DAS "FAVELAS" DE OSLO ATÉ A "HIBERNAÇÃO" DA FAFEN
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 24/01/2019 16h20

Um jornalista sergipano chegava a Oslo numa madrugada. Saíra cedo de Upsala, na Suécia, e viajava curtindo os caminhos por estradas secundárias. Agora, rodava por ruas desertas em busca de um hotel. Em torno da cidade, havia um  semicírculo de montanhas pontilhadas de luzes. Ele comentou com companheira de todas as viagens, que o acompanhava: ¨parece que erramos o caminho, estamos entrando no Rio, olhe as favelas nos morros¨.

Claro, ele não estaria imaginando que em Oslo haveria favelas.

Com menos de 5 milhões de habitantes, a Noruega é, proporcionalmente à sua população, o país mais rico do mundo, e seria também rico, se os seus habitantes fossem multiplicados por 10.

Na luminosa manhã, ainda de primavera, 17 de maio, quando o Reino da Noruega comemora o Dia da Constituição, o jornalista conseguiu acordar cedo, e já circulava cuidadosamente pelas ruas apinhadas de gente, alternando os pés entre o acelerador e o freio, não apenas por precaução, mas, para percorrer lentamente, com a vista extasiada, aquela profusão de cores nas variadas vestimentas típicas, que famílias inteiras de várias regiões do país efusivamente exibiam.

Para satisfazer à curiosidade despertada pelas luzes na montanha, começou a subir os caminhos um tanto íngremes, pela  serrania ladeando a cidade. Eram condomínios, casas isoladas com amplos jardins, tudo muito confortável, todavia, sem ostentações. Ali moravam os mais ricos da cidade, que preferiam instalar-se nas alturas. No inverno,  havia máquinas permanentemente retirando a neve e o gelo dos acessos às residências. Todas,  explicou um homem que cuidava do seu jardim, ficavam vazias. Seus proprietários iam para regiões  de clima mais ameno na Europa, e Portugal já se tornara o destino preferido, outros, escolhiam regiões tropicais no hemisfério sul, e no ultimo inverno  duas famílias haviam escolhido o Brasil, e voltaram dizendo-se maravilhadas com o país. Lembrou o jardineiro  que empresas norueguesas  operavam no Brasil, no setor de petróleo, e chegou a vaticinar que o distante país tropical, em breve seria uma das maiores potencias econômicas do mundo.

Que pena, errou.

Por toda a cidade, até nos arredores do fantástico e modernista Teatro da Ópera, havia um cheiro forte de carne assada, como se todos ali admirassem um bom churrasco, ainda mais num feriado patriótico, regado a muita cerveja e destilados fortes. A carne, de boi Angus, lá, é um produto acessível aos consumidores, todos com vistosas rendas.

A multidão, exibindo com orgulho os  trajes das regiões de onde viera, encaminhava-se ao palácio da realeza. Cumprimentavam a família real bem de perto. Numa sacada de baixa altura, o clã monárquico em uniformes de gala, estendiam as mãos aos plebeus, que pareciam se sentir muito honrados com aquele gesto. Não havia a menor preocupação com a segurança.

Mas, a tranquilidade dos noruegueses, a sua forma civilizada de viver, logo seria rompida naquele verão que se aproximava. Um fanático de extrema direita, que fazia saudações nazistas, disparou sua metralhadora, e fez uma chacina numa ilha onde se reuniam jovens noruegueses e imigrantes, curtindo, juntos, o sol, os eflúvios vivificantes do período estival nas altas latitudes do planeta. No massacre,  morreram dezenas de pessoas, todas quase  adolescentes.

Depois disso, o discurso extremado ganhou adeptos, a social democracia encolheu, e hoje a Noruega é governada por uma coalizão da direita aos seus extremos.

Mas a vida prossegue normal no país, o assassino, Andreas Breivick, permanece preso numa cela confortável, onde há TV, sala de ginástica e outros confortos, e, todas as vezes que comparece em Juízo, repete a saudação nazista.

A patologia do ódio é incurável. 

Naquele país, que mais se assemelha a um conto de fadas, o governo de extrema direita concede, indiscriminadamente, bolsas equivalentes a quase cem mil reais por ano para  escritores, não importando  qual a ideologia que tenham.

Os noruegueses leem  uma média de dez livros por ano, valorizam a inteligência, e o direito de livre pensar.

Até a década dos 70 a Noruega vivia da pesca, descobriu petróleo no Mar do Norte, e enriqueceu. Produz menos do que o Brasil, mas, com diminuta população, consome pouco, exporta muito, e montou um polo petroquímico sofisticado.

Sergipe, dentro de uns 5 a 6 anos, terá uma produção de óleo e gás aproximadamente igual a da Noruega. Exportaremos, quase tudo, temos menos da metade da população norueguesa.

Mas, descobrimos petróleo e gás antes que a Noruega o fizesse, e imaginávamos que ficaríamos ricos. Começamos a produzir na terra em 1963, e no mar, quando demos um salto quantitativo, em 1968. Desde então, não paramos de ver jorrar petróleo e gás. São 55 anos em terra, e meio século no mar.

Sergipe variou nas posições, fomos o segundo maior produtor, o terceiro, quarto, agora quinto ou sexto. Dentro de 5 ou 6 anos seremos, quase certamente o terceiro, mas então, com um acréscimo exponencial na produção, estaremos iguais a grandes países produtores, inclusive a Noruega.

Vivemos agora na fase terminal do uso do petróleo, a morte anunciada dos combustíveis fósseis,  mas, mesmo mantendo a produção durante 20 anos, continuaremos pobres, e muito distantes  do bem estar norueguês. O que recebemos são royalties, como sucede no caso do potássio, e herdamos enormes buracos e passivos ambientais a corrigir.

Na euforia das descobertas, quando trabalhadores, estudantes e professores iam a Carmópolis lambuzarem-se no ¨ouro negro¨, já surgiam as vozes dos que advertiam para a necessidade de agregar valor ao produto aqui gerado, ou seja, criando um complexo petroquímico, incluindo refinaria, uma planta de gás, e tantas outras indústrias. O presidente Ernesto Geisel começara a ver nas reivindicações sergipanas um componente claro do projeto de emancipação econômica do país, isto é, nossos interesses casavam com a estratégia dos objetivos permanentes do Brasil.

Ai veio a FAFEN, para o aproveitamento do gás, e transformá-lo em amônia, ureia, e outros produtos, todos essenciais à indústria de fertilizantes, ao mesmo tempo, a exploração do potássio. A planta de gás instalou-se primeiro, ainda nos anos 60.

Agora,  com a potencialidade que temos, lutamos por uma refinaria, um polo distribuidor de gás, e fábricas que o aproveitem, enfim, um complexo industrial  de grande porte. Só assim, de fato enriquecermos com o óleo e o gás.

Mas, nesse exato momento anuncia-se a calamidade que será a ¨hibernação¨ da FAFEN. Se isso acontecer o desastre terá proporções imprevisíveis, e quase se acaba aquele sonho de fazermos, com o óleo, o gás, aquilo que tão bem soube fazer a Noruega. De fato, se o absurdo consumar-se, o que restará para nós será o pesadelo da pobreza irremediável.

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Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa

É jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Ambientalista, fundou o Instituto Vida Ativa que, dentre outras atividades, viabilizou em 18 anos o plantio de mais de um milhão de mudas da Caatinga e Mata Atlântica.

E-mail: lecjornalista@hotmail.com

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