O PT, AS LIDERANÇAS E O SACO DE GATOS
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 24/01/2020 19h12 - Atualizado em 24/01/2020 19h18

(Sem eles, Déda e Eduardo, o PT sergipano sente a falta de líderes)

Já passou o tempo em que o PT sergipano floresceu, inspirado pela cabeça de um ser privilegiado que se chamava Marcelo Déda. Na administração pública ele montou ao seu redor cabeças também lúcidas, juntos, afinavam um discurso reflexivo, todavia inquieto com o presente, e assim, prospectando o futuro.

Não é fácil para um partido que tem variadas vertentes, todas com vozes dissonantes, e  decisões raramente consensuais, sobreviver nesse torvelinho  de contraditórios.

Marcelo Déda, ao lado de Jose Eduardo Dutra e alguns outros, aprimoraram-se na arte de “domar felinos”, e assim, estabeleciam algum sossego no saco de gatos insones, inquietos, ou firmemente apegados às ideias pessoais que fazem do mundo, outros, a uma concepção do coletivismo que daria resultados, desde que obediente ao “centralismo democrático”.

Orador fulgurante, expositor pedagógico de ideias, desde as mais simples até aquelas quase transcendentais, Déda fazia prevalecer a sua voz, criando afinidades, ou amenizando discrepâncias, sufocadas à falta de argumentos válidos.

Déda se foi, Zé Eduardo da mesma forma, e o PT sergipano talvez abafado pelas adversidades que enfrenta no plano nacional, anda agora como um autor em busca de personagens, ou seja, carente de lideranças.

Para piorar o clima, os personagens sem o porte avassalador de um Déda, andam a afogar-se nas próprias individualidades, movidos pelas ambições limitadas ao redor do umbigo de cada qual.

Numa das ultimas eleições, quando houve a defecção dos velhos aliados, Valadares pai, o senador, e Valadares filho, o deputado federal, que passaram a jogar pedras onde antes lançavam confetes, surgiu à expressão nada lisonjeira que os petistas atiraram contra os dois: “cospem no prato onde comeram”.

Trata-se de uma expressão dúbia, pois tanto pode caracterizar um comportamento ingrato, como a ideia de que há, na política, uma espécie de mesa farta, ou regabofe.

Sem entrar nas questões ou questiúnculas que poderiam suscitar as duas interpretações, o fato é que os comportamentos vistos como oportunistas, geram na opinião pública reações idênticas às dos petistas, que antes falavam na cuspidela de desprezo depois de saboreada à guloseima. Agora, algumas das suas presumíveis lideranças andam a desfazer o evidente êxito administrativo do Prefeito Edvaldo. Até ontem, eram numerosos ocupantes de salas da Prefeitura, onde, de algumas, saiam decisões.

A sociedade passou a ser exigente em relação à política. Sucessivas decepções fazem com que essa exigência às vezes se torne um sentimento difuso entre a indignação e o ódio.

O político, particularmente o candidato, terá de esforçar-se muito, para compreender com sensibilidade e argúcia, as circunstancias que cercam esses delicados momentos das disputas eleitorais. Há frases que pegam, como essa do cuspe no prato saboreado,  denotando ingratidão, ou desprezo pela ética, o que é bem mais grave.

Depois do desembarque um tanto atabalhoado que caracterizou a ruptura politica do PT com o prefeito Edvaldo Nogueira, verificou-se que no saco os gatos estão mais indóceis do que antes, talvez, em busca de uma saída que é estreita, e não oferece lugar a todas as ânsias.

 Agora, na confrangedora ausência de uma liderança soprando a flauta sedutora do pastor a conduzir o rebanho, se finalmente saírem do saco, haverá gatos sem rumo certo, espalhados por todos os lados.

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CARTÓRIO OU BOTEQUIM?

(Cartório e boteco não podem ser confundidos)

Um dono de botequim abre o seu negócio no dia e hora que bem entender. Se quiser, até fecha as suas portas, e nenhum cliente poderá reclamar. O máximo que poderão fazer é passar a frequentar um outro botequim que lhe trate com mais atenção.

