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'The Office': porque série encerrada em 2013 foi a mais vista nos EUA em 2020
O ator Steve Carell e o diretor Greg Daniels reeditam a dobradinha de sucesso em 'Space Force'
Blogs e Colunas | Levando a Série 30/04/2021 15h10 - Atualizado em 30/04/2021 17h21

Estava há muito querendo falar sobre The Office (O Escritório) e duas informações complementares me levam a fazê-lo agora. A primeira, nem tão recente, foi a divulgação em janeiro, pelo serviço de audiência de streaming da Nielsen, do ranking com as séries mais assistidas no ano de 2020 nos Estados Unidos. Entre as dez produções originais na liderança, nove são da Netflix – "Ozark" em primeiro lugar, Lucifer e The Crown (A Coroa) em segundo e terceiro, respectivamente, estas já comentadas aqui. Mas a grande surpresa, ao menos para mim, se situa no campo das séries adquiridas, ou seja, aquelas cuja exibição se deu via streaming em 2020, mas originárias de outras fontes. A líder de audiência foi a comédia The Office, transmitida pela rede de TV aberta norteamericana NBC, de 2005 até seu final, em 2013, posteriormente ganhando novo fôlego ao chegar na Netflix.

No Brasil, The Office está disponível na Amazon Prime Video, mas não se sabe por quanto tempo – o que me leva à segunda informação relevante. A NBC lança este ano seu serviço de streaming, Peacock, e pagou cerca de 500 milhões de dólares para readquirir os direitos da Netflix sobre a série nos EUA. Embora não haja nenhuma previsão do Peacock chegar ao Brasil, pode-se supor que The Office também vai pular fora do acervo da Amazon Prime Video, razão pela qual a hora é essa, de conhecer ou rever.

Aqui estamos falando do remake norteamericano sobre a série The Office exibida pela britânica BBC, a partir de julho de 2001, com criação e direção de Ricky Gervais e Stephen Merchant. Ambos participam ativamente da versão do Tio Sam, assinando o episódio piloto dela em parceria com o produtor e diretor Greg Daniels, que desenvolveu a adaptação. Posteriormente, ele criou a ótima Upload, comédia futurista sobre a vida pós-morte, já analisada aqui.

Resumidamente, a história foca na rotina de uma filial da fictícia empresa Dunder Mifflin Paper Company, na cidade de Scranton, Pensilvânia, estado dos EUA. Não gostei do primeiro episódio, exatamente pelo mesmo motivo que quase me fez desistir de The Good Place, já recomendada aqui: uma irritação imediata quanto aos personagens principais de ambas as séries. Nos dois casos, salvou-me a insistência da minha caçula para que eu prosseguisse, garantindo valer a pena. E ela estava certa, de novo.

Voltando ao escritório onde tudo acontece, uma equipe de filmagem acompanha o trabalho na filial e o gerente, Michael Scott, em geral é um idiota defronte a câmera. Ele se esforça ao máximo para transparecer uma imagem de líder eficiente, camarada de seus subalternos e apreciado por eles. Esse perfil, porém, só encontra guarida na cabeça sem noção do próprio, na verdade um chefe incapaz de inspirar respeito profissional, nem sequer admiração como pessoa, por seus arroubos frequentes de pura inconveniência. A primeira temporada, com apenas seis episódios, expõe a monotonia da rotina naquele escritório, a falta de entusiasmo da equipe com o próprio trabalho, e recebeu muitas críticas desabonadoras. Mas o destino ajudou e o gerente na versão norteamericana, o ator Steve Carell, viu sua carreira impulsionada pelo filme “O virgem de 40 anos”, um sucesso de bilheteria que, por tabela, conferiu novo status a The Office, cuja segunda temporada foi lançada logo após, granjeando repercussão mais positiva.

The Office consagrou o estilo mockumentary, termo que agrega as palavras inglesas "mock" (falso) + "documentary" (documentário), formato reutilizado em outras produções, a exemplo da adorável Modern Family, também já comentada aqui e cujo desfecho, disponibilizado recentemente, me levou às lágrimas pela beleza evolutiva, de amor e tolerância, com a qual me identifico.

No escritório em geral patético, me encantei pelo personagem Jim Halpert (John Krasinski), um funcionário da empresa que ocasionalmente fitava a câmera do suposto documentário, revirando os olhos em estupefação diante das loucuras do chefe, o que rendeu zilhões de memes. Ele é apaixonado pela recepcionista da empresa, Pam Beasley (Jenna Fisher), o que multiplica os méritos do enredo, também recorrente no temor geral quanto à obsolescência de uma empresa a vender papel.  

