TEXTOS ANTIVIRAIS (49)
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 21/02/2021 18h56 - Atualizado em 21/02/2021 19h00

UMA INTERVENÇÃO SEM RESULTADOS?

(No relatório Edgard terá de demonstrar que a intervenção  foi necessária e deu bons resultados)

A intervenção em Canindé do São Francisco foi uma espécie de fast-food, servido rápido e na última hora.

Edgard Motta, o interventor nomeado, é um técnico competente, ninguém duvida disso, e um cidadão íntegro, também. Homem extremamente reservado, e de poucas palavras, ele entrou mudo e saiu calado.

Óbvio, não se quer aqui insinuar que se fosse um falastrão, teria realizado um excelente trabalho. Óbvio, também, aqui não se quer insinuar que a intervenção haja sido um fracasso.

O interventor, nos sessenta dias que lhe deram para consumar um trabalho que teria exigido uns seis meses, e poderia ter sido iniciado dois anos antes, isolou-se, com os poucos assessores que o rodeavam, numa sala onde não faltaram as papeladas costumeiras. Talvez, acautelando-se para não o acusarem de ser um interventor intrometendo-se na politica, num delicado momento de campanha eleitoral, e em tempos de pandemia, ele preferiu não mexer na equipe que encontrou. Fez apenas duas ou três modificações. Nisso, cometeu um equívoco, porque, em setores fundamentais, permaneceram pessoas usando a máquina, exatamente para a campanha, ou continuando, com mais cautelas, as práticas costumeiras, que foram, aliás, o motivo central da intervenção.

O interventor foi conivente? Absolutamente não. Apenas, imaginou uma estratégia que se voltou contra os seus próprios objetivos. Melhor seria ter exonerado a todos, e criado uma equipe reduzida, uma força tarefa para agir em tempo integral, acumulando secretarias, e produzindo mais resultados, fazendo economia, e, inclusive, criando um clima favorável ao combate à pandemia, com participação intensa da coletividade. Ele teria as redes sociais para mobilizar a comunidade, da direção da Xingó FM, teve o oferecimento para usar os horários que desejasse, sem absolutamente nenhum ônus para divulgar tudo que considerasse de interesse público, como as recomendações para o enfrentamento à pandemia, ou mesmo aulas à distância, Em Canindé, nem todos os alunos dispõem de notebooks ou celulares, e a internet não chega a diversos locais.

As atividades escolares estão até agora paralisadas, sem nenhuma ação buscando reduzir os efeitos devastadores no aproveitamento escolar. Na rede municipal existe a real perspectiva de mais um ano perdido, por absoluta inação ou resiliente incompetência.

A rede pública estava a tal ponto sucateada que, nos últimos anos, registrou-se uma brutal evasão escolar. Com as estradas intransitáveis, os ônibus escolares não chegavam a vários pontos do município, faltava merenda, e o calendário de aulas já estava comprometido, mesmo antes da pandemia. Os quase dois mil alunos que abandonaram as escolas, foram recepcionados nas redes municipais de Poço Redondo, onde o prefeito Júnior Chagas consertou estradas, até em áreas de Canindé, para que houvesse o transporte dos estudantes às escolas, que foram preparadas para recebê-los. Também no paupérrimo município baiano vizinho, Santa Brígida, chegou a meninada tangida de Canindé pela incúria e desleixo. Outra parte deles foi absorvida pela rede estadual, ou atravessou o rio para frequentar a escola em Piranhas, Alagoas.

Esse cenário caótico na Educação e na Saúde, onde também os funcionários tinham salários atrasados, e faltavam equipamentos essenciais, não seria aquele, minimamente desejável, para que o município recebesse alguma menção honrosa pelo desempenho administrativo. Mas Canindé, onde todo esse descalabro se registrava, foi, surpreendentemente, contemplado com o selo de qualidade da UNICEF, quase no exato momento em que se iniciava a intervenção com propósitos saneadores.

