de renome e os gênios que as pintaram.

A minissérie, criada e dirigida por Colin Barnicle, enfoca exatamente o que seu título resume: o maior roubo de arte já executado no planeta.  Ocorreu na madrugada de 18 de março de 1990, portanto há mais de 30 anos, no Dia de St. Patrick, tradicionalmente festejado com farta ingestão de álcool, o que contribui para distrair a polícia.

Os ladrões conseguiram entrar no Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, no estado norteamericano de Massachusetts, disfarçados de policiais. Engambelaram os dois seguranças de plantão alegando que investigavam uma ocorrência naquela área. Com os guardas amarrados no porão, se sucede uma limpa bastante seletiva, que a dupla de bandidos executou ao longo de 81 minutos. Foram levadas 13 obras de arte - pinturas, gravuras e artefatos históricos -, cujo valor total é estimado em quase 3 bilhões de reais.

Entre os autores de quadros roubados, há ícones estelares como Rembrandt, Vermeer, Degas, Manet e outros de semelhante relevância. Reside aí um dos maiores méritos da minissérie documental: mostrar o impacto de um crime dessa natureza não apenas para o museu vítima dele, mas sobre um patrimônio artístico cultural em tese pertencente à humanidade.

Fiquei encantada com a análise da obra de Rembrandt que os ladrões levaram: “Cristo na Tempestade do Mar da Galiléia”. Pintada em 1633, mostra um Jesus tranquilão no barco quase naufragando, em contraste aos homens que o circundam, desesperados, inclusive o próprio Rembrandt, em autorretrato.

Porém, a trama crucial a sustentar o interesse do público em O maior roubo de arte de todos os tempos é o processo de investigação do crime. As perguntas sem respostas se acumulavam, a começar de “como os ladrões venderiam obras tão famosas?”, e a teia de suspeitos só crescia, indo de pessoas com acesso privilegiado ao museu até integrantes da máfia.

A narrativa é amarrada pelos depoimentos dos que se associaram à ocorrência em contextos diversos, tecendo uma rede intrincada de fatos, ilustrados ainda por notícias da época do crime. A minissérie mescla assim uma aula de arte aos meandros de uma extensa e complexa investigação, cujo resultado o leitor deve conferir. Vale a pena.

Por fim, deixo a oposição do grande Oscar Wilde ao entendimento aristotélico que abre a coluna: “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”.

Para maratonar:

Eu, a Vó e a Boi – seis episódios, completa na Globoplay;

O Maior Roubo de Arte de Todos os Tempos – quatro episódios, completa na Netflix

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