'Lost': porque vale a pena ver ou rever um dos maiores sucessos de todos os tempos | Levando a Série | F5 News - Sergipe Atualizado

'Lost': porque vale a pena ver ou rever um dos maiores sucessos de todos os tempos
Série virou símbolo da cultura pop, rendeu um dinheirão à rede ABC e até hoje tem legiões de fãs
Blogs e Colunas | Levando a Série 03/09/2021 16h15 - Atualizado em 03/09/2021 16h35

Em 22 de setembro de 2004, a rede norte-americana ABC levou ao ar o episódio piloto de Lost (Perdidos). Ninguém poderia prever o interesse mundial despertado pela história fantástica – em todas as acepções da palavra – que começa com a queda de um avião em uma ilha tropical muito estranha, no Oceano Pacífico. Sobrevivem 48 passageiros do voo 815 da fictícia viação Oceanic, saído de Sydney, na Austrália, para Los Angeles, nos Estados Unidos. A partir daí, se apresentam sucessivos mistérios e reviravoltas, enquanto os sobreviventes buscam, cada um a seu modo, lidar com o fato de que nenhuma equipe de resgate seria capaz de os encontrar.

A série era uma cartada vital para a rede norte-americana, que verificava contínuas quedas de audiência. O custo de produção só desse primeiro episódio foi de U$ 10 milhões, tornando-o um dos mais caros da história. Para se ter uma ideia, a megaprodução "Game of Thrones", teve mesmo custo de piloto, só que sete anos depois, em 2010. A temporada inicial de Lost completa teve custo médio de U$ 2,2 milhões por episódio – são 25 –, uma aposta beirando a insanidade na época, sobretudo por seu grau de risco.

Mas a ABC se deu muito, muito bem, e eu entendo perfeitamente as razões pelas quais Lost fez tamanho sucesso. Assisti há cerca de dois anos, quando ainda constava do catálogo da Netflix. Minhas noites eram em frente à TV, maratonando sem querer dormir. Agora, decidida a escrever aqui sobre a série, hoje disponível na Amazon Prime Video e na GloboPlay, fui rever apenas a primeira temporada. “Preciso entrar no clima”, disse aos meus botões. Era a ideia inicial. Ocorre que, de novo, Lost me bateu na veia e pretendo prosseguir até o derradeiro episódio.

A maior dificuldade aqui é dimensionar devidamente o enredo sem dar spoiler. Fora que, se você perguntar a dez pessoas sagazes do que exatamente trata Lost, é provável que ouça dez respostas diferentes. Aí reside um dos maiores méritos da série: ela não entrega nada pronto. Os personagens são mutantes na medida em que se veem impelidos ou obrigados a lidar com as próprias imperfeições – como os humanos do mundo real – e as leituras sobre o que fazem ou deixam de fazer se condicionam visceralmente aos entendimentos particulares de cada um a embarcar na história.  

Segue o melhor resumo que consegui pensar: um monte de gente junta, sem qualquer conhecimento prévio entre si, num cenário adverso piorado por um monstro invisível, por ursos polares numa ilha tropical e mais um tanto de enigmas cuja explicação vem em conta-gotas, isso quando vem. Aparecem os líderes natos, ora fazendo coisas boas e movidos por elas; ora mentindo, usando de violência evitável - enfim, uma salada comportamental a lembrar quão frágil é a civilidade diante de circunstâncias inimagináveis. O personagem abjeto em um episódio pode, no seguinte, ganhar seu coração. E toda essa faceta do que, a rigor, significa “humanidade”, é muito bem trabalhada nos flashbacks, por intermédio dos quais o público vai conhecendo as vidas pregressas dos sobreviventes levados àquela convivência involuntária.

Um bom exemplo está em Sawyer (Josh Holloway), o primeiro a mandar o processo civilizatório às favas, recolhendo tudo que lhe garantisse conforto ou poder de negociação, em meio à bagagem espalhada na queda do avião, fosse de mortos ou vivos. Pouco se lixando para o interesse coletivo, ele se apresenta como o suprassumo do egoísmo, ainda mais em contraponto ao médico cirurgião Jack Shepard (Matthew Fox), nos primeiros episódios alçado à quase santidade por seus esforços incansáveis em cuidar dos feridos e salvar vidas. Só que Lost é muito acima do maniqueísmo bem versus mal. Sinceramente, me deixa feliz que tanta gente, no mundo inteiro, tenha conseguido perceber a estreiteza desse julgamento e visto uma reprodução fantasiosa, sim, mas fiel aos meandros da caminhada humana.

Para se entender o quanto é particular isso, um dos meus personagens preferidos é Sayid Jarrah, ex-torturador no exército iraquiano. Tudo bem, eu sei que só uma pessoa abominável consegue gostar de torturadores, mas Lost é ficção e o personagem traz muitos demônios internos, cheio de arrependimento e dor pelas atrocidades de seu passado. Além disso, quem interpreta o Sayid é o ótimo ator Naveen Andrews, que eu revi depois como o Jonas na incrível Sense8, já enfaticamente recomendada aqui.

