TEXTOS ANTIVIRAIS (24)
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 25/07/2020 21h12 - Atualizado em 25/07/2020 21h21

POR QUEM OS SINOS DOBRAM?

(Com os sinos silenciosos vamos chegar logo aos cem mil mortos)

Desde o fundo da Idade Média, as pessoas, morando nas aldeias ou nas cidades, escutavam a voz dos sinos.

Do alto dos campanários espalhavam-se as vozes dos sinos, que resultavam de caprichadas obras de arte, saídas do trato artesanal dado ao bronze. Tudo consequência do esmero cuidadoso com os metais básicos formadores da liga: o estanho e o cobre. A qualidade começava a ser exigida na boca das minas, depois, no preparo e na dosagem dos componentes, por fim, a fundição ou escultura do instrumento. O sino é um portentoso artefato musical, o mais retumbante, poderosamente sonoro. E aí o artesão teria que lidar com a musicalidade dos sons a serem emitidos, que, apesar de intensos, não deveriam maltratar os ouvidos.

Havia a etapa final: a arte dos sineiros. Aqueles invisíveis maestros regendo sob as torres, manejando cordas, dosando, ritmando e “modulando” a percussão fremente dos metais; assim, enchendo os espaços com a polifonia dos avisos portadores de sentimentos.

As vozes dos sinos preenchiam o silêncio das aldeias, anunciavam alegria, luto, paz, orações, penitências, alertas, a guerra e as pestes. Os sinos dobravam sempre pelas pessoas, ou por alguém.

John Donne, poeta inglês do século dezessete escreveu o poema, Por Quem os Sinos Dobram.

Um trecho do poema: “Nenhum homem é uma ilha, completo em si mesmo, cada morte de um ser humano me diminui”. Passam os séculos, terminada a Guerra Civil Espanhola o americano Ernest Hemingway apropria-se do título do poema daquele inglês setecentista, e intitula o seu seminal romance: Por Quem os Sinos Dobram.

Em cada pausa no troar dos canhões, os sinos dobravam na Espanha católica, onde anarquistas benziam-se antes de entrar em combate, mas assassinavam freiras. Davam notícia das mortes, naquelas badaladas alongadas. Eram tantas as lamúrias saídas do bronze. Mas não tantas quanto as lágrimas escorrendo nos rostos crispados das mães, das viúvas, dos órfãos.

A tragédia espanhola não acabou finda a guerra, os sangrentos combates duraram de 1936 a 1939. As estatísticas variam, todavia, a cifra efetiva de mortos no combate ronda em torno dos cento e cinquenta mil. Isso, ao longo dos três anos de morticínio.

Onde havia o luto, o medo, as incertezas, o desespero, a voz dos sinos criava uma sensação de aconchego. O sino dissipava a solidão, ao longe, havia alguém partilhando um sofrimento.

Julho está chegando ao fim. No começo de agosto, fatalmente, alcançaremos a cifra assustadora das cem mil mortes; muito mais do que o saldo trágico de todas as guerras ao longo da nossa história, inclusive a do Paraguai, que durou cinco anos e meio: outubro de 1864 a março de 1870.

Já nem se sabe hoje, porquê e para quem tocariam os sinos. E eles estão mudos, silentes, quietos.

Mas há risos, ou escárnios, ao lado de uma caixa de cloroquina.

Assim, temos o silêncio absorto dos sinos pairando sobre cem mil sepulturas.

O A.I. 5, O GUARDA, O DESEMBARGADOR

(Currículo do desembargador: 40 representações arquivadas e várias cenas grotescas)

Naquele mês de dezembro de 1968 o Brasil não vivia clima de Natal. No centro do poder havia uma ansiosa expectativa, e nas ruas a estudantada rebelde desafiava os cavalarianos. No dia doze a Câmara dos Deputados negou-se a suspender a imunidade parlamentar do deputado Márcio Moreira Alves. Ele fizera no início de setembro, um discurso tolo, desnecessário, convocando as pessoas a não irem ao desfile do Sete de Setembro, e sugerindo às moças, que recusassem, nos bailes, convites de jovens cadetes para dançarem.

