‘Undone’ e ‘Love Death + Robots’: duas animações imperdíveis para adultos | Levando a Série | F5 News - Sergipe Atualizado

‘Undone’ e ‘Love Death + Robots’: duas animações imperdíveis para adultos
Histórias surreais se desenrolam apresentando as mais variadas técnicas do gênero
Blogs e Colunas | Levando a Série 13/08/2021 20h23 - Atualizado em 13/08/2021 21h19

Para quem tem pouca ou nenhuma familiaridade com animações – na minha infância, desenhos animados –, o streaming disponibiliza acervos que atestam como o gênero pode ser diversificado, da técnica empregada ao roteiro. No passado, o público infantil era quase que exclusivo, mas, ao longo dos tempos, as animações foram se direcionando também aos adultos, no cinema e na TV. Em muitas dessas versões para maiores, pululam cenas de sexo ou de violência, ou de ambos. Não me incomoda em nada, se estiverem amparando os contextos e ritmos das histórias, razão pela qual indicarei alegremente duas opções. 

Vou reforçar de modo a que fique absolutamente claro: quando se fala “animações adultas” significa que a história não é indicada para crianças. A primeira animação original da Amazon voltada ao público adulto – Undone (Desfeito) – entrou para a minha lista de séries especialmente marcantes e a classificação etária de 14 anos me parece adequada. Porém, a segunda sugestão de hoje é só para maiores, muito acertadamente: Love Death+Robots (Amor Morte mais Robôs), original Netflix do qual falaremos mais à frente.

Abro um parêntese: Nunca me arrependi de assinar o streaming da gigante Amazon, o Prime Video. Ao contrário, na minha experiência, está sendo o melhor na relação custo/benefício. Por módicos R$ 9,90 mensais, tive oportunidade de assistir a algumas séries que se cravaram no meu coração, a exemplo de Good Omens e Monk, para citar apenas duas.

Agora, Undone entra para esse rol das histórias que vão muito além de entreter – embora quem me lê aqui saiba que sou dada ao riso fácil. Encanta-me, porém, quando a série se destaca do território da irrelevância e promove reflexões. No caso de Undone, isso não se opera nas entrelinhas – a gente acompanha a protagonista Alma (Rosa Salazar) atravessando o que alguém chamou apropriadamente de “crise existencial caleidoscópica”.  

Alma mora no Texas, estado dos EUA. Tem uma vida razoavelmente organizada do ponto de vista financeiro e um cara que a ama e com quem caminha em generosa parceria – o namorado Sam (Siddharth Dhananjay). Mas a rotina que a muitos soaria como o paraíso começa a incomodá-la. “Tenho 28 anos e estou apavorada que a vida seja só isso”, diz ela já no primeiro dos apenas oito episódios. A crise vai num crescendo depois que a moça sofre um acidente de carro na primeira cena de Undone, por razão que não posso antecipar.

Ao acordar no hospital, Alma passa a conversar com seu pai, Jacob. O problema é que ele está morto. A partir desse encontro a história ganha novo ritmo, com a protagonista investigando os potenciais de sua nova habilidade recém-descoberta: dominar o próprio tempo-espaço, explorando a “natureza elástica da realidade”, como define a Amazon. Quem interpreta o fantasmagórico pai é o ator Bob Odenkirk, de quem você deve se lembrar como o advogado picareta em Breaking Bad e no spin-off da série, onde salta a papel principal - "Better Call Saul" (Melhor chamar o Saul).

Somam-se a essas aparições o transtorno de Alma diante do iminente casamento de sua irmã, Rebecca (Angelique Cabral), e a relação conturbada com a mãe de ambas, Camila (Constance Marie). Ao longo da série, a família vai descobrindo que a moça vê o pai morto, conversa com ele, e tudo piora quando ela expõe conseguir viajar no tempo. A suspeita geral é que esteja sofrendo de esquizofrenia, doença com que já fora diagnosticada a avó paterna dela, que morreu internada, e Jacob, seu filho e pai de Alma e Rebecca.

