Do que você seria capaz diante de uma situação extrema?
“Um contra todos” e “Breaking bad” são ótimos exemplos do poder das circunstâncias
Blogs e Colunas | Levando a Série 16/10/2020 16h00 - Atualizado em 16/10/2020 16h02

O título aqui é uma pergunta que já me fiz várias vezes, provocada por séries cujos personagens encaram realidades capazes de transformar seus caminhos ao extremo. Duas histórias levantam poderosamente tal reflexão: “Um contra todos” - produção brasileira com selo da Fox - e o sucesso mundial Breaking bad

Em “Um contra todos”, completa na Globoplay, o advogado Carlos Eduardo Fortuna (Júlio Andrade) leva uma vida simples e harmoniosa. Casado com Malu (Júlia Ianina), pai de um filho pequeno e com outra criança a caminho, tudo desaba quando ele é vítima de um erro judicial e vai preso. Ainda no decorrer do processo, o advogado ganha a alcunha de “Doutor do Tráfico”, criada pelo apresentador Simões Lobo, cabeça de um daqueles “noticiários mundo cão”, papel perfeitamente cumprido por Stepan Nercessian. Porém, tão logo se vê atrás das grades, o inocente Cadu constata que esse absurdo título lhe granjeava respeito em meio aos detentos com os quais passara a conviver. Por autopreservação num espaço a princípio hostil, o advogado incorpora a nova identidade, o “Doutor”, de forma a manter aquele inesperado e muito conveniente status. 

Essa é a situação extrema com a qual se depara o honesto Carlos Eduardo Fortuna, personagem fictício exposto na internet como existente e inspirador do enredo. Não procede, mas até veículos sérios embarcaram nessa teoria, insustentável a partir da segunda temporada de “Um contra todos”, quando a narrativa descamba totalmente. Gostei imensamente da primeira, admitindo que contribuiram para isso aspectos pessoais/afetivos: meu cunhado, o ator e diretor Roney Villela, interpreta o agente penitenciário Santa Rosa, operador de esquemas para viabilizar “benefícios” comprados pelos detentos, mas que, ainda assim, transmite bondade. Até porque ele é mero peão num jogo muito maior, controlado pelo diretor do presídio, Demóstenes Alencar (Adriano Garib), tão ou mais criminoso do que os presos sob sua responsabilidade.  

Primeira produção televisiva de Breno Silveira, que ganhou vários prêmios, inclusive de Melhor Diretor por “2 filhos de Francisco” e “Gonzaga: de pai para filho”, a série é abrilhantada por um elenco de peso. Júlio Andrade também amealhou prêmios e indicações por sua atuação como o advogado Cadu, mas o “China”, de Thogun Teixeira, e a “Mãe”, de Silvio Guindane, são outras atuações especialmente dignas de nota.  “Um contra todos” é o Brasil mandando muito bem na fita, fazendo bonito em meio à dramaturgia mundial. 

Uma das mais emblemáticas circunstâncias para a entrada no mundo do crime está em Breaking Bad (em Português, o sentido seria “jogando tudo pro alto” ou “chutando o pau da barraca”), disponível por completo na Netflix, que catapultou sua audiência. O primeiro a reconhecer tal mérito do serviço de streaming é o criador da série, Vince Gilligan: “Breaking bad se tornou insanamente popular graças à Netflix”, disse ele em uma entrevista, na qual se coloca muito grato por esse impulso. Os números confirmam: o final da quarta temporada atraiu apenas dois milhões de telespectadores nos EUA, onde era transmitida pelo canal fechado AMC. Com a ida simultânea para a Netflix, a audiência quintuplicou, alcançando dez milhões de espectadores, ao término da série, na quinta temporada. 

Vamos à trágica história que viria a se tornar um megahit mundial. O professor Walter White (Bryan Cranston) lecionava Química no ensino médio, sem grande entusiasmo. Tinha que se desdobrar em ainda outro emprego num lava-jato de carros para suprir as necessidades da esposa – a bela Skyler (Anna Gunn) – e do filho adolescente com paralisia cerebral, Walt Junior (RJ Mitte). Nesse panorama já desafiador, ele recebe o diagnóstico de um câncer no pulmão incurável. Desesperado por garantir melhores condições à família após sua partida, o químico acaba por se unir a um ex-aluno, Jesse Pinkman (Aaron Paul), traficante nas horas vagas. O negócio deles: produzir uma puríssima metanfetamina. É o pontapé para o desenrolar de uma história cheia de dramas, altos e baixos, suspense, emoção e violência. Um complicador adicional é o fato do concunhado de Walter White – marido da irmã de sua esposa, interpretado por Dean Norris – trabalhar na Agência Antidrogas (DEA) da região. 

O fenômeno Breaking bad se deve ainda à enormidade de prêmios que conquistou. Só de Emmy´s na categoria “melhor ator em série dramática”, foram quatro para Bryan Cranston (2008/09/10/14), cuja transformação lenta e contínua do pacato professor Walter White em um chefão do tráfico se impõe decisiva para a qualidade da trama. A acolhida do público ensejou um spin-off – um subproduto em bom português: a série Better call Saul (Melhor chamar o Saul), do mesmo criador, Vince Gilligan, agora contando a trajetória do modesto advogado James Morgan McGill até se tornar o topa-tudo Saul Goodman, responsável por salvar a dupla de traficantes de Breaking bad em meio a vários percalços. Sorte do ator Bob Odenkirk, que faturou dois trabalhos seguidos, um como coadjuvante; outro como protagonista. O mesmo ocorreu com Aaron Paul, cuja performance no papel de sócio de Walter White, renderam que seu personagem Jesse Pinkman tivesse continuidade, desta vez no filme El Camino, também disponível na Netflix. 

Sobre esses contextos de situações extremas, encerro com uma reflexão do filósofo francês Jean-Paul Sartre: "O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós". 

Para maratonar:
Um contra todos – três temporadas, total de 24 episódios, completa e disponível na Globoplay;

Breaking bad – cinco temporadas, total de 62 episódios, completa e disponível na Netflix. 
 

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Monica Pinto é Jornalista, editora do portal F5News, mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná e viciada em séries

E-mail: monica.pinto@f5news.com.br

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