Dois desdobramentos de histórias que ficaram à altura dos originais
"Cobra Kai" e "Young Sheldon" pegaram o barco de sucessos e os honram perfeitamente
Blogs e Colunas | Levando a Série 08/01/2021 16h00

No campo do entretenimento, o evento mais esperado para muitos neste janeiro era a estreia da terceira temporada de Cobra Kai na Netflix. Incluída neste universo, eu ansiava por tal distração de qualidade, o que já confirmara nas duas temporadas anteriores, ainda mais num momento em que o Brasil volta a contar mortos por covid-19 aos milhares. Felizmente, os novos episódios cumpriram à perfeição a expectativa de sair da realidade e embarcar numa ótima história. A série é a continuação, 34 anos depois, do delicioso filme "Karatê Kid", que acabou virando trilogia e é muito querido até hoje, talvez com um interesse nutrido pelo remake com o Jaden Smith, o talentoso filho do idem Will Smith. E agora, com a série, seguramente o clássico está sendo assistido por gente que não tinha com ele qualquer familiaridade.  

Cobra Kai era o nome do dojô (a escola de Karatê) dos filmes originais, gerenciado por um sensei (na prática, o professor dessa arte marcial) chegado à psicopatia – John Kreese (Martin Kove). Entre as regras que seus alunos deviam cumprir rigorosamente, constam atacar antes de ser atacado e não demonstrar nenhuma misericórdia. Tal sensei obviamente exerceu péssima influência nos karatecas sob seu treinamento. Um deles, Johnny Lawrence, perde importante campeonato para o oponente, Daniel LaRusso, aluno do dojô antítese do Cobra Kai, com valores filosóficos sensatos, disseminados pelo Sr. Miyagi, papel inesquecível do saudoso Pat Morita, que, além de sensei, cumpriu a função de uma figura paterna para o jovem Danny.

Achei sensacional: na série, os protagonistas são os mesmos atores que, rapazes, interpretaram os rivais no filme. O derrotado Johnny Lawrence continua na pele de William Zabka, agora um homem feito a enfrentar o insucesso também fora dos tatames. Saltando de um emprego para o outro, pai de um filho que não teve condições econômicas e psicológicas de criar – num afastamento que lhe dói muito -, consumidor de álcool com fartura, o Johnny adulto ainda tem que observar a harmonia existencial construída pelo jovem que o venceu no fatídico torneio: Daniel LaRusso. Também interpretado pelo mesmo ator, Ralph Macchio, ele é dono de uma concessionária de automóveis, marido e sócio da bela Amanda (Courtney Henggeler), a quem ama com reciprocidade e com quem teve um casal de filhos.

Criada por Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg e Josh Heald, a série expõe via flashbacks e diálogos as vivências que moldaram o caráter dos personagens mais questionáveis. Aposta no lado humano, falível, em vez de julgar pela ótica maniqueísta do bem versus o mal. O sofrido Johnny Lawrence, por exemplo, faz todo um esforço em resolver suas questões internas e começa auxiliando o vizinho, o jovem Miguel Diaz (Xolo Maridueña), salvando-o de um grupo de agressores, restando claro que ainda mandava muito bem no Karatê. É assim que Johnny decide abrir um dojô para chamar de seu e dá ao espaço o nome de Cobra Kai, reavivando aquele onde treinava, embora não propague seriamente as premissas de fascínio pela violência do passado. 

Entre altos e baixos dos personagens, a exceção fica por conta do sensei antiético e babaca ao extremo John Kreese, que retorna igualmente abominável em ótima interpretação do mesmo ator, Martin Kove. Peço perdão pelo spoiler, mas é dele que se espraia a sucessão de brigas – sim, tem muita pancadaria -, aprendizados e reflexões a transformarem paulatinamente alguns dos alunos. E haja jovens no elenco: a filha de Danny LaRusso, Samantha ou “Sam” (Mary Mouser); o filho abandonado de Johnny, Robby (Tanner Buchanan), o já citado Miguel e muitos outros estudantes que encontram no Karatê a oportunidade de investir em autoestima e autodefesa ou de bancar o valentão por “divertimento”, a depender dos próprios caminhos. 

Cobra Kai foi lançada no YouTube Premium em maio de 2018, mas findou comprada pela Netflix, de onde partiu para o sucesso. No Brasil, desde a estreia desta terceira temporada, figura entre os top 10 dos produtos mais acessados no serviço de streaming. Merece. Comecei a assistir sem grandes pretensões e fui fisgada de imediato. É uma ótima história, mas presumo que funcione melhor para quem já conhece o filme – e eu tenho o original e o remake. Se não for seu caso, vários flashbacks rememoram ou situam os contextos, no que me parece outra grande sacada, esse uso de cenas antigas. Recomendo enfaticamente e estou quicando pela quarta temporada, que já teve confirmação, porém sem data prevista.  

