‘Midnight Mass’ e ‘Lore’ expõem potencial maléfico da ignorância e do fanatismo | Levando a Série | F5 News - Sergipe Atualizado

‘Midnight Mass’ e ‘Lore’ expõem potencial maléfico da ignorância e do fanatismo
Ambas as séries promovem reflexões sobre caminhos e descaminhos da humanidade
Blogs e Colunas | Levando a Série 21/11/2021 14h00 - Atualizado em 21/11/2021 21h03

A fictícia Ilha de Crockett, nos Estados Unidos, tem apenas 127 moradores. A comunidade vive em meio a uma decadência aparentemente inexorável, acelerada por um derramamento de óleo em sua costa, por culpa da petrolífera que o transportava. O subsequente extermínio da maior parte do pescado que nutria a atividade comercial e a subsistência daquela população ocorreu três anos antes da história narrada em Missa da Meia-Noite (Midnight Mass). A minissérie, disponível na Netflix, embora se encaixe no gênero horror, é capaz de levantar muitas reflexões sobre os caminhos da sociedade contemporânea no mundo real, com ênfase para o fanatismo religioso. 

Ligada ao continente por duas barcas - uma faz o trajeto pela manhã; outra à tarde -, a ilha parece ter 50 tons de cinza, pelo clima constantemente nublado e pela aparência descuidada das residências. Todas precisam de umas demãos de tinta, o que se reproduz no templo local da Igreja Católica, frequentado por poucos fieis. O octogenário padre Pruitt era o pastor daquelas ovelhas há décadas e, muito querido, ganhou da congregação recurso financeiro para peregrinar à Terra Santa.  Porém, no dia em que estava previsto seu retorno pela balsa da tarde, ele não aparece. Depois de uma tempestade que desliga a energia, quem surge em Crockett é o muito mais jovem padre Paul Hill (Hamish Linklater). Personagem central num enredo eletrizante e recheado de enigmas, ele explica que vai substituir temporariamente o antecessor, acamado no continente, informe recebido com certa cautela pela comunidade, refratária a estranhos.

Mas as fofocas e atenções se dividiam sobre outro recém-chegado, naquele mesmo dia: o sofrido Riley Flynn, em excelente interpretação do ator Zach Gilford, que teve um papel aquém de sua estatura em Good Girls. Riley concretizou o que a maioria dos jovens em Crockett sonhava: foi embora. Em Chicago, se deu bem no mercado financeiro, prosperou a ponto de perder o prumo e viu tudo ir ladeira abaixo quando, bêbado ao volante, causou a morte de uma moça. Depois de cumprir quatro anos de cadeia por homicídio culposo, ele volta à ilha, para o lar em que ficaram seu irmão mais novo, sua bondosa mãe (Kristin Lehman) e seu pai exalando frieza e reprovação (Henry Thomas). 

O trio de recém-chegados que protagoniza Missa da Meia-Noite se completa com Erin Greene (Kate Siegel) que, como Riley, buscou outros rumos fora da ilha. Filha pródiga de melhores antecedentes do que o amigo de infância, ela assume o posto de sua falecida mãe como professora da cidade. O casal vai, rapidamente, realimentando o afeto e o suporte mútuos que trazia do passado. Riley, em especial, encontra na culpa um tormento rotineiro, literalmente assombrado pela presença da jovem cuja morte causou. 

Bem, mas onde entra na veia o horror que justifica o gênero da minissérie? Já chego lá. Ocorre que o padre Paul é um fenômeno, como o povo da ilha vai descobrir, junto com o público. No início, mesmo dotado de óbvio carisma e de potente oratória – enaltecidos pela atuação brilhante do ator Hamish Linklater –, o padre Paul não conseguia aumentar o número de fieis dispostos a comparecer às missas. 

Provavelmente um empecilho a essa tarefa está na personalidade de sua auxiliar Bev Keane (Samantha Sloyan), sempre pronta a julgar e condenar os desviados - na concepção dela. Mas a personagem não o faz diretamente, e sim por olhares e sorrisos nos quais não se vislumbra qualquer resquício de paz. Emblemática da hipocrisia, Bev Keane é suspeita de ter embolsado parte do dinheiro arrecadado para a viagem do idoso monsenhor Pruitt.

Uma das principais vítimas dos jorros de preconceito de Bev Keane é o xerife da ilha Crockett, Hassam (Rahul Kohli), que assumira o cargo há pouco tempo. Muçulmano praticante, viúvo criando sozinho o filho adolescente, ele entrou para a polícia movido pela determinação em ajudar os outros. Um contraponto válido à imagem injusta e perversa, alimentada deliberadamente, que resume toda uma fé aos extremistas fanáticos, os Talibãs da vida.  

De volta aos poucos fiéis arrebatados pelo padre Paul, nada melhor do que um milagre realizado à frente de todos, inquestionável, para dar novo fôlego àquela depauperada Igreja. Não posso antecipar o que ocorreu, mas outros se sucederam. A fé brotava e se expandia por toda a cidadezinha, tão ardorosa quanto incontrolável, sob o toque de um anjo do Senhor – conforme acreditava seu suposto intermediário, obviamente o padre Paul Hill.

É partir daí que o horror ganha corpo. O tal “anjo” – um Batman literal, digamos assim, com asas de morcego – se adere à representação de um ser demoníaco no imaginário popular. Poderíamos até nos abstrair de suas feições de aspecto maligno - que não vou antecipar –, afinal, aparências enganam. Mas essa premissa desaba por força do comportamento da criatura e dos poderes que confere ao padre Paul, numa escalada de eventos trágicos, incontroláveis e sanguinolentos cujo desfecho acontece na Missa da Meia-Noite.