No elenco, vale ainda destacar o caricato personagem Dwight Schrute (Rainn Wilson), que leva ambição ao nível da insanidade, competitivo e bajulador, a princípio tão idiota quanto o chefe. Porém, aí se reforça a cereja do bolo: ao longo da série, fica claro que ninguém é perfeito, há lados bons e ruins em cada funcionário e no líder, como os humanos na vida real. Apreciei muito a participação de James Spader em The Office, na oitava temporada, embora siga convicta que o papel no qual seu talento melhor se evidencie esteja em Blacklist, também enfaticamente recomendada aqui.

Embora não se caracterize como icônica da vida contemporânea no patamar da genial Seinfeld, a série daquele escritório tresloucado faz tantas referências à cultura pop que alguém se ocupou em as catalogar. A consagrada revista "Time" publicou matéria sob o título “Do Black Eyed Peas ao Battlestar Galactica: todas as referências da cultura pop em The Office”, na qual comenta o portal “The Office Time Machine”, criado pelo artista digital e diretor Joe Sabia. De acordo com ele, são feitas no decorrer das nove temporadas da história cerca de 1.300 referências a programas de TV, filmes, celebridades, bordões, feriados e muito mais.

Em The Office, o roteiro ganhou brilho por conta da participação do também produtor Michael Schur em diversos episódios, inclusive fazendo uma ponta como ator. Schur é o criador de duas ótimas séries de comédia - Brooklyn 99, um besteirol já sugerido nesta coluna onde a maluquice se espraia por uma delegacia, e a já citada The Good Place, que acabou ganhando meu coração para todo o sempre.

Greg Daniels é, da mesma forma, uma estrela de ascendência contínua no campo do entretenimento televisivo e volta à dobradinha com Steve Carrell: ambos assinam Space Force (Força Espacial), disponível na Netflix, que já confirmou a segunda temporada. O interessante é que a ideia da série surgiu de um tweet do então presidente dos EUA, Donald Trump, felizmente já página virada na história. O líder defenestrado anunciou no Twitter, em 2018, a criação de um ramo das forças militares exclusivamente voltado ao espaço – a Space Force. Numa associação direta, o fictício presidente na série homônima também lança a ideia numa rede social, já com prazo e tudo: “Botas na Lua em 2024”. Só que ele escreve “boobs” (seios) em vez de “boots” (botas), o que seus asseclas classificam como erro de digitação. Uma incógnita, já que fica clara no enredo a estupidez do fictício presidente norteamericano.

Steve Carell protagoniza a história como general Mark Naird, incumbido de criar a Força Espacial. Ele é casado com Maggie, interpretada por Lisa Kudrow, uma das preferidas no sexteto de amigos que dá nome à deliciosa Friends, também já comentada aqui.  A esposa, porém, se mete numa circunstância não explicada e cujos meandros seriam um tremendo spoiler, então ficarei quieta. A filha do casal, a adolescente Erin (Diana Silvers), não gosta nadinha da mudança para o Colorado, onde é instalada a base do novo segmento das Forças Armadas - bastante ridicularizada pelas demais, a propósito, sobretudo pela Força Aérea.

Uma das peças-chaves de Space Force está na sempre carismática atuação de John Malkovitch, intérprete do cientista-chefe na base militar, Adrian Mallory, cuja relação com o general Naird vai da profunda amizade ao desgaste completo em questão de segundos. Outra figurinha carimbada é o assessor de comunicação F. Tony Scarapiducci, na pele do ator e comediante Ben Schwartz. Ele faz estripulias para criar situações e fotos postáveis nas redes sociais, mas esse é o menor dos interesses do general Naird, cuja missão é montar uma habitação experimental na Lua, antes que o faça a China, com quem os EUA disputam essa nova corrida espacial. A proposta de ambos os países é fazer da Lua um trampolim para Marte, o que a Ciência no mundo real já atestou ser estratégia viável, mas de aplicação longínqua.

Nesse processo, o enredo tem mais furos do que uma peneira, mas tudo bem, na ficção vale tudo e, especificamente no gênero comédia, a coerência vai para o espaço, sem trocadilho. Um exemplo está na escolha da equipe que, na prática, irá não só erigir essa instalação, mas morar nela por um período - ou seja a tripulação da viagem. Só posso afirmar que nunca, nem a pau, a maior parte dela sequer chegaria perto de uma nave, quanto mais viajar nela.

The Office e Space Force são divertimento garantido e alheio à profundidade – embora a primeira mergulhe um pouco mais fundo nos dilemas humanos. Por fim, deixo à reflexão uma frase do tenista norteamericano Artur Robert Ashe, ganhador de três Grand Slam: “Uma chave importante para o sucesso é a autoconfiança. Uma chave importante para a autoconfiança é a preparação”.

Para maratonar:

The Office – Nove temporadas, total de 204 episódios, disponível na Amazon Prime Video;

Space Force – Uma temporada com dez episódios, de continuação já confirmada pela Netflix.

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