O dono do Botequim, apenas recebeu da prefeitura uma licença de funcionamento, e mesmo sendo microempresário, se estiver formalizado terá uma lista alentada de obrigações a cumprir. São impostos, taxas, contribuições, emolumentos, aquela espantosa e martirizante soma de exigências sobre quem tenta sobreviver enlaçado pela burocracia sufocante e o sistema tributário que escorcha.  Trata-se do aparato, ou engrenagem entre o público e o privado, que Raymundo Faoro, no seu livro Os Donos do Poder, classifica como o “Estado cartorial”.

Cartório é coisa que nunca foi enxergada com bons olhos, e sempre teve significados diversos, tanto assim que é substantivo e também adjetivo.

Mas, é serviço público de alta relevância, hoje concedido às pessoas aprovadas em  concurso, habilitadas assim, para as tarefas fastidiosas da escrituração dos atos e das coisas. Documentando, classificando, e atribuindo o selo da legitimidade e legalidade, os cartórios são essenciais ao ambiente de negócios, e também os pobres deles frequentemente precisam.

Antes, o cartório já foi um prêmio valioso, concedido pelo poder judiciário, e até pelo presidente da República. Juscelino Kubitscheck, que era fascinado pelo poder, e um tanto descuidado em relação ao patrimônio pessoal, tanto assim que morreu quase pobre, gostava de conquistar amigos, e distribuiu cartórios, quando se fez a transferência da capital do Rio de Janeiro para Brasília. No Rio, que ficou sendo o estado da Guanabara, estavam os mais disputados. Um prócer de alto coturno do PSD,  partido de JK, o  cearense Armando Falcão, recebeu o seu cartório, aliás, o melhor. Pouco tempo depois, quando Juscelino foi cassado em julho de 1964, pelo presidente  Castello Branco, Armando Falcão, amigo pessoal de Castello, seu auxiliar e conterrâneo, esqueceu-se de lembrar ao marechal que os dois estariam sendo ingratos, praticando aquele ato de exceção. Ele, Falcão, sem lembrar do cartório que recebera, e o presidente, esquecido de que Juscelino , então Senador da República nele votara a pedido de Falcão, quando, sob ameaça de baionetas o Congresso “elegeu” Castello.

Mas, voltando ao cartório e ao botequim.

É evidente que entre os dois não deve haver nenhuma semelhança, nem mesmo qualquer insinuação de que se parecem.

Em Canindé do São Francisco, todavia, onde esquisitices vez por outra ocorrem, há um dono de cartório que o administra com a mesma despreocupação e ausência de responsabilidade pública que seria própria de um dono de botequim.

Vai ao cartório raras vezes, reside fora do município, e transfere sua responsabilidade para duas funcionárias que não podem praticar os atos restritos ao amanuense oficial. Usamos propositalmente o termo antigo, para situar em época pretérita, o cartório de registros que ainda anda bem distante do século XXI

Enquanto o comércio e todas as atividades produtivas do município são pesadamente afetadas, o titular da especial e intransferível peça burocrática, flana despreocupadamente ausente. É o modelo mais perfeito de dono de cartório absenteísta.

Isso acontece porque em certos aspectos ainda nos conformamos com o atraso, e não reagimos à altura contra os agravos à ideia de modernidade.

Enquanto isso, qualquer empresário brasileiro que quiser, por exemplo, comprar um imóvel nos Estados Unidos, basta manter contato com a imobiliária, acerta o preço, e a empresa lhe indica um cartório, que, a partir dai, toma todas as providencias; faz o pagamento pela venda, recolhe todas as taxas, a comissão da imobiliária, elabora a escritura.

Ontem mesmo, sexta-feira- 24, durante almoço no Hotel Raddison, um empresário sergipano liberou o pagamento e adquiriu um apartamento em Nova Iorque. Na mesma hora recebeu a escritura, os recibos do pagamento do imóvel, e de todas as taxas.  Tudo por intermédio de um Cartório. Fez isso eletronicamente, pelo celular, enquanto comia um filé ancho mal passado. Nesse cartório do século da pós-modernidade, certamente não encontrariam espaço pessoas ainda com a cabeça no tempo dos Meirinhos e Amanuenses.

Aqui entre nós, um deles, se refugia ainda num cartório de registros em Canindé.