A minissérie, criada, escrita e dirigida por Mike Flanagan, referência no gênero horror, trabalha com o sagrado e o profano, expondo muitos dos matizes encontráveis entre esses dois conceitos. Usa a ficção para abordar caminhos e descaminhos da fé doutrinada. Mais além, evoca questões recorrentes na humanidade sobre o “divino”, de onde viemos e para onde vamos. Em Missa da Meia-Noite, são expostos os meandros pelos quais essas “respostas”, quando tomadas como verdades absolutas, tendem a se alinhar com a maldade. As muitas “Guerras Santas” da história real já provaram isso, mas, pelo jeito, a espécie humana ainda não aprendeu.

Se há uma palavra capaz de definir Lore (Crenças), da Amazon Prime Video, a meu ver, seria “perturbador”. Em maio deste ano, iniciei o texto de uma coluna dizendo que tinha desistido de comentar uma série, justamente por esse efeito. Vivíamos então uma realidade dramática, com milhares de mortos por covid-19, diariamente. Mas o panorama atual, favorável à esperança, reacendeu a validade de chamar a atenção para um trabalho que, na prática, sistematiza histórias nas quais a ignorância é a protagonista. Não raro contracenando com sua fiel escudeira, a barbárie.

A proposta de Lore já fora testada com sucesso, no podcast criado e narrado por Aaron Mahnke, que fez o mesmo na versão para a telinha. Cada episódio tem enredos isolados e abre com o aviso: “Tudo o que você está prestes a ver é baseado em pessoas e eventos reais”.  Lamentavelmente, antecipo.  

Um dos episódios soou a mim especialmente perturbador, embora vários exponham atrocidades que seres humanos impuseram a outros seres humanos, pela equação resultante de ignorância acima da bondade e da misericórdia. Situado na Irlanda do Século XIX, o enredo nos apresenta Bridget Cleary, uma mulher simples cuja vida começava a melhorar por intermédio de seu trabalho como costureira, exercido em paralelo à venda de ovos. O marido dela se incomoda com tal ascensão e também com o fato da esposa buscar um pouco mais de elegância, em sintonia com o negócio da costura. “Meias pretas” é o título da história, em alusão às que ela usa para deleite próprio, já que nem aparecem por baixo das longas saias.

Resumo da ópera: o marido diz a Bridget que não “reconhece mais a mulher com quem se casou”. E aí entra em cena uma crendice irlandesa, segundo a qual fadas maléficas podiam substituir pessoas, colocando no lugar delas uma duplicata idêntica. Para determinar se alguém fora vítima dessa troca, chamada de “changeling”, o fogo era uma estratégia usual, já que em tese insuportável para as criaturas a conduzirem o “reino das fadas”. Vez por outra, mulheres e crianças – tidas como as principais vítimas desse “fenômeno” -, terminavam mortas, por asfixia ou queimadas mesmo, no transcurso de tal "processo investigatório".

Igualmente triste é a constatação de que mulheres são assassinadas por atuais ou ex-companheiros até os dias de hoje, e eles nem precisam mais de uma crença insana para “justificar” sua violência. O marido de Bridget, Michael Cleary, foi preso, mas ela continuou morta. E semelhantes a ele há muitos por todo o planeta, não só na Irlanda.

Outro episódio de Crenças também se destacou para mim, agora por razões amenas, alívio no cenário geral da série. Nele conhecemos Robert Gene Otto, um menino no início dos anos 1900 cuja solidão se apaziguou ao receber de presente um boneco, ao qual dá seu nome. O brinquedo, mais do que xará, é rapidamente elevado à condição de único amigo.

Só que ao Robert inanimado começam a ser atribuídos fenômenos estranhos e assustadores, como móveis revirados e, assim, surgiu a tese de que estivesse possuído por algum espírito, entidade, algo do tipo. Com isso, de brinquedo passou à categoria de maldição. Nada que se compare aos banhos de sangue do “boneco assassino” Chuck, protagonista de filmes abaixo da crítica e renascido – outra vez – em uma série lançada há pouco. 

Achei particularmente curioso que o suposto boneco Robert original seja uma das principais atrações do Fort East Martello Museum, em Key West, na Flórida, onde está em exibição desde 1994. Pelo que verifiquei pesquisando, o museu aposta no marketing sobrenatural com empenho. “Robert The Doll está sentado dentro de uma caixa de vidro, mas isso não parece impedi-lo de infligir medo e desconforto aos funcionários e visitantes do museu. Os membros da equipe relatam que a expressão facial de Robert muda, ouvindo risadas demoníacas e até mesmo vendo Robert colocar a mão no vidro”, diz um trecho da sagaz divulgação.

Não é fácil assistir Crenças. A gente se vê diante de um apanhado de absurdos que, em geral, resultou em crueldade. Ainda resulta. Mas para quem não ignora esse potencial destrutivo da ignorância, a série é imperdível.

Por fim, deixo à reflexão um pensamento de Sócrates que resume o tamanho do dano: “Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”.

Para maratonar:

Midnight Mass (Missa da Meia-Noite) – minissérie com sete episódios, disponível completa na Netflix;

Lore (Crenças) – duas temporadas, total de 12 episódios, disponível na Amazon Prime Video.

 

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