Então, se fosse efetivamente justificada essa nota de excelência ao desempenho administrativo da Prefeitura de Canindé, conferida por uma entidade internacional altamente qualificada, a intervenção teria sido um erro clamoroso e absolutamente, digamos assim, despicienda.

Seria então algo a ser considerado no processo de intervenção, porque, sendo justo o selo de qualidade, o interventor se tornaria supérfluo, e se faria indispensável recolocar na sua cadeira o prefeito afastado, pedindo-lhe desculpas pelo clamoroso erro de avaliação cometido pelo Ministério Público, pelo Poder Judiciário, e referendado pelo Executivo, que fez a indicação do Interventor.

Porém, se fosse constatado que o selo de qualidade conferido ao município, resultara, apenas, de uma escandalosa fraude, uma manipulação de dados para o desenho mentiroso de uma farsa, então, a UNICEF, por boa fé ou incompetência, teria admitido tudo como retrato verdadeiro, e, assim, sendo vítima de um desprezível logro.

Nessa última hipótese, uma larga avenida estaria aberta, e, se atentamente percorrida, tornaria possível a elaboração de um diagnóstico amplo e definitivo sobre os males, tanto de incapacidade, como de carência moral e ética, que acometem de forma cíclica o infelicitado município.

O interventor, por não falar, nem ouvir, criou uma barreira de incomunicabilidade, mas, agora, dedicando-se a concluir o seu relatório obrigatório sobre a interventoria, poderá ter o cuidado de não economizar palavras, e estender-se no texto final que deverá remeter ao Judiciário, ao Ministério Público, e ao Executivo estadual. Terá, sobretudo, de demonstrar que a intervenção, apesar de curta, não terá sido feita em vão.

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A PETROBRAS, DO “PETROLÃO” A WALL-STREET

(Onde Bolsonaro mete seu dedo desastrado o Brasil mais se desmoraliza diante do mundo. A dedada na Petrobras custou 28 bilhões. Mas o rombo será bem maior)

Perguntaram, um dia, lá pela década dos anos vinte ao magnata do petróleo John Davison Rockefeller: “Qual os três tipos de negócios que o senhor considera mais lucrativos”? E ele respondeu: “Uma refinaria de petróleo pessimamente administrada; uma refinaria de petróleo mal administrada; e uma refinaria de petróleo razoavelmente administrada”.

Como se sabe, Rockefeller verticalizou a atividade das suas empresas, indo da produção, ao refino, e à distribuição. Tornou-se o homem mais rico do mundo.

Passa o tempo, o negócio do petróleo atravessa grandes transformações, o monopólio perdeu-se, repartido pelo mundo árabe, e por tantos outros países. Nesse trajeto fez nascer muitos magnatas, potentados poderosos, deflagrou guerras, até mudou a geografia do mundo, inventando fronteiras e novos países. Agora é um negócio com morte anunciada. Os combustíveis fósseis deixarão de mover o mundo, substituídos pelas energias limpas. Isso durará, ainda, mais de trinta anos, porque, sem a petroquímica, a maior parte das indústrias fecharia as portas. O mundo não se livrará assim tão rápido das petroleiras.

Já em tempos de fim de festa, o Brasil festivamente entrou na “era do petróleo” com os fabulosos campos que sucessivamente vão sendo descobertos, inclusive, aqui, no nosso modestíssimo Sergipe, que anda sonhando em ser um Dubai nos trópicos do ocidente.

Havia um cidadão chamado José Dirceu, era o braço direito de Lula, então presidente. Dirceu ambicionava substituir Lula na presidência, e construir um projeto de poder alongado. Ao lado dele ululavam aliados, como Roberto Jeferson, Michel Temer, Gedell Vieira Lima, e tantos e tantos outros, hoje ululando ao lado de Bolsonaro e dos seus filhos. Mudam o cenário e permanece a encenação. Vivemos um teatro do absurdo.

