TEXTOS ANTIVIRAIS (59) | Luiz Eduardo Costa | F5 News - Sergipe Atualizado

TEXTOS ANTIVIRAIS (59)
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 25/04/2021 20h39 - Atualizado em 25/04/2021 20h51

O CANAL DE XINGÓ E O EXAGERADO ÔBA-ÔBA

(O ministro Rogério Marinho não prometeu o Canal de Xingó, apenas anunciou o projeto de uma etapa inicial)

O ministro Rogério Marinho não mentiu, nem sequer tentou dar uma dimensão maior a um evento, que, na verdade, não passava do reconhecimento, pelo governo federal, de que existe um projeto, o do grande Canal de Xingó, e chegaria um momento onde ele poderia ser construído.

O projeto é muito comentado, todavia, apenas naqueles círculos restritos, que ainda abordam temas além daqueles, dominantes nas mídias sociais e na grande imprensa, todos, concentrados no entrechoque rasteiro de mesquinharias pululando no cotidiano da República.

Ao ser anunciada a visita do ministro, logo, os extremos da claque bolsonarista, saíram a foguetear uma quase milagrosa solução que se daria ao emperrado projeto do Canal de Xingó, apontado como a redenção do semiárido sergipano.

É compreensível que emoções assim, ocorram num grupo de militância política que anda carente de boas notícias, e de motivos para efetivamente festejar o mito. A inflação já aparece em tudo, principalmente na redução do café, do almoço e do jantar, para os que ainda têm o privilegio ou o direito que teria de ser assegurado às três refeições diárias.

O gás de cozinha, torna impossível cozinhar, a não ser para os que cozinham lagostas. O sucesso fantástico do agronegócio, que vem de longe, sustentado na alta do dólar, agora, sente o revés da desvalorização do real gerando competitividade, mas, pesadamente onerado com a carga elevada dos preços dos fertilizantes importados, e dos combustíveis atrelados à moeda americana.

O governo esqueceu-se de manter os estoques reguladores, que sempre existiram, e assim, dispararam o feijão, o arroz, o milho, o trigo, a soja a carne, o frango, enfim, tudo o que se precisa para diariamente comer, e a fome reinstalou-se, não apenas como consequência da pandemia, que se descontrolou, exatamente, porque a liderança e coordenação que um ministro como Mandetta exercia, não geraram os resultados completos, diante da sabotagem do próprio presidente, que preferiu não acreditar na tragédia desenhando-se no horizonte, e agiu escancaradamente contra as medidas sanitárias traçadas pelo seu próprio Ministério da Saúde.

Assim, aos que criariam a mitomania, faltam oportunidades concretas para exaltar ou manter no pedestal o objeto das suas fabulações. O “mito”, ele próprio, já perguntou várias vezes: “O que querem que eu faça?”

Difícil responder, porque, quando alguém pede:” Presidente baixe o preço do feijão,” ouve a resposta: “Vá pra Venezuela, vá pra Cuba, peça à sua mãe.”

Não é fácil manter a crença num mito com essas características.

Nessas circunstancias adversas, o anúncio de um canal para dar água a gentes e bichos que têm sede, irrigar terras, seria o instante aprazado para a soltura de foguetes, parte do ritual da exaltação do “mito”.

Naquele aranzel, ou nosocômio, instalado no Planalto, onde surgem os que pedem para “passar boiada”, “prender os ministros do supremo”, “botar o exército na rua para garantir as aglomerações”, “intervenção das forças armadas”, instalar uma ditadura, entregando o feudo Brasil ao mito e aos seus mitinhos. Nesse cenário de absurdo, o ministro Rogério Marinho parece um cordeiro, tentando dialogar com hienas. Ele é sossegado e competente. Alimenta, ainda, ideias que param nas barreiras orçamentárias, estrategicamente preparadas para tolher iniciativas do Estado, onde, segundo os retardados ultra-liberais, somente a iniciativa privada deverá mover a economia. Trata-se de um equívoco, e de uma imensa burrice, por não enxergar no investimento público o manancial mais forte para o investimento privado.

Marinho juntou-se ao general Braga Neto e ousaram, então, fazer algo parecido a um Projeto Para o Brasil, coisa que não existe, e é fundamental. Paulo Guedes, sendo, mais de fato do que de direito o oráculo, ou o Posto Ipiranga, vetou a ideia, e ainda criticou pesadamente aos dois, que seriam analfabetos em economia. Desde então, Marinho e o Ministro Tarcísio, dos Transportes, que se afinam na mesma ideia de que o Estado existe, e é saudável que exista, têm procurado demonstrar isso.

