A STF TUR
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 14/11/2019 18h48

(Engravatado e ladrão de galinha com os mesmos direitos)

Agora, não são apenas os engravatados e que vestem Armani. A nossa Suprema Corte, numa decisão incomum, socializou o acesso à Justiça. Não ir preso deixou de ser privilégio de branco, preferencialmente rico, ou poderoso detentor de cargos importantes. Abriram-se as austeras portas da mais alta instancia judiciária do país para que, pelos seus atapetados salões, pisem todos os que usam cromo alemão, ou   chinelas havaianas, made in ninguém sabe.
Seria um palco grandioso, elegante, para uma cena fantástica, inserida nessa ópera surreal em que se transforma o cotidiano brasileiro. Ou mais uma vergonha, entre tantas que temos sido obrigados a assistir.

Pelos corredores daquele prédio, até um tanto acanhado para a monumentalidade de Brasília, todavia, com a genialidade das linhas escorreitas de Niemayer, haveria uma permanente população de “farofeiros", como são chamados os pobres, que levam seu minguado farnel para consumi-lo nas praias.
Um candidato a presidente da República, o sisudo brigadeiro Eduardo Gomes, chamou de “ marmiteiros" os trabalhadores que, em maioria, apoiavam  em 1950 a volta de Getúlio Vargas ao poder, pelo voto, depois de ter sido deposto em 1945, quando completava 15 anos de “reinado". A desastrada ofensa custou ao brigadeiro  a sua segunda derrota, na tentativa de tornar-se Presidente da República.
Em 1918, no auge da Revolução Comunista, o faiscante Palácio Smolny, em São Petersburgo, residência dos potentados da Grande Rússia, nas suas salas com adereços de ouro , cristais, mármores, diamantes, e espelhos, aglomeravam-se, em nervosa azáfama, ou extenuados, deitados ao chão,  estirados em suntuosas camas e divãs, camponeses, soldados e marinheiros, os revolucionários, integrantes dos Sovietes,  conselhos populares, que, teoricamente, seriam os responsáveis pelos rumos  do gigantesco país conflagrado. Começavam por expropriar tudo o que pertencia à nobreza decaída, e aos autocratas, dando a todos o rumo do fuzilamento. 
Um jornalista americano, John Reed, que sintetizou aqueles acontecimentos no livro Dez Dias Que Abalaram o Mundo, misturando a esperança  que ele tinha em uma nova sociedade humana, com o bafo de vodka, os cheiros de corpos humanos desacostumados com água e sabão, e a carne de javalis assados, enxergava, com olhos também de revolucionário, um tempo de Justiça e igualdade que ali estaria começando. Não foi o que aconteceu, demonstrou o Muro de Berlim, ao cair em novembro de 1989.
O Palácio do nosso Supremo Tribunal, abrigando seus  “marmiteiros” e “farofeiros", não será, em futuro próximo, ou distante, nenhuma réplica revolucionária do palácio Smolny, hoje transformado em Museu, e por sinal, fantástico.

Nem de longe imaginarmos, o STF um dia sem os seus togados, e sua corte imensa de assessores e serviçais pressurosos,  tendo apenas um Curador, cuidando de preservar  uma memória malquista, como Museu da Justiça Brasileira, depois que ali começaram a chegar, com seus habeas corpus na mão os “farofeiros", ou “marmiteiros", melhor dizendo, os ladrões de galinha.
O  Palácio Smolny foi uma edificação gigantesca de Pedro o Grande, que teria sido, pela sua capacidade de fazer uma nova capital, um precursor de Juscelino Kubitscheck, todavia autocrata, e no século dezessete. Apesar da ferocidade revolucionária daquele outubro de 1918,  perpassava, entre os “comissários do povo”, um sentimento motivador de Justiça e Igualdade, logo suprimida pela barbárie das vinganças.
No   Palácio  do Supremo,   repleto de “ marmiteiros"  e  “farofeiros", ou ladrões de galinha, estarão passando, ao  lado deles, até com caras de desprezo, os senhores engravatados, que, saídos da prisão, ou tendo ficado livres das tornozeleiras, cercados pela luzidia comitiva de excelentes advogados  com seus habeas corpus prontos, no gozo pleno da liberdade,  a esperar pela decisão final da última Instancia. Aquela, que sempre foi absolutamente vedada aos pobres, e agora os acolhe, apenas, para  justificar a defesa de favores especificamente dirigidos a quem, não por justiça igualitária, mas, por Justiça seletiva, se fazem beneficiados. Essa Lava Jato que concede à empresa OAS o direito de pagar uma indenização de um bilhão e novecentos milhões ao longo de 28 anos,  nega a recuperação judicial a centenas de empresas médias e pequenas, que, em cinco ou dez anos, poderiam ser recuperadas e manter empregos.
Impunidade mesmo só existirá se os magistrados, todos, deixarem de aplicar a prisão preventiva, mas, ainda assim, o Supremo estará aberto aos requerentes contra a violação dos seus “direitos".

A Corte Suprema, que deveria prioritariamente cuidar de sanar dúvidas constitucionais, terá de decidir, de agora por diante, sobre centenas de milhares de processos, na maioria de bandidos irresignados com a prisão. Não demora, Beira Mar, Marcola, Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, e tantos e tantos outros, estarão na fila do Supremo. Haverá muita gente farta com o resultado do saque, e também muito malandro mal sucedido  nessa fila, e se deveria, então, pensar melhor na logística da coisa. Existem ladrões miseráveis, pobres, e poucos ricos, a grande maioria é de afanadores de galinhas, mesmo, então, por equidade, se deveria pensar numa empresa de turismo estatal, a STF-TUR. Subsidiada pelo Governo, ou recebendo generosas doações do Fundo Partidário. A nova turisteira organizaria pacotes a preços módicos, e com financiamento de algum banco estatal ou particular. Assim, ficaria mais fácil a ida à Brasília dos coitados ladrões de galinha encarcerados em primeira instancia, junto com os seus malvestidos advogados, para os quais seriam providenciados  guias bem falantes, cheios de elegâncias, que os conduzissem pelos  “labirintos brasilienses.”
Afinal, precisamos ter em Brasília um Supremo Tribunal acessível à toda a nossa vistosa população de delinquentes.
Mas, apesar de tudo o que acontece, não será com o discurso extremado de ditaduras, governos de excessão, autoritarismos, supressão de liberdades, censura à imprensa, fechamento do STF, que as nossas falhas serão corrigidas. Muito menos, com a crença equivocada na ação de salvadores da pátria. Esses pretensos salvadores, exatamente porque assim se julgam, arrogantemente, bem cedo se desmoralizam.

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Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa

É jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Ambientalista, fundou o Instituto Vida Ativa que, dentre outras atividades, viabilizou em 18 anos o plantio de mais de um milhão de mudas da Caatinga e Mata Atlântica.

E-mail: lecjornalista@hotmail.com

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