Duas ótimas séries comprovam que idade é um estado de espírito
“Grace e Frankie” e “O Método Kominsky” impressionam pela força de seus protagonistas
Blogs e Colunas | Levando a Série 23/10/2020 13h00 - Atualizado em 23/10/2020 13h59

“Envelhecer é um privilégio”. Concordo com essa premissa integralmente: quem não fica velho(a) é porque morre antes disso – o que me parece muito pior, ponto. Sem adentrar no equívoco da construção cultural que promove o sentido de obsolescência, em detrimento de experiência, as duas séries enfocadas aqui têm como protagonista uma turma que já passou dos 70 anos – no mínimo. E contrariando a lógica de uma carreira em que velhice é quase um crime, dá um show de vigor, talento, comicidade e perseverança. Em geral, gosto de mesclar os serviços de streaming, mas nesse caso ambas têm assinatura da Netflix.

Em Grace & Frankie, duas mulheres de idade na casa dos 70 anos veem a ruína dos respectivos casamentos por um motivo bastante insólito: seus maridos, advogados e sócios, são apaixonados um pelo outro desde os 50 anos. Depois de duas décadas vivendo essa relação proibida, resolvem sair do armário e assumir o amor recíproco que até então escondiam – pelo jeito com enorme eficiência, já que suas mulheres nem sonhavam com tal desfecho. Isso não é spoiler, na abertura já se expõe a circunstância sobre a qual é elaborada a história.

Lógico que essa situação foi um tremendo baque para as esposas, mas tudo transcorre com leveza, humor e detonando tabus – características da série. Grace é interpretada por ninguém menos que Jane Fonda, prestes a completar 83 anos, em dezembro próximo, com uma estampa invejável. Frankie é a atriz Lily Tomlin, 81 anos feitos em setembro passado. Agora divorciadas, sem nunca terem sido realmente amigas, elas acabam indo morar juntas e só a interação dessas personagens muito diferentes justifica assistir a série. Grace é uma senhora mais tradicional, digamos assim, refinada e atenta aos padrões de comportamento que julga aceitáveis. Frankie é o oposto: do tipo “alternativo”, mística e dotada de um espírito libertário, o que torna essa coabitação das duas estopim de muitas desavenças e iguais doses de divertimento. As atrizes, amigas de longa data, nos anos 80 protagonizaram a comédia “Como Eliminar Seu Chefe”, junto com Dolly Parton. Em dezembro passado, Lily Tomlin foi inclusive presa num protesto contra as mudanças climáticas promovido por Jane Fonda. 

Passando ao agora liberto casal, Robert Hanson, ex-marido de Grace, é interpretado pelo veterano Martin Sheen, aos 80 anos um ator célebre no cinema, mas cuja atuação foi marcante ainda em outra série de grande sucesso – The West Wing. O ex-marido de Frankie, Sol Bergstein, é o papel de Sam Waterston, que completa 80 anos em novembro próximo. O quarteto de octogenários acumula tantas indicações a prêmios e vitórias que complica entrar nessa seara, mas registre-se que só Jane Fonda levou dois Oscar de melhor atriz para casa, além de outras cinco vezes concorrendo na categoria.

Sábias como deveriam ser mulheres a essa altura de vida – e homens também, convenhamos –, Grace e Frankie imprimem à série um caráter evolutivo, de aceitação daquela nova realidade, cada uma a seu tempo e a seu modo.  E as proles das relações com os então maridos são igualmente sensíveis e tolerantes. Grace e Robert tiveram duas filhas: Brianna (June Diana Raphael) e Mallory (Brooklyn Decker), já adultas no início da história e aparentemente mais preocupadas com a rigidez da mãe do que com a surpresa existencial pela via paterna.  Frankie e Sol têm dois filhos de perfil oposto no aspecto comportamental, mas semelhante no respeito ao caminho escolhido pelo pai adotivo.  Coyote (Ethan Embry) enfrenta problemas com drogas, mas nunca chegando a atitudes maldosas, enquanto seu irmão Bud (Baron Vaughn) é focado e responsável, além de negro. Ou seja, uma circunstância que rotineiramente demanda explicações, outra vez em abordagens leves e bem humoradas. 

Grace & Frankie marca o retorno de Marta Kauffman ao patamar que ela merece, na qualidade de cocriadora de “Friends”, em parceria com David Crane, e nessa nova investida, dividindo a autoria com Howard J. Morris. Entre uma e outra série, minha impressão é que vicejou a aposta num público a se identificar com “qualquer forma de amor” – meu caso. 

Passemos à segunda indicação: O Método Kominsky. Encontrei a classificação de “dramédia" sobre a série e me agradou, mas o fato é que só vendo para entender a profundidade do enredo.  O personagem Sandy Kominsky é interpretado pelo ator Michael Douglas, filho do lendário Kirk Douglas e com um estereótipo viril legitimado pela sucessão de papéis que alimentaram essa imagem – quem não se lembra de "Instinto Selvagem"? Seu melhor amigo, o agente artístico aposentado Norman Newlander, um show de interpretação de Alan Arkin, personifica o adjetivo “ranzinza”, dotado de um humor ácido, que entremeia com absoluta falta de humor. Ambos são ganhadores de Oscar e outros prêmios.

Sandy é um ex-ator que viveu razoável sucesso, após o que cria, em Hollywood, um curso de atuação baseado em sua experiência, daí o nome da série – O Método Kominsky. Embora algumas cenas de suas aulas sejam fascinantes, o suprassumo da história é a amizade entre os dois protagonistas e a relação deles com a velhice.  Dá o que pensar, em meio a dificuldades e humor e, em alguns momentos, tristeza.

A assinatura dessa incrível série é de Chuck Lorre, um especialista em comédias, criador de dois grandes sucessos no gênero, sobre as quais falarei em outra ocasião mais detidamente: Two and a half men (Dois homens e meio) e The big bang theory (A teoria do Big Bang).

Por fim, deixo a mensagem de Platão, filósofo que dispensa apresentações:  “A velhice é um estado de repouso e de liberdade no que respeita aos sentidos. Quando a violência das paixões se relaxa e o seu ardor arrefece, ficamos libertos de uma multidão de furiosos tiranos”. A todos(as) vocês, desejo que cheguem com saúde e harmonia à terceira idade – também conhecida como a melhor, classificação longe de ser unânime. 

Para maratonar:
Grace & Frankie – seis temporadas, total de 78 episódios, sétima e última já confirmada pela Netflix;

O Método Kominsky – duas temporadas, total de 16 episódios, terceira e última já confirmada pela Netflix. 

Mais Notícias de Levando a Série
Arte: Sidney Xambu
20/11/2020  16h00 Duas famílias e suas quizumbas na berlinda com humor e crueza
Arte: Sidney Xambu
13/11/2020  16h00 Poderes dedutivos e personalidades fortes contra o crime e a doença
Quando a ficção é inquietante e vai muito além do entretenimento
06/11/2020  16h00 Quando a ficção é inquietante e vai muito além do entretenimento
Arte: Sidney Xambu
30/10/2020  13h00 Dois tabefes inteligentes e divertidos na condição humana
Do que você seria capaz diante de uma situação extrema?
16/10/2020  16h00 Do que você seria capaz diante de uma situação extrema?

Blogs e Colunas
Levando a Série
Levando a Série

Monica Pinto é Jornalista, editora do portal F5News, mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná e viciada em séries

E-mail: monica.pinto@f5news.com.br

O conteúdo e opiniões expressas neste espaço são de responsabilidade exclusiva do seu autor e não representam a opinião deste site.