A ideia de acionar um projeto engavetado como o Canal de Xingó, insere-se nesse nível de preocupação.

O ministro Marinho, todavia, foi rigorosamente realista. Mostrou que apenas tratava-se de um projeto executivo para os primeiros quilômetros do Canal, por isso, o custo era relativamente baixo, coisa de uns seis milhões de reais, a maior parte resultante de uma emenda da senadora Maria do Carmo Alves, a viúva de João, que tenta fazer nascer iniciativas que a ele tanto seduziam. Explicou didaticamente o ministro Marinho que a obra seria dividida em quatro etapas, as duas primeiras em Paulo Afonso, onde se faria a captação, as outras em terras sergipanas. No total são cerca de 300 quilômetros, tudo a depender das curvas de nível necessárias para fazer a água fluir por gravidade. Será um canal sinuoso, de tanto evitar morros e elevações, em busca dos declives que a topografia define.

Para a primeira etapa, essa, do projeto a iniciar-se agora, com a modestíssima meta a ser cumprida no papel lá para finais do próximo ano, será necessário, pelo menos, um bilhão de reais. Juntando-se as três etapas subsequentes, seriam, a preços de hoje, algo em torno de seis bilhões. Como se vê, a coisa começa na ponta baiana, seguirá o roteiro baiano, e só depois contemplaria Sergipe. Admitindo-se que exista vontade política e recursos, essas duas etapas consumiriam uns cinco anos, isso, na melhor das hipóteses, ou quase imaginando-se uma utopia. Haverá o risco concreto de ocorrer uma paralisação da obra nas primeiras etapas, e então, só o trecho baiano seria concluído. Como exemplo, veja-se o Canal do Sertão, todo ele em território alagoano, com um trajeto um pouco menor. Depois de trinta anos, tem concluída um pouco mais da metade da obra.

Seriam necessárias à continuação do projeto Canal de Xingó, vistosas emendas dos senhores deputados e senadores, porque o orçamento do governo federal para o próximo ano, contempla para obras menos de 8 bilhões de reais. O apoio parlamentar de certos setores se forma à custa de orçamentos fartos e generosos, e tudo fica a depender da tibieza ou incompetência política do governante. Os parlamentares nunca tiveram tantos recursos disponíveis como acontece hoje.

A prioridade para a alocação dessas emendas, é, quase sempre, o casamento perfeito com o interesse eleitoral. Isso explica porque foi ressuscitada uma sigla, o DNOCS. Alguém lembra do que se trata? É o falecido Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, que já nasceu velho, e superado até no nome. Seu fantasma que se abriga em alguma sala perdida em Aracaju, servirá para o desaguadouro das “emendas”, logo pulverizadas em obras, tais como calçamentos de ruas, asfalto, (que hoje rende mais votos) pracinhas com banquinhos e brinquedinhos para crianças, (quase todas agora que graves deficiências nutricionais). Há também uma outra sigla, mais consistente, a CODEVASF, criada há décadas para trazer bênçãos ao vale do São Francisco, e agora levando-as para outros vales. A Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco, que na parte sergipana cuida muito mal do perímetro irrigado de Betume, onde se planta um arroz que nunca saiu da qualidade inferior. E a produção é modesta. Para processar este suposto arroz, montou-se uma fábrica com capacidade para vinte vezes o que ali se produz. A fábrica virou sucata, foi desmontada e deve ter sido vendida como ferro-velho. Essa mesma CODEVASF agora faz coisas mais comezinhas, como calçadas, limpeza de pequenas barragens, e por ai vai. Enquanto isso a produção brasileira de arroz encolhe, e isso explica a alta desmesurada nos preços do cereal, parceiro inseparável na panela do feijão, e que um dia foi também da carne. Os três, já abandonaram as mesas dos pobres.

Então, é isso. Não há razões para tantas euforias e ôbas-ôbas, mas, existem sim, motivos para afirmar que a visita do ministro Marinho não foi tempo perdido.

Cuidou-se de retirar do baú, um papel embolorado pela CODEVASF, varejista, hoje, de obras sustentadas pelas emendas, uma capilarização, onde não entra sequer o arroz, e muito menos entraria um grande canal.

E o mais importante na visita apressada do Ministro Marinho: Recursos assegurados para que prossigam obras de saneamento em Aracaju, ampliadas consideravelmente no atual governo, e Belivaldo tem dito que os aportes federais, até agora, nunca lhe faltaram para instalar bombas, estações de tratamento, enterrar canos, e fazer correr por eles água e esgoto, separadamente, é claro.

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