O CAMINHO DE SANTA DULCE DOS POBRES
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 16/10/2019 18:52 - Atualizado em 17/10/2019 07:37

(Do caminho de Santiago ao caminho de Santa Dulce dos Pobres)

Sábado, dia 12, ao nascer do dia, pela Rota do Sertão, a SE- 175  havia, nos dois sentidos em direção à cidade que leva o nome da Padroeira do Brasil duas longas filas de romeiros. Isso se repete ano a ano, cada vez com mais gente.

Ao término das celebrações religiosas, lá pelo fim da tarde, um fato curioso: nos restos deixados pelos romeiros havia muito mais cascas de coco do que garrafas pet. Isso significa que o nosso antes chamado “coco da Bahia" está começando a derrotar o refrigerante.

Essa oferta prodigiosa do coco,  resulta de um trabalho de logística empreendido pelo empresário do turismo Manoel Foguete, agora, voltado para a industrialização, comercialização e exportação do coco, que breve chegará  também a Miami.

Existem, entre esses eventos religiosos que reúnem multidões,  os elos paralelos do  interesse econômico.  Mas, isso em absoluto não afeta a essência da fé, muito pelo contrário, é todo o aporte logístico  gerando lucro e empregos que viabiliza o deslocamento das massas humanas em busca da essência da fé, corporificada nas suas devoções.

Dai surgiu o chamado Turismo Religioso. 

Para os que preferem as longas romarias, a rota extensa se transforma em busca da espiritualidade,  a fortaleza da fé, tantas vezes vencendo as fragilidades dos corpos.

O Caminho de Santiago há mais de mil anos é percorrido por romeiros, que chegam de todas as partes do mundo. São diversos os roteiros, o mais extenso, aquele que começa nos Alpes franceses, na vilazinha  de Saint-Jean-Pied-de-Port, e após 800 estirados quilômetros se chega à majestosa Catedral de Compostela, no norte da Espanha. Lá, os peregrinos entoam os seus cantos, ouvem Missa e fazem o obrigatório ritual de bater no pescoço do Santo, para demonstrar que ali chegaram, e estão a tocá-lo. 

Os primeiros romeiros, pelos caminhos gelados dos Alpes, com frequência eram  atacados por lobos, em ferozes matilhas. Hoje, os lobos não mais existem, todavia, ao longo do roteiro multiplicam-se  os equipamentos turísticos que mudaram para melhor a vida na região. Foi, sem dúvidas, uma profunda transformação que se deve ao apóstolo Santiago Maior.

Santa Dulce dos Pobres, a primeira brasileira a alcançar a santidade, isso na perspectiva da fé católica, levou a vida a peregrinar em busca de apoio para os que padeciam das dores do corpo e das agruras da pobreza.

Baiana, ela passou uma parte da sua juventude em Sergipe. Aqui, foi noviça, e recebeu o hábito de freira. Sua clausura no Convento do Carmo, na Praça do Senhor dos Passos em São Cristóvão, está intacta, guardados com carinho seus objetos de uso pessoal.

Santa Dulce aqui começou a sua vida virtuosa, e já em outro plano, aqui se manifestou a sua transcendente presença.

Santa Dulce é também sergipana.

Em Sergipe, na cidade de Tobias Barreto, se fez em 1985 a primeira homenagem oficial à irmã de caridade que já se tornara símbolo de bondade e capacidade realizadora.

O  conselheiro do TC Carlos Pinna de Assis, lembra:

Ele era, no governo João Alves, Procurador Geral do Estado e acumulava o cargo de Secretário de Habitação. Um dia, chegou no seu gabinete o prefeito de Tobias Barreto, Luizinho Alves, para fazer-lhe um pedido: queria que o conjunto habitacional a ser inaugurado na sua cidade levasse o nome de Irmã Dulce.

Pinna foi ao governador João Alves que imediatamente concordou, lembrando, todavia, que era preciso a autorização da homenageada. Foram então a Salvador, o Secretário e o Prefeito para uma conversa com a freira. Pinna recorda a forma atenciosa como ela os recebeu e a relutância em aceitar a homenagem, alegando que trabalhava sem esperar reconhecimentos. Relutou até dizer sim, e o conjunto Irmã Dulce foi então inaugurado.

Agora, Carlos Pinna faz parte de um grupo que pretende dar amplitude à ideia do Prefeito Marcos Santana de São Cristóvão, que quer fazer da sua cidade um polo mais amplo de turismo religioso, e para isso já adotou as primeiras providencias.

Foi sugerido a criação do  Caminho de Santa Dulce. Trata-se de um trajeto a ser feito partindo de Aracaju, percorrendo a antiga estrada que levava à Velha Capital, tendo como meta de chegada o Convento do Carmo, e a visita à Clausura onde viveu a freira, agora Santa.

A ideia tem o apoio do governador Belivaldo Chagas, dos Prefeitos de Aracaju, Edvaldo Nogueira e de São Cristovão  Marcos Santana. O Arcebispo Dom João Costa já deu o seu aval.

Um grupo informal, constituído pelo Conselheiro Carlos Pinna, o jornalista Teotônio Netto, que iniciou o turismo religioso em Sergipe quando Prefeito de Carmópolis, o Secretario de Turismo de Sergipe, Sales Neto, Secretários do município de Aracaju, Carlos Cauê, Luciano Correia, e de São Cristovão, já trocam ideias, recebem sugestões, e elaboram planos.

O pessoal da Expedição Serigy, um grupo na maioria de idosos, em luta constante contra a proeminência do ventre, já incluiu na sua agenda de trilhas a inauguração daquilo que deverá ser o Caminho de Santa Dulce.

Mas será uma caminhada diferente, querem se deixar imbuir, todos, pelo mesmo objetivo de sintonizar corpo e espírito, tendo como inspiração a Santa Dulce dos Pobres. O caminho é aberto a católicos, evangélicos, espiritas, umbandistas, agnósticos e ateus.

Trilhar  é sair  livremente  em busca  de horizontes, e nisso se faz a síntese da existência humana, onde não devem caber as intolerâncias.Acácia e Samarone, capitães da equipe, já anunciam que de Salvador, passando por Aracaju, e avançando até Itabaiana, já elaboram, os baianos, um vistoso roteiro. Itabaiana se inclui, como local sagrado, o palco do primeiro milagre.

A Excursão Serigy quer se refazer, voltar a reunir seus primeiros trilheiros, todos eles, que andam um tanto separados ultimamente. Convidados para a caminhada, o governador Belivaldo, o Conselheiro Carlos Pinna, os prefeitos Edvaldo Nogueira e  Marcos Santana,  e há espaço largo para muitos outros convites.

Desde que estejam, todos, movidos e inspirados pelos bons sentimentos de fraternidade e solidariedade humana que nos foram legados pela freira baiana  que viveu em Sergipe e abençoa esta terra.

 

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Luiz Eduardo Costa
É jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Ambientalista, fundou o Instituto Vida Ativa que, dentre outras atividades, viabilizou em 18 anos o plantio de mais de um milhão de mudas da Caatinga e Mata Atlântica.

E-mail: lecjornalista@hotmail.com


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