Encontrei uma definição da parte de um dos cocriadores, também um dos produtores executivos de Lost, Damon Lindelof: “Essa série é sobre pessoas metaforicamente perdidas em suas vidas, que pegam um avião, caem numa ilha, e se tornam fisicamente perdidas no planeta Terra. E uma vez que elas se tornam capazes de encontrar a si mesmas, estarão capazes de achar fisicamente sua localização no mundo novamente”. 

Esse encantamento reverberou por grande parte do mundo, naturalmente que começando pelos EUA, onde chegou a 23,47 milhões de espectadores na estreia da segunda temporada. A rede ABC ia só colhendo os frutos de sua ousada aposta. O custo de um espaço de anúncio de 30 segundos chegou a U$ 900 mil após essa estreia de audiência astronômica - um aumento de 400% das taxas iniciais negociadas antes do início da temporada.  A ABC também licenciou mais de 150 produtos baseados em Lost.

Exibida de 2004 até seu desfecho, em 2010, a série foi indicada 398 vezes em diversas categorias nos mais importantes prêmios de público e crítica, ganhando 113. Só no Emmy teve 51 indicações e ganhou 10, inclusive na categoria “Excepcional série dramática”, algo considerado singular à época, já que o prêmio raramente conferia reconhecimento a programas de fantasia e/ou ficção científica.

Um dos fatores que seguramente contribuiu para o sucesso de Lost foi seu caráter multinacional, sem aquela cara de produção norte-americana, haja vista que o elenco tinha mais de dez nacionalidades diferentes, com direito à participação do brasileiro Rodrigo Santoro em uma temporada. Por aqui, a série levou a TV Globo a verificar o crescimento da audiência no horário – o dobro de aparelhos ligados na rede -, a partir de sua estreia em fevereiro de 2006. Os episódios eram exibidos de segunda à sexta, depois do Jornal da Globo, até o final da jornada mágica na ilha, com o início da última temporada indo ao ar exatamente cinco anos depois, em 7 de fevereiro de 2011. A emissora se animou tanto com Lost que criou um blog específico para os fãs da atração, com quiz e debates.

Na Coreia, Lost teve retumbante e ininterrupta acolhida, com a audiência embalada pela fama pregressa de Yunjin Kim, a Sun, uma estrela de cinema local antes da série. Junto com o ator Daniel Dae Kim, intérprete do marido dela, Jin, o casal protagonizou uma iniciativa inédita na TV norte-americana: em toda a primeira temporada, eles falam a língua natal, com legendas em inglês, o que nunca havia ocorrido em um programa no horário nobre. O elenco internacional contou também com o ator peruano Henry Ian Cusick, o Desmond na história.

A performance monetária de Lost ganhou reportagem na sisuda revista econômica "Forbes" – uma das mais respeitadas e tradicionais do gênero. Em junho de 2010, sob o título “LOST: por trás dos números de um fenômeno da TV”, a publicação analisa "os números do enigma confuso, cativante e curioso que é Lost”. E emenda: “não, não queremos dizer 4, 8, 15, 16, 23 e 42”, em alusão à sequência misteriosa que aparece em vários momentos da série. Achei muito curioso uma revista de perfil tão sério fazer essa pertinente brincadeira.

Vamos à polêmica do final – meio mundo amou; a outra metade, detestou. Particularmente, com todo respeito, acho que a segunda turma simplesmente não entendeu. Em 2018, convidada à Dragon Con, evento tradicional na cidade de Atlanta, Georgia (EUA), a atriz Evangeline Lilly, a intrépida e imperfeita Kate da série, fez uma avaliação a me soar bastante apropriada: “Não existe uma única interpretação para o final de Lost. Para cada pessoa que está nessa sala, existe um final real e verdadeiro de Lost. Porque é apenas um reflexo de quem vocês são, e é a grande pergunta sendo feita a vocês, não a grande resposta sendo dada”.

Quanto aos belíssimos cenários de Lost, eles existem de verdade na ilha de Oahu, um dos lugares mais espetaculares do Hawaii, que ganhou impulso turístico a partir da série e da locação a outras produções, desta vez cinematográficas, como "Jurassic Park" e "Godzilla".  Sorte da empresa Kualoa Ranch, proprietária da ilha de 16 mil Km², que fatura alto com suas opções de tours pela região. O “campo de golfe do Hurley” – também um dos meus personagens preferidos – tem até uma reprodução dele, como se vê na foto abaixo.

Por fim, deixo à reflexão um pensamento da gloriosa Clarice Lispector: “Perder-se também é caminho”.

PS – Tinha terminado de escrever esta coluna quando surgiu a notícia de que Lost vai sair do catálogo do Prime Video, ainda sem data definida, mas em breve. Fiquei muito brava com a informação - primeiro porque a série chegou à plataforma só no ano passado; segundo, porque pesquisei exatamente essa possibilidade antes de começar meu texto e nada havia de anunciado a respeito. Felizmente, há outra opção para assistir – a GloboPlay.  

Para maratonar:

Lost – Seis temporadas, total de 121 episódios, completa na Amazon Prime Video (por enquanto) e na GloboPlay

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