‘The Bold Type’ e ‘Self Made’: mulheres em busca dos próprios caminhos | Levando a Série | F5 News - Sergipe Atualizado

‘The Bold Type’ e ‘Self Made’: mulheres em busca dos próprios caminhos
Histórias bem-sucedidas, apesar dos desafios, são exemplos de superação e coragem
Blogs e Colunas | Levando a Série 21/05/2021 15h40 - Atualizado em 21/05/2021 16h11

Vou contar rapidamente o que às vezes ocorre no processo de elaboração desta coluna. Comecei a ver uma série na Amazon Prime Video pelo potencial de indicá-la e desisti. Não lhe faltava merecimento, ao contrário, porém percebi que ia mergulhando num certo transtorno, pelas situações verdadeiras expostas a cada episódio. Meu marido teve idêntica sensação e concordamos sem pestanejar que seria inconveniente sugerir algo propenso a perturbar as pessoas, num momento em que a realidade já é, por si só, tão perturbadora. Vai ficar guardada para ocasião menos tensa.  

Assim, passamos a uma alternativa que já constava na lista desde que chegou recentemente ao acervo da Netflix: The Bold Type, em português com o título “Poder feminino”.  A série ficou dias entre as atrações mais assistidas no Brasil e me foi recomendada por uma grande mulher, razão pela qual embarquei sem hesitar. A história é leve e divertida, embora surjam algumas circunstâncias dramáticas.  

Em termos gerais, The Bold Type se debruça sobre três mulheres jovens, na casa dos 25 anos: Jane (Katie Stevens), Kat (Aisha Dee) e Sutton (Meghann Fahy). Amicíssimas, elas trabalham na revista Scarlet, voltada ao público feminino e pertencente ao grupo editorial Steinem, cravado num prédio em Nova York que me fez lembrar da potência e do status da mídia no passado. Bons tempos. Como se trata de uma obra ficcional, é admissível a pujança da estrutura da revista, com um salão repleto de profissionais da área da comunicação, espécie de prestígio ladeira abaixo.

As protagonistas em The Bold Type ocupam cargos diversos na revista Scarlet, recebendo salários invejáveis, pelo que se pode depreender do padrão de consumo do trio. A série começa com Jane promovida a redatora, seu sonho, enquanto Kat administra as redes sociais da revista, trabalho de muita responsabilidade, e Sutton é assistente de uma diretora. Na prática, isso significa estar em desvantagem frente aos postos das colegas de trabalho e de apartamento. Porém, ao menos na primeira temporada da série – a que assisti por enquanto -, inexiste competição entre elas. O que há é o oposto: apoio, torcida, sinceridade, amor e respeito, ingredientes básicos para uma amizade que mereça esse nome.    

Os percalços enfrentados pelas moças em sua busca obstinada e meritória pela ascendência nas respectivas carreiras se mescla aos desafios compartilhados por grande parte das mulheres, independentemente da faixa etária - no pódio, conciliar vida pessoal e amorosa com a profissional.   

A editora-chefe de Scarlet é Jacqueline Carlyle (Melora Hardin), personagem “vagamente inspirada”em Joanna Coles – como ela mesma definiu –, jornalista mega poderosa que ocupou o mesmo cargo por muito tempo na revista Cosmopolitan em Nova York, sede da rede internacional homônima. No Brasil, você deve se lembrar dela como “Nova”, da qual fui leitora assídua. A revista circulou por aqui de 1973 a 2018, quando o Grupo Abril, detentor dos direitos, deixou de publicá-la, em meio a um pacote no qual encerrou também outros oito títulos.