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OS EMPRESÁRIOS E A CRIATIVIDADE

(Zé Wilson e Laércio Oliveira empresários que inovam, e a Casa Grande integrando-se ao progresso)

Foto: Casa Grande do Engenho Escurial

Os empresários sergipanos distinguem-se pela adimplência que caracteriza o nosso cenário de negócios. Aqui, as fraudes são raríssimas, as falências resultam quase sempre de situações adversas, dificilmente previsíveis; as recuperações judiciais invariavelmente necessárias, apresentam ao final bons resultados.

Mas, em termos de criatividade andamos mesmo carentes. Entre nós, pouco se inova e muito menos se ousa. Já se disse que sem ousadia não haveria, e nem sobreviverá o capitalismo. Ousadia não significa, neste caso, ir de encontro ao imprevisível, fazer aventuras de alto risco, mas, no nosso caso de país periférico, apenas a capacidade de enxergar as mudanças que estão em curso, e a elas buscar o indispensável acoplamento.

Segunda-feira, 20, o deputado federal Laércio Oliveira, que é empresário, também presidente da Federação Sergipana do Comércio, numa reunião com representantes da mídia local, fez um relato das suas ações naquela entidade. Mostrou realizações até surpreendentes, pelo volume dos investimentos, e com uma característica: todas voltadas, invariavelmente, para a modernização e a sintonia com a questão social.

Ao mesmo tempo, Laércio identificou-se com a valorização da cultura, mostrando grupos musicais de excelente nível, e anunciando a construção de um grande teatro ao lado da Orla da Atalaia.

Também dedicou-se a editar livros, dois deles sobre a trajetória das atividades comerciais em Sergipe, organizado com a inteligência e rigor que marca o trabalho da jornalista Monica Dantas, e do esteta que põe excelência em tudo o que faz: Mário Britto.

Sergipe também acaba de ganhar a participação do professor e empresário Jose Wilson, o fundador da Universidade AGES, com seu campus principal em Paripiranga, e vários campi espalhados pela Bahia, e um deles em Sergipe, no município de Lagarto.

Jose Wilson vendeu há pouco tempo a sua Universidade, por isso, chega a Sergipe, onde já reside, como potencial investidor, mas, aquilo que traz de mais importante ainda, são ideias. Ele é criativo e descobridor de oportunidades. Os resultados no turismo sergipano já aparecem, depois que Jose Wilson adquiriu o Hotel Raddison, e faz inovações.

Agora, ele acaba de comprar as terras do antigo engenho Escurial. Em termos de Sergipe, uma vastidão de áreas agricultáveis e pastorís, e a joia, que é a Casa Grande, onde Dom Pedro II esteve hospedado por um dia.

Na fazenda Escurial será instalado um hotel com características totalmente novas, e um parque temático, além de uma recuperação intensa que será feita na Mata Atlântica, que ainda existe preservada, e vai ser estendida.

A convite do governador Belivaldo Chagas, José Wilson aceitou fazer parte da comissão que organiza os eventos do nosso bicentenário este ano.

Pouco tempo depois de convidado, informalmente, com o Secretário do Turismo Jose Sales, ele já antecipava uma síntese impressionante de ideias que levará ao governador.

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DESINDUSTRIALIZAÇÃO, O BRASIL QUE ENCOLHE

(A cada dia dezenas de fábicas fecham no Brasil)

No começo deste mês anunciou-se que uma indústria calçadista de grande porte instalada em Frei Paulo, fora vendida. Isso, de um dia para a noite, poderia acrescentar à nossa cifra de desemprego algarismos ainda mais preocupantes.

O governador Belivaldo ao receber a notícia telefonou para o sócio que comanda a empresa, contendo-se para não dizer o que de fato lhe vinha à mente. Uma semana antes, os dirigentes da companhia haviam mantido com ele uma audiência, quando agradeceram o atendimento a reivindicações que haviam feito, e, segundo eles, daria tranquilidade para a permanência da indústria  em Sergipe, uma das poucas que ainda funcionam em três turnos, e, por isso, tem um elevado número de trabalhadores. Algo em torno de dois mil.