Algo sem nexo, e que nem alcançou repercussão, porque o plenário estava vazio, e naquela época as sessões não eram transmitidas ao vivo.

Mas a “linha dura” militar aumentou a temperatura da ebulição permanente, alguns, mais afoitos, já ocupando seus lugares nos tanques para colocá-los em movimento. Eram aqueles que em 1966, fizeram contra o general presidente Castelo Branco a mesma ameaça, caso ele não indicasse o general Costa e Silva para sucedê-lo, sempre radicais extremados e insatisfeitos, já enxergavam o presidente que “elegeram” como fraco e tolerante.

No começo da tarde do dia 13, o Ato Institucional nº 5 já estava redigido, lido, relido, e pronto para ser anunciado à Nação emudecida e inerme.

Costa e Silva hesitava. O Ato elaborado por cérebros afeitos ao absolutismo, era uma execrável “peça jurídica” que fazia do presidente um tirano, e do Brasil um país de trágica opereta. Simplesmente, o AI-5 atropelava todos os direitos.

O jurista Pedro Aleixo, um conservador sem fazer concessões ao arbítrio, era o vice presidente, cargo decorativo que lhe deram, para demonstrar alguma aquiescência à politica. Hábil, culto, ele tornara-se um conselheiro sempre consultado por Costa e Silva, e tentava convencê-lo a reduzir o impacto totalitário da ruptura institucional. Um general o chamou a um canto da sala, e perguntou-lhe se ele que conhecia tão bem o general presidente, teria algum medo de tanto arbítrio colocado nas mãos dele. E Pedro Aleixo respondeu-lhe: “Do presidente não, eu tenho medo é do guarda da esquina”.

Ele tinha razão. Quando o arbítrio é a regra, o comedimento torna-se exceção. Cada um busca empoderar-se, satisfazendo o ego com uma fatia sempre maior de uma descabida autoridade, e o clima social assemelha-se a uma selva. A ausência de poder gera a anarquia, o poder em excesso apodrece o caráter.

Hoje, ainda vivemos numa democracia, embora diante de surtos autoritários, mas, se vai resistindo, e conseguindo criar alguns freios providenciais.

Quando se espalha a ideia de que é preciso armar o povo para que a liberdade de cada um seja assegurada, surge a inevitável e lógica pergunta, sobre que tipo de liberdade é essa, que extrapola as atribuições do próprio Estado, e necessita de milícias protetoras?

Seria a liberdade de violar normas, regulamentos, e de sair por aí desafiando o guarda?

Sem dúvidas o vice Pedro Aleixo errou, ao apontar o guarda inchado de prepotência, como o maior perigo de um regime sustentado exclusivamente na ponta de baionetas.

Como se vê, infelizmente, na democracia o “guarda” pode simbolizar a própria sociedade, sendo a parte mais frágil, a vítima vulnerável, diante de autoridades delirantes, que fizeram crescer a arrogância, protegidas pela atitude omissa das instituições às quais pertencem.

A empáfia criminosa desse ainda desembargador paulista, demonstra que, tão maléfico quanto o autoritarismo, é a psicótica convicção de que o cargo o isenta de ser obediente à lei. Essa é a deformação mais grave, e, no caso do cafagéstico desembargador Eduardo Almeida Prado de Siqueira, que exibe mais arrogância ainda pela nobiliarquia que imagina expressa no seu nome, só a leniência do próprio Tribunal de Justiça de São Paulo, explicaria o absurdo da toga que ainda ostenta, e o faz desafiador, truculento, e ridículo.


 


 


 

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Luiz Eduardo Costa

É jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Ambientalista, fundou o Instituto Vida Ativa que, dentre outras atividades, viabilizou em 18 anos o plantio de mais de um milhão de mudas da Caatinga e Mata Atlântica.

E-mail: lecjornalista@hotmail.com

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