A ex-editora-chefe Joanna Coles começou sua sólida carreira jornalística como repórter e se deu muito bem, atua inclusive como produtora executiva em The Bold Type. Ouso supor que isso explique a montanha de atributos positivos da personagem que ela inspirou. Sua colega de cargo fictícia, Jacqueline Carlyle, é bela, inteligente, sagaz, criativa, segura, um poço de eficiência. Exerce o tipo de liderança no qual acredito, pautado pelo estímulo ao bom trabalho, num ambiente harmônico e propício para que essa meta se viabilize, de preferência com todo mundo feliz por estar ali. Apesar de me identificar plenamente com essa métrica, acho que carregaram nas tintas. Até onde assisti, Jacqueline beira a perfeição e, como ouço desde criancinha, “ninguém é perfeito” – felizmente, já que essa compreensão tende a humanizar os relacionamentos, penso eu.

Há uma vertente “feminista” na história – e coloco entre aspas porque, em pleno Século XXI, ainda viceja colossal carga pejorativa sobre um movimento justo, legítimo e, no passado, responsável por conquistar o direito das mulheres ao voto, para citar rapidinho apenas um entre muitos exemplos. As personagens da série ouvem as próprias vozes e as externam, com destemor. Em geral, não admitem construções culturais alimentadas historicamente, a começar do que eu mesma escutei centenas de vezes: “mulheres não são amigas de mulheres”. The Bold Type derruba essa e outras baboseiras, nutrindo o tipo de sociedade cujo alicerce, em resumo, está no respeito ao próximo, seja de que gênero for.   Mais do que nunca, acho fundamental remar nessa direção.  A quinta temporada da série estréia no próximo dia 26 na Netlix e já houve o anúncio de que será a última. Prosseguirei.

A amizade entre mulheres, cuja rede de suporte mútuo se encaixa no conceito de sororidade, também está presente com força em séries como Friends e How I Met Your Mother, ambas enfocadas numa mesma coluna. No entanto, caminhando para os 60 anos, me conectei demais também com as peripécias das duas ousadíssimas senhoras personagens título de Grace & Frankie. Mesmo octogenárias ou perto disso, a dupla de amigas protagoniza outra história moderna, coerente com o Século XXI e já sugerida aqui.

Agora, o melhor exemplo de mulher incrível a que tive acesso nos últimos tempos está em uma minissérie, também disponível na Netflix. O nome dado a ela em português foi “A Vida e a História de Madam C.J. Walker”, um título totalmente inadequado em relação ao original, em inglês: Self made - inspired by the life of Madam C.J. Walker (Por conta própria - inspirado na vida de Madam C.J. Walker). “A Vida e a História” indicam uma biografia fidedigna, o que não é o caso. O título original expõe honestamente que se trata de uma inspiração, ou seja, nem tudo que se vê na telinha corresponde à realidade, há licenças narrativas – o contrário do que prega a Netflix Brasil com essa tradução inexata.

Feita a ressalva, agradeço à plataforma por ter trazido a meu conhecimento a história – ainda que em parte romanceada – da “primeira mulher a fazer uma fortuna pessoal de mais de um milhão de dólares”, recorde registrado no Guiness. Se esse montante até hoje corresponde a uma dinheirama, imagine em 1919, quando Madam C.J. Walker virou verbete na publicação.

Assisti mesmerizada aos quatro episódios da minissérie. Negra, filha de pais escravizados, a mulher nascida Sarah Breedlove construiu um império cuja força motriz veio da decisão de sonhar alto e acreditar que era possível, sim, cumprir suas ambiciosas metas. Isso vindo de alguém sem instrução, que trabalhava como lavadeira em regime semiescravo, o que parecia o destino inexorável das mulheres com o perfil dela - à época e adequado ainda na atualidade, para gente com a qual não me ocuparei.  

As inserções fictícias na trama não aborreceram a tataraneta e biógrafa oficial da madame negra que viria a ser milionária, a jornalista A'Lelia Bundles, esperançosa de que a minissérie desperte o interesse sobre essa sua gloriosa ancestral.  A adaptação da Netflix se inspirou em um dos livros de sua autoria - “On Her Own Ground: The Life and Times of Madam C.J. Walker” (Em seu próprio terreno: a vida e os tempos de Madame C.J. Walker). "[Há] personagens que não existem na vida real e cenas que não aconteceram realmente, mas é claro que é assim que uma história chama a atenção, e é assim que uma história deve ser contada em Hollywood", declarou.