Do outro lado da linha o empresário logo compreendeu o estado de ânimo do governador, e assegurou-lhe que no dia seguinte, ele, e mais dois sócios estariam em Aracaju para um esclarecimento.

Vieram, como haviam prometido, e desanuviaram o ambiente, assegurando que o pedido que haviam feito antes, e sido atendido, fora a condição para que houvesse a venda, deixando bem claro que o adquirente era um grupo de grande porte, interessado em manter a fábrica funcionando . Assim, não haveria desemprego, pelo contrário, a fábrica seria ampliada e contrataria mais trabalhadores. Realmente, até agora são boas as expectativas gerada pelo novo grupo.

Um fato assim, acontecendo em nossos dias, chega a ser inusitado. A tendência dominante é mesmo a sucessão de industrias encerrando atividades.

Quem anda pelo interior, verifica a diferença na qualidade de vida das pessoas onde existem industrias que usam intensivamente a mão de obra. Essas calçadistas começaram a chegar no governo de Albano, e outras com a mesma característica, também foram chegando ao longo desses anos, mesmo quando  já eram bem fortes os sinais da desindustrialização em todo o país.  A partir de 2014 o processo se foi agravando, abateu-se sobre a construção civil, afetou o setor têxtil, inviabilizou industrias tradicionais.

Ao lado da tecnologia dispensando a mão de obra, por aqui chegou forte a avalanche chinesa. 

Sobre o absoluto predomínio chinês no mercado de bens de consumo manufaturados, um empresário sergipano conta um episódio que viveu. Ele comprou uma lâmpada fria de alta luminosidade, viu na embalagem a marca do produto. Usava o nome Itapema,  uma praia catarinense. Animou-se, imaginando que em Santa Catarina a empresa nacional já conseguia sobreviver. Mas, logo voltaria à realidade desanimadora, enxergando impresso discretamente na embalagem do produto em caracteres miúdos: Made in China.

No Brasil os industriais estão trocando de ramo e se tornando importadores.

Alega-se que não há perdas de emprego, mas apenas uma substituição de atividades. Isso absolutamente não reflete a realidade.

Para Sergipe abrem-se novas perspectivas com o gás e o petróleo, e, se não houver turbulências maiores, assistiremos aqui uma multiplicação de novas modalidades industriais, enquanto as atividades tradicionais perderão o fôlego. Mas, já estamos entrando na fase do pós-emprego formal, e nas décadas finais das energias de carbono.

Não há exemplo de país com expressividade territorial e demográfica, que tenha alcançado pleno desenvolvimento, sem ter um parque fabril com produtos direcionados ao mercado interno e à exportação.

Espantosamente, o Ministro Paulo Guedes vai ao Foro Mundial de Davos, e anuncia eufórico, o golpe que levará ao chão a combalida indústria brasileira, e fez isso debaixo de palmas.

Entre outros objetivos, como a liquidação final das outrora vigorosas empresas de engenharia, Guedes anunciou que as licitações realizadas pelo governo federal para todas as compras, terão a participação de empresas estrangeiras.

Nessa ressureição do “laisser faire”, ou deixe correr pra ver como é que fica, empresas estrangeiras poderão participar de todas as licitações do cliente que representa a maior fatia no mercado. Da construção de pontes e estradas, até a compra de  armamentos, remédios, carteiras escolares, alimentos.

Se esse especial privilégio não for somente para os americanos do norte com sua alta tecnologia, até empresas do Uruguai, Argentina ou Paraguai também sairão vencedoras de todas as licitações. Pagam menos impostos, têm moedas abaixo da cotação do real, e poderão oferecer produtos mais baratos. Num primeiro momento haverá vantagens, a médio prazo nossas empresas fecham.   As empresas estrangeiras, vencedoras, aqui não geram empregos.

Trata-se de um suicídio anunciado em clima de festa.

A isso Paulo Guedes dá o nome de “integração do Brasil às cadeias produtivas globais”.

 

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Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa

É jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Ambientalista, fundou o Instituto Vida Ativa que, dentre outras atividades, viabilizou em 18 anos o plantio de mais de um milhão de mudas da Caatinga e Mata Atlântica.

E-mail: lecjornalista@hotmail.com

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