Havia sido encerrado o ciclo do “mensalão”, aliás fechado, literalmente, pela ação pontual do agora tão malsinado STF. Sem holofotes, sem transtornos institucionais, sem barulhos ensurdecedores de milicianos pedindo ditaduras, o Supremo, então comandado por um cidadão tranquilo, o sergipano Carlos Britto, que vive a ensinar os remédios eficazes da Constituição sendo aplicada, enjaulou a todos.

Secou a fonte, era preciso encontrar outra, e com a prometida riqueza do petróleo, voltaram-se os olhares sempre cúpidos para as burras recheadas da Petrobras.(Já foi comum chamaram-se burras, os cofres públicos, isso sem nenhuma ironia.)

Da cabeça de Zé Dirceu, e dos que o rodeavam ávidos, sequiosos, surgiu o “petrolão”, onde empresários, políticos, gente de toda espécie, encheu as suas próprias burras. Depois, para explodir o “petrolão”, vieram a crescer as ambições de farsantes moralistas, como Sérgio Moro e Dalagnol, que passaram a ser adorados, como sempre, pela parte desavisada ou mitômana dos brasileiros pródigos, talvez de ingenuidades, inventando narrativas fantasiosas, e erguendo estátuas a inconsistentes mitos.

Os mitos chegaram ao poder, e nele começaram a desabar, ou a desconstruir-se, ou a mostrarem sua face real, sem a maquiagem fácil dos palanques.

E então, retornamos à Petrobras, outra vez no centro de uma polêmica, de onde a razão frequentemente escapa pelos esgotinhos disfarçados dos interesses pessoais, sobretudo, quando existe há pouco mais de um ano a evidencia de uma eleição.

O mito, agora, acabou de provar aos mitômanos que a sua caneta é forte. Com ela demitiu o presidente da Petrobras. Seria a fórmula que encontrou para acalmar os caminhoneiros, organizados e prontos para uma outra greve.

Desde Pedro Parente, implantaram na Petrobras as ideias de “desinvestimentos” e atrelamento ao dólar. Vendem-se ativos, entre eles as lucrativas refinarias, e exportam óleo para depois importar combustíveis, e surgia a dolarização, ou seja, o aumento dos combustíveis, quase toda semana. O povo brasileiro é extorquido, mas, por outro lado, cria-se a segurança de altos dividendos a serem pagos aos acionistas, contentando Wall Street, mas, também, assegurando aos investidores comuns, inclusive trabalhadores, a perspectiva de aposentadorias razoáveis, tendo recursos indispensáveis para um futuro sem sobressaltos. E no plano internacional, fortalecendo a imagem da petroleira do Brasil.

Como se vê, não é tão simples assim a equação que daria como resultado a estratégia correta para fortalecer a empresa Petrobras, e, paralelamente, de forma plena, atender ao interesse nacional.

Trata-se de um complexo problema, que exige, sobretudo, reflexão, comedimento, diálogo, e isso é o que falta por completo ao “mito”, que ameaça com a sua caneta, e de uma só vez causa um rombo de 30 bilhões na Petrobras, e ainda todas as imprevisíveis consequências que estarão por vir. Essa desarvorada caneta, atrelada à necessidade de permanência do mito até a eleição de 2022, da qual nunca retirou os olhos, desde quando, pela primeira vez, enxergou a faixa presidencial atravessada ao peito.

Vivemos um tempo turbulento e imprevisível, iniciado com data certa: dia primeiro de janeiro de 20019.

Será difícil percorrê-lo, com essa caneta errática a depender dos surtos circunstanciais de quem a maneja, obedecendo aos seus inconsequentes impulsos.

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Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa

É jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Ambientalista, fundou o Instituto Vida Ativa que, dentre outras atividades, viabilizou em 18 anos o plantio de mais de um milhão de mudas da Caatinga e Mata Atlântica.

E-mail: lecjornalista@hotmail.com

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