A história é fascinante por si só, mas ganhou valoroso acréscimo: é a primeira série de animação para a TV que usa rotoscopia, processo de desenho sobre filme live-action, ou seja, filmado inicialmente com atores e atrizes de carne e osso. A técnica já existe desde o início do Século XX, mas Undone, além de estreá-la na televisão, a elevou a partir da junção de variados recursos artísticos com a rotoscopia, a exemplo de pinturas a óleo em tela – feitas por mãos de verdade - para compor os cenários.

A série foi criada por Raphael Bob-Waksberg e Kate Purdy, retomando a parceria da qual nasceu outra instigante animação para adultos já recomendada aqui - Bojack Horseman -, sendo que, nesta, Purdy foi “apenas” a principal roteirista.

Passando a Love Death + Robots, trata-se de uma antologia de animações cujo público-alvo, repetindo, é maior de idade. Os episódios têm enredos independentes, portanto, dá para assisti-los em qualquer ordem, e durações variáveis, de seis a 17 minutos. A equipe de produtores executivos inclui os diretores David Fincher (de “Clube da Luta”, entre muitos outros sucessos cinematográficos) e Tim Miller (de “Deadpool"). Este, a propósito, classificou Love Death + Robots como “uma carta de amor aos nerds”.

Não me encaixo nessa tribo – falta-me inteligência à altura dela -, mas achei a antologia preciosa pela diversidade de técnicas empregadas nas animações e, sobretudo, pela ousadia de sua proposta. O original Netflix atesta na prática o espírito aberto da plataforma para a experimentação, o que pode lhe valer um diferencial decisivo frente à concorrência crescente. Não surpreende que a série animada evoque o sucesso Black Mirror, pois tecnologia é um de seus ingredientes principais. Aí se encaixam os robôs do título, mas amor (love) se expressa em muito menor proporção, perdendo fácil para a morte (death).

Entre ficção científica, terror, fantasia e comédia, vários episódios se passam em cenários pós-apocalípticos, na Terra ou em outros planetas. Há uma profusão de batalhas sanguinolentas contra alienígenas, a maioria empenhada em comer a espécie humana, literalmente. E há fartas doses de sexo - inclusive violência sexual expondo sua perversidade com crueza.

Como se trata de uma antologia, a qualidade dos enredos e das técnicas de animação empregadas está longe de ser linear. Rotular um episódio como dispensável e outro como genial se condiciona a leituras de vida e gostos muito pessoais. Particularmente, para citar um exemplo, chamou minha atenção a história de uma senhora cheia da grana, cujo aspirador-robô, integrado à inteligência artificial que opera em toda a residência, se torna uma ameaça fatal à dona e ao cãozinho dela. O melhor de tudo é a mulher fugindo enquanto busca ajuda, por telefone, no atendimento ao cliente da empresa fabricante da máquina agora tresloucada. A exemplo do rotineiro no mundo real, o retorno obtido é um misto de inutilidade, discurso decorado e incompetência.

Por fim, deixo à reflexão frase do escritor e dramaturgo Truman Capote: “Todas as pessoas têm disposição para trabalhar criativamente. O que acontece é que a maioria jamais se dá conta disso”.

Para maratonar:

Undone – uma temporada com oito episódios, disponível na Amazon Prime Video;

Love Death + Robots – duas temporadas, total de 26 episódios, disponível na Netflix.

PS - Aos fãs da aclamada série policial de comédia Brooklyn Nine-Nine, uma notícia que traz sentimentos dúbios: a oitava temporada estreou ontem (12) nos EUA, mas também será a última. Inicialmente cancelado pela Fox, o programa foi salvo pela NBC em 2018, graças aos apelos dos fãs e agora, em 2021, chega a seus momentos finais. A nova temporada, com dez episódios, ainda não tem data para chegar à Netflix, que sequer disponibilizou ainda a sétima e penúltima.

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