Por que a polêmica ‘Dom’ merece atenção e reflexão | Levando a Série | F5 News - Sergipe Atualizado

Por que a polêmica ‘Dom’ merece atenção e reflexão
Primeira grande produção brasileira com selo da Amazon, série tem muito a mostrar - até demais
Blogs e Colunas | Levando a Série 06/08/2021 17h50 - Atualizado em 06/08/2021 23h26

Na semana passada, mencionei aqui o mercado de trabalho pulsante e diverso proporcionado pelo ramo do entretenimento. Produções cinematográficas e televisivas dependem de equipes técnicas e artísticas cujos profissionais encontram, no lazer dos outros, seu ganha-pão. Iluminadores, cinegrafistas, editores, eletricistas, pessoal de vestuário, transporte, alimentação, logística, edição e montagem fazem parte desse time que cuida de viabilizar nosso divertimento. Atores, atrizes, diretores e diretoras, a turma em geral em outro nível de remuneração, também movimenta e dá vida a uma máquina de alta rentabilidade, se de fato houver incentivo a que busque qualidade criativa e de execução final. Observe os créditos ao fim do filme ou do episódio de uma série: aquela gente toda pagou conta fazendo aquilo que você acaba de assistir.

Principalmente motivada por esse mérito inquestionável de um panorama cultural aquecido, rompi uma barreira e vou falar de Dom. Meu bloqueio teve origem na péssima acolhida à série por parte da mãe e da irmã de Pedro Machado Lomba Neto, o “Pedro Dom”, como ele próprio veio a se apresentar na vida real. O jovem de família classe média carioca, cuja folha criminal inspira a primeira grande produção brasileira com assinatura da Amazon Prime Video, faria 40 anos no próximo setembro.

Fiquei balançada em divulgar uma série geradora de sofrimento no mundo real, inclusive ao filho de Pedro Lomba que, aos 16 anos, passa por tratamento psiquiátrico contra depressão. Porém, pesou a necessidade de prestigiar as produções nacionais, diante de um cenário cultural onde um festival de jazz já tradicional na Bahia se vê impedido de captar recursos via Lei Rouanet. O evento venceu o obscurantismo por obra e graça do escritor/mago Paulo Coelho, que resolveu patrociná-lo do próprio bolso.

Séries e filmes brasileiros não podem contar com tamanha generosidade e as grandes plataformas de streaming se tornaram uma tábua de salvação, capaz de garantir certo fôlego ao setor. A Amazon Prime Video já confirmou a segunda temporada de Dom, que foi exibida em mais de 240 países desde sua estreia em junho passado, e angariou a maior audiência entre as séries originais da plataforma em língua não inglesa.  Uma ótima notícia, a alimentar esperança de mais investimentos na produção nacional – com todo respeito à família de Pedro Lomba.

Cada episódio de Dom é precedido da informação “inspirado em fatos reais”, assim mesmo, com redundância. O enredo acompanha a conturbada trajetória do protagonista, Pedro Dantas, desde os 14 anos usuário de cocaína, e seu ingresso no crime para manter o vício. Dirigida pelo cineasta Breno Silveira, cuja filmografia inclui o sucesso “Dois filhos de Francisco”, a série não se limita à ação policial, embora capriche em cenas tensas. O drama familiar também é um ponto forte da narrativa, centrado no relacionamento difícil entre Pedro – competente atuação do ator Gabriel Leone – e seu pai, Victor Dantas, papel de Flavio Tolezani na versão homem e de Filipe Bragança, rapaz. Para piorar, ambos os personagens estão em posições radicalmente opostas: enquanto um consome drogas ilegais, o outro trabalha para combater o tráfico que as disponibiliza.  

Um dos lemas da contracultura lá pelos anos 60, “Sexo, drogas e rock´n´roll”, encontra paralelo em Dom, bastando trocar o rock pelo funk. Há cenas tórridas de transas nada convencionais – digamos assim – e a cocaína rola solta, o que explica a Amazon também abrir os episódios com um alerta que termina recomendando os “Narcóticos Anônimos”. No campo das drogas lícitas, o consumo de álcool e cigarro é igualmente farto.

Os roubos bem sucedidos do “bonde” sob liderança de Pedro Dom evocam o dito popular “as aparências enganam”. Branco de olhos claros, ele ganha notoriedade ao invadir e roubar imóveis de luxo na Zona Sul carioca, passando fácil pelos porteiros e eventuais seguranças dos condomínios, que se iludiam por um estereótipo culturalmente adequado a aqueles ambientes.  Na vida real, essa estampa lhe granjeou a alcunha de “bandido gato”. A série ilustra o modus operandi da quadrilha, com Dom se apresentando nas portarias acompanhado da cúmplice Viviane, louraça sempre em trajes sumários, papel perfeito para a bela e competente Isabella Santoni.

No elenco, vale citar ainda a atriz Raquel Villar, que interpreta Jasmin, parceira de Pedro, inclusive e sobretudo nas atividades criminais, e o ator Ramon Francisco, morador da comunidade onde o amigo de infância com muito melhor condição social sucumbe à dependência química. Adorei rever o experiente Fábio Lago, agora no papel de um chefe do tráfico, mas o prefiro encarnando o mítico Curupira na ótima Cidade Invisível, já recomendada aqui.

Resta dizer que não se esgotará tão cedo o debate necessário sobre os limites de biografias não autorizadas, ainda que sob o eufemismo do “inspirado em fatos reais”. A mãe e a irmã de Pedro foram representadas na série contra vontade. Entraram na justiça para impedir esse projeto do pai de Dom, Luiz Victor Dantas Lomba, que o negociou à revelia delas, cujo propósito era unicamente não ver um passado tão pessoal e sofrido ser exposto em mais de 240 países.  Sequer foram convidadas a conferir se havia algum aspecto capaz de feri-las, se “inspirado” de forma ofensiva - aquelas coisas do ramo do respeito, que deveria pautar todas as relações humanas. Circunstancialmente, Luiz Victor sequer conferiu o resultado - muito menos a repercussão - de seu projeto. Ele morreu vítima de um câncer em dezembro de 2018, portanto, bem antes da série ser lançada.

Por fim, deixo à reflexão uma frase curiosamente atribuída ao filósofo grego Platão, pelo jeito um romântico: “Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta quando o amor toma conta dele”.

Para maratonar:

Dom – uma temporada com oito episódios, disponível na Amazon Prime Video.

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