O texto a seguir faz parte da biografia assinada por A´Lelia Bundles no portal de Madam C.J. Walker, que fui pesquisar de imediato: “Durante a década de 1890, Sarah começou a sofrer de uma doença no couro cabeludo que a fez perder a maior parte do cabelo. Ela consultou seus irmãos para obter conselhos e também experimentou muitos remédios caseiros e produtos comprados em lojas, incluindo aqueles feitos por Annie Malone, outra empresária negra. Em 1905, Sarah mudou-se para Denver como agente de vendas de Malone, depois se casou com seu terceiro marido, Charles Joseph Walker, um jornalista de St. Louis. Depois de mudar seu nome para "Madam" C. J. Walker, ela fundou seu próprio negócio e começou a vender o ‘Wonderful Hair Grower de Madam Walker’, um condicionador de couro cabeludo e fórmula de cura que afirma ter sido revelado a ela em um sonho”.

A minissérie conta essa história, mas foi bastante criticada pelo exagero em tornar inimizade obsessiva o que foi uma rivalidade aceitável entre duas empresárias do mesmo ramo: a Sarah que se tornaria Madam C.J. Walker, adotando o nome do marido, e Annie Malone, rebatizada de Addie Monroe na adaptação da Netflix. Menos sentido ainda foi apresentar a concorrente, ex-mentora nos negócios, como uma vilã “embranquecida”, cuja representatividade como mulher e negra vitoriosa acabou reduzida a zero, por discursos e comportamentos flertando com o autopreconceito. Naturalmente, as reações não foram positivas, ainda mais diante do enorme sucesso de Annie Malone, não limitado ao aspecto empresarial. Também filha de pais escravizados, ela ficou milionária criando uma rede de vendas de seus produtos e capacitou milhares de mulheres negras a abrirem seus próprios negócios, exatamente como  Madam Walker.  Ambas compartilham ainda o mérito de terem feito doações vultosas a “faculdades negras”, entre outras práticas que ilustram como é possível amealhar fortuna sem perder de vista a empatia e a solidariedade com os menos favorecidos. Destaque-se que o tratamento dado a Annie Malone na minissérie incomodou até a atriz Carmen Ejogo, intérprete da personagem nela (mal) inspirada, que defendeu em uma rede social a necessidade de maior conhecimento sobre a empresária, de modo a honrar sua valorosa história.    

Sem sombra de dúvida, a qualidade da minissérie muito deve à atuação da fantástica Octavia Spencer no papel principal. Atriz negra com mais indicações ao Oscar (empatada com a igualmente fantástica Viola Davis) e única a ser indicada por dois anos consecutivos, Octavia levou para casa uma estatueta de melhor coadjuvante pelo filme “Help” - no Brasil “Vidas Cruzadas”. Madam C.J. Walker fez por merecer e recebeu uma intérprete à altura de seu legado. 

Vou parar por aqui, meu desejo fervoroso é que essa minissérie seja para outras pessoas fonte de inspiração e esperança. Se uma mulher filha de escravos conseguiu brilhar tão decididamente num mundo lotado de preconceito racial e religioso, de machismo – em síntese, de ódio e ignorância –, se fortalece em mim a fé num futuro favorável à evolução civilizatória. Obrigada, Madam C.J. Walker, a senhora ganhou mais uma fã!

É dela a mensagem com a qual me despeço, escrita em julho de 1912: “Sou uma mulher que veio das plantações de algodão do sul. De lá, fui promovida ao tanque de lavar. De lá, fui promovida a cozinheira. E a partir daí eu me promovi no negócio de fabricação de produtos e preparações para cabelo. Construí minha própria fábrica em meu próprio terreno”.

Para maratonar:

The Bold Type – quatro temporadas, 46 episódios, quinta e última já confirmada pela Netflix;

Self made - inspired by the life of Madam C.J. Walker – quatro episódios, completa na Netflix.

 

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