Passemos à segunda sugestão: Young Sheldon (Jovem Sheldon), também um spin-off – na indústria do entretenimento, termo para classificar a derivação de uma obra anterior, no caso a série The Big Bang Theory, já comentada nesta coluna. Como o nome deixa claro, o enfoque é, por enquanto, a infância do cientista mais carismático da história que lhe deu origem, Sheldon Cooper, em outra criação do Midas no gênero comédia Chuck Lorre, desta vez em parceria com Steven Molaro. Young Sheldon tem narração do ator que encarna sua versão adulta, o fantástico Jim Parsons, também autor da ideia e produtor executivo da série. 

Como na matriz – Big Bang -, a força reside nos personagens, muito mais do que em cenários ou figurinos. Acompanhamos o garoto Sheldon (Iain Armitage), na primeira temporada com nove anos de idade, morando no Texas com a mãe, Mary (Zoe Perry), devota cristã; o pai George (Lance Barber), técnico de futebol americano; o irmão mais velho George Jr., “Georgie” (Montana Jordan), e sua irmã gêmea, Missy (Raegan Revord). Sobre essa menina atriz, hoje com 13 anos, vale citar o portal IMDb, referência em informações sobre entretenimento, que a classifica como uma artista nata, a interpretar “a favorita dos fãs, Missy Cooper, a irmã gêmea atrevida e ousada de Sheldon”. De fato, ela é apaixonante, dotada de uma sagacidade nas relações interpessoais que se contrapõe divertidamente à falta de noção sobre as mais basilares convenções sociais, característica do irmão gêmeo e gênio levada à vida adulta dele, pelo que se observa em The Big Bang Theory

O Sheldon do ator mirim Iain Armitage, atualmente com 12 anos, é um espetáculo à parte. Ele mergulhou nas singularidades do personagem com eficiência impar, sobretudo para alguém que, lembremos, é uma criança. Os produtores Chuck Lorre, Steven Molaro e Jim Parsons ficaram impressionados com a fita de audição de Armitage. "Sua mãe o gravou na casa de sua avó durante o Natal", disse Parsons ao "Entertainment Tonight" em agosto de 2017. "Chuck e Steve escreveram este monólogo ridiculamente longo e complicado, que Armitage aparentemente acertou em cheio”, prosseguiu o ator do Sheldon adulto, para quem o intérprete mirim a sucedê-lo foi “alucinante”. 

Entre a série com o Sheldon homem e a nela inspirada, com ele criança, a nota destoante fica por conta do patriarca George, treinador de futebol americano na escola dos filhos. Na primeira, em várias ocasiões, Sheldon se refere às brigas entre seus pais, em geral causadas pelo exagero do marido de Mary no consumo de álcool. Curiosidade: a atriz Zoe Perry, a mãe do gênio criança, é filha da atriz Laurie Metcalf, que interpreta o mesmo papel na série original. Em Big Bang, fica claro que o singular cientista cresceu em um lar rotineiramente desarmônico, no qual a avó materna – sempre chamada de Meemaw, termo carinhoso equivalente a “vovózinha” – evoca um oásis de carinho e mimos que o neto sempre apreciou e correspondeu em amor beirando a idolatria.  Mas até onde vi em Young Sheldon – as duas temporadas na Globoplay -, essa tensão cotidiana entre os pais foi descartada, talvez para tornar a série mais leve, agradável a todos os públicos. George pai até bebe oceanos de cerveja, mas por enquanto desse hábito só adveio uma barriga enorme. 

Fora o jovem Sheldon e sua gêmea Missy – brilhante ao modo dela -, a Meemaw, a vovózinha Connie, surge como uma agradável surpresa. Annie Potts, atriz que a interpreta, dona de carreira extensa e respeitável, imprime à personagem o perfil ousado que os autores da série determinaram. Os muitos comentários do neto adulto sobre ela em Big Bang afloram a imagem de uma senhorinha pacata, amorosa e distinta na métrica da “moral e dos bons costumes”. Mas na história do Sheldon criança, a vovó Connie é uma mulher livre, ativa, super em forma, que bebe, fuma, joga a dinheiro e, viúva, se relaciona com eventuais parceiros a seu bel prazer. A cara do transgressor Chuck Lorre que, no entanto, mantém a coerência da Meemaw entre as duas séries, pelo amor expresso por ela ao neto gênio e, melhor, pela compreensão e suporte às idiossincrasias dele.  

O que conecta Cobra Kai e Young Sheldon, em suma, vai além de ambas partirem de obras aclamadas, uma operando sobre o futuro e a outra, sobre o passado. As duas são inteligentes, muito bem conduzidas e atingem o objetivo de proporcionar diversão à altura de um público cada vez mais disputado. 

Por fim, me despeço com um ensinamento de Lao-Tsé, a quem se atribui a autoria do Tao Te King, comumente traduzido como “O Livro do Caminho e da Virtude”, obra fundamental na minha caminhada: “Conhecer os outros é inteligência, conhecer-se a si próprio é verdadeira sabedoria. Controlar os outros é força, controlar-se a si próprio é verdadeiro poder”.

Para maratonar:
Cobra Kai – três temporadas, total de 30 episódios, quarta já confirmada, disponível na Netflix;

Young Sheldon – duas temporadas, total de 44 episódios, disponível na Globoplay.

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Monica Pinto é Jornalista, editora do portal F5News, mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná e viciada em séries

E-mail: monica.pinto@f5news.com.br

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