DOS PREÁS SONHADOS ÀS CARDINHEIRAS GORDINHAS
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 23/07/2019 16h36

(As vezes a salvação do "paraíba")

A cachorrinha Baleia, que mereceu uma das páginas mais ternas e emblemáticas da literatura brasileira, ao morrer, abatida pelo tiro do sertanejo Fabiano, compungidamente disparado, imaginava acordar num mundo “cheio de preás gordos.”

Graciliano Ramos, o mestre alagoano da narrativa sem muitos enfeites, simbolizou, no sonho de fartura da famélica Baleia, aquela capacidade que tem o homem nordestino, forçado retirante, de não perder a esperança de um dia ouvir, como a Asa Branca de Luiz Gonzaga, o “ronco do trovão, e bater asas, indo embora pra cuidar da plantação.”

Pois é, os “paraíbas” agora estão “ouvindo a chuva” e enxergando o tempo dos “preás gordos. “Anos a fio, preás e mocós saciaram a fome do sertanejo, e das “Baleias”, que acompanham os infortúnios do homem na terra ressequida. A fome ainda existe, e tem aumentado nesses últimos anos. Não é culpa, evidentemente, de quem, tão preconceituoso, transforma o nome “paraíba”, até motivo de orgulho, numa forma depreciativa de classificar dezenas de milhões de brasileiros nascidos no nordeste. A fome vem de longe, e tanto fizeram para escondê-la, que a calamidade, apesar de endêmica, ficou disfarçada, até mesmo, quando, dos casebres de taipa saiam inertes, aqueles corpos esquálidos, levados em rede, ou, nos caixõezinhos brancos, simbolizando a pureza angelical dos que, desnutridos, não tiveram assegurado o direito à existência.

E ai vinha o padre insensivelmente agente do conformismo trágico, e dizia: “Deus chama os anjinhos para a glória do Paraíso”.

E os pais com lágrimas secas, repetiam, salmodiando cabisbaixos: “seja feita a vontade de Deus.”

A fome virou tabu, um incômodo assunto que não desassossegava os de barrigas cheias, entendendo que falar em fome era mexer num assunto desagradável, e que teria de ser esquecido. Enquanto isso, de um lado continuou o farto banquete. Do outro lado, o séquito interminável dos defuntos anjinhos.

Pelas décadas dos quarenta e cinquenta, um pernambucano, Josué de Castro, retirou a questão da fome do armário das conveniências, onde a elite, descuidada, resolveu escondê-la. Seus livros puxaram a cortina que encobria a pior das chagas daquilo que se chama pobreza absoluta: a chaga da fome.

Josué de Castro mudou a visão hipócrita que o mundo tinha sobre a escassez, ou uso incorreto dos alimentos, para, àquela época, saciar a fome de três bilhões. Hoje, são mais de sete bilhões, e destes, mais de um bilhão são vítimas da fome. No Brasil, apesar de o presidente dizer que não existe fome, e aqui não se encontram nas ruas pessoas magras, milhões acordam ser ter o que comer nos seus casebres, ou vivendo nas ruas das grandes cidades, catando, no lixo, os restos de comida.

Se resolver dar uma volta pelos arredores de Brasília, Bolsonaro vai ver de muito perto a fome, com mais facilidade ainda, poderá enxergar uma legião de famintos nas ruas do centro feérico de São Paulo, a grande cidade rica, de um país absurdamente desigual.

A fome, ao contrário do que imagina o presidente, ainda existe, e hoje 14 milhões de desempregados começam a engrossar a estatística dos que deixaram de ter nas suas mesas três refeições por dia.

Entre 2015 e 2017, o auge da crise econômica, a pobreza extrema no Brasil que foi fortemente reduzida com as políticas sociais dos governos de FHC e Lula, saltou de 8 milhões para mais de 10 milhões, e vem se agravando.

Nem se quer discutir aqui políticas sociais eficientes ou ineficientes, o rápido, o inadiável, o urgentíssimo, teria sido, ao lado das reformas anunciadas, o aproveitamento do clima bastante positivo de início de governo, para a deflagração de programas pontuais de geração de emprego, basicamente, com uma injeção de recursos na construção civil, retirados do confortável colchão que dá sono sossegado aos banqueiros e rentistas.

O presidente parece não ter objetivos a alcançar. Tem alvos a destruir, e assim, deixa de aproveitar ao máximo a elevada qualificação técnica da maior parte dos seus ministros, as vezes por ele desautorizados.

Bolsonaro chega ao extremo de desqualificar setores do seu próprio governo.

Nessa terça, 23, o presidente chega a Vitória da Conquista, cidade fria nos altos da Serra Geral, para inaugurar um aeroporto que leva, por sinal, o nome de alguém que ele deve detestar: o cineasta Glauber Rocha. O presidente quer desmontar a ANCINE, e, se isso acontecer, o florescimento da indústria cinematográfica brasileira estará ameaçado. Agora, bispos, pastores, apóstolos, tipo Valdomiro, Malafaia, Edir, querem usar a ANCINE para montar suas próprias produções, empenhados que sempre estão, na “santa tarefa” de encher os seus cofres.

O governador baiano, Rui Costa, não comparecerá à solenidade, deixando de participar da entrega de uma obra construída pelo governo do estado da Bahia e pelo governo federal. Bolsonaro azedou, desnecessariamente, as relações institucionais com os governadores nordestinos, e até atacou, grosseiramente, um general que fez ponderações, pedindo mais respeito à região nordeste, sem lembrar talvez, que ele mesmo, Bolsonaro, é o supremo comandante das forças armadas brasileiras.

Talvez, na chegada à Vitória da Conquista, cidade dinâmica e arrodeada de plantações, e ainda algumas matas, o presidente se depare com bandos de cardinheiras, ou avoantes, aquelas pombas migratórias, recém-chegadas, com as chuvas, a quase todo o nordeste. Elas veem esporadicamente, tanto quando há seca, quando, como agora, a chuva encharca o chão e verdeja a paisagem. Se o presidente tivesse tempo e disposição para percorrer um pouco aquelas terras altas da Bahia, poderia encontrar casebres por todo lado, onde as pessoas ainda passam fome, ou estão mal alimentadas, apesar do progresso que ali se constata, a crise aumenta o desemprego a cada dia.

A chegada das cardinheiras, desta vez tão gordinhas, pois é tempo de safra e muito verde, está fazendo, naquelas casas paupérrimas, as pessoas estalarem a língua, enquanto preparam arapucas, redes, espingardas, badoques, baleadeiras, alçapões, cevas e fachos, sonhando com as pombas gordas, que fazem a festa do pobre, quando chegam em bandos, que a cada ano diminuem, e ajudando-lhes a matar a fome. Mas os preás com os quais Baleia sonhava, já foram quase extintos, de tanto que os “paraíbas” se viram forçados a comê-los.

Presidente, não caçoe dos “paraíbas”, não faça pouco caso da fraterna gente brasileira, que tão entusiasmadamente lhe deu o voto, e uma imensa confiança, imaginando que teria um governante governando para todos, e sem jamais querer dar “filés” aos seus filhos.

Há brasileiros por esses amplos sertões nordestinos, contentando-se mesmo, com a carne insossa dos preás escassos, e das cardinheiras que aparecem de tempos em tempos. E, felizmente, desta vez, estão gordas.

Presidente, esqueça o prometido “filé” para o filho deputado que quer ser Embaixador, pense em levar carne simples, à mesa humilde do brasileiro pobre. Esqueça os conflitos, a radicalização ideológica, os extremismos que só nos envenenam, feche a boca, e deixe que os seus ministros, aqueles, em maioria, que são sensatos e competentes, trabalhem com tranquilidade.


 


 


 

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Luiz Eduardo Costa

É jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Ambientalista, fundou o Instituto Vida Ativa que, dentre outras atividades, viabilizou em 18 anos o plantio de mais de um milhão de mudas da Caatinga e Mata Atlântica.

E-mail: lecjornalista@hotmail.com

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