TEXTOS ANTIVIRAIS (62) | Luiz Eduardo Costa | F5 News - Sergipe Atualizado

TEXTOS ANTIVIRAIS (62)
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 17/05/2021 20h33 - Atualizado em 17/05/2021 20h36

VAGANDO OU VADEANDO PELA TERRA DOS MARECHAIS

(Os Marechais alagoanos e o Presidente Capitão)

Um capitão, hoje Presidente da República, e, como tal, chefe supremo das Forças Armadas, resolveu deixar Brasília e sair a vagar ou vadear pelas Alagoas, a Terra dos Marechais.

Foram dois os Marechais que Alagoas entregou ao Brasil, e eles enriqueceram a nossa História, e a ela se misturaram para sempre.

Deodoro da Fonseca fundou formalmente a República, Floriano Peixoto a consolidou, tendo, para isso, de desembainhar a espada, o que lhe valeu o título de Marechal de Ferro.

Esses marechais que tinham estilos e concepções diversas concordavam, todavia, sobre um ponto fulcral: o conceito de República.

Para eles aplicava-se exatamente a definição da “nova forma de governo” elaborada pelos romanos: “res publica”. A coisa pública, da qual baniriam-se os tiranos, os autocratas, aqueles, achando-se reis pelo direito divino.

Cícero, um romano, conceituou o que seria a sua sonhada república, aproximando-se da visão anterior dos gregos, com a “politeia”.

Para que a República fosse efetivamente a “coisa pública”, o tribuno romano traçou o roteiro: adesão a uma lei comum, instrumento único, pelo qual a comunidade busca e exerce a sua Justiça. Assim, ele antecipava o formato do Estado moderno, mais ou menos delineando a repartição constitucional do Poder, as suas competências, e, sobretudo, a ideia de que o Poder não nasce, ou muito menos se exerce em função da vontade de um só indivíduo.

A deturpação desse modelo, mais tarde seria tipificada por Santo Agostinho, no termo que utilizou para definir os maus governos: “magna latrocínia”; em tradução livre o “grande roubo”, aqueles descaminhos. Por aqui, cansamos de classificá-los como “estelionato eleitoral”, o logro das promessas, ou o excesso de ambições, conduzindo às tentações autoritárias.

A nascente República não foi o modelo sonhado pelos que a fizeram. E o primeiro a decepcionar-se foi o próprio Deodoro, que tentou ser ditador, enfrentou uma das revoltas da Marinha, e caiu, substituído pelo seu vice Floriano, que governou, como “vice no exercício da presidência”, até ser eleito para um novo e legítimo mandato. Deve-se a Floriano, a manutenção da integridade do território brasileiro. Apesar do autoritarismo, Floriano recusou as tentações a ele apresentadas para tornar-se de fato e de direito o primeiro ditador da série republicana. Deu, tranquilamente, posse ao seu sucessor Prudente de Morais, eleito para restaurar a” República dos Fazendeiros”, ou dos “casacas” tão detestados pelos militares. Prudente venceu com a chancela obtusa e duvidosa do “voto impresso”, e de eleitores selecionados. Só poucos podiam votar.

Derrotado, na planície, Floriano mandou a espada para um Museu, e foi “cultivar rosas no seu jardim”.

Se aqueles marechais estiverem “do outro lado” nos acompanhando, como faz crer a suave e bondosa doutrina Kardecista, estariam, os dois alagoanos, agora indignados com a ruptura grosseira do princípio federativo, feito por um capitão, que, passados 132 anos, está sentado no topo do poder que eles ocuparam. Com inúmeros erros, é verdade, mas, sempre com dignidade e compostura.

Estariam, preocupados com o capitão-presidente, assim, vagando e vadeando pela terra natal deles, sem objetivos verdadeiramente republicanos, e, pior ainda: utilizando-se dos instrumentos que a República sob seu comando oferece, para demolir os seus princípios básicos, colocando interesses estritamente pessoais, a sua vaidade, a sua ambição colada em 2022, visando “mostrar quem manda e quem tem a força”; para isso, fazendo-se cercar pelo Exército, e simulando inaugurações, que antes, em dezembro de 2021 já haviam sido feitas, de obras para as quais o seu governo nem precisou mandar verbas, porque já estavam prontas, ou em execução, pelo atual governador reeleito, Renan Filho, quando ele assumiu, sucedendo a Temer, que nem foi convidado para participar dos atos farsescos.

Os marechais, por certo, acompanhando a história do Brasil sendo construída ao longo de todo esse tempo, não devem entender bem o que seria essa “nova política”, anunciada pelo capitão, vendo todos os que agora o cercam, antes definidos como repulsivos representantes da “velha politica”, que ele nos palanques prometeu esmagar e destruir. Pasmos, ficarão os marechais, se conseguirem ter acesso ao orçamento da República, desvendando as suas sutilezas, as malandragens ali disfarçadas.

E certamente comentariam entre si. Perguntaria Deodoro: - Então, Floriano, e aquela mulher um tanto atabalhoada, a guerrilheira, não foi ela deposta por ter feito,.... como é mesmo o nome da coisa? - Ah, nosso colega Itamar Franco, (diria Floriano) está aqui explicando: foi uma “pedalada fiscal”. E o velho marechal Deodoro, agora já um tanto absorto, perguntaria: - Floriano, você que é mais novo, sabe o que é pedalada?

Houve silêncio.

E Deodoro sarcástico, saindo da sonolência murmuraria cutucando Floriano: - eu deveria ter um vice como esse de agora, que até é general, o Mourão, e com força no Exército, como você tinha, Floriano, lembra?

E continuaria Deodoro, falando e pigarreando, ainda uma consequência dos charutos: -Agora, não tem essa pedalada, mas, afinal a coisa da covid já se aproxima dos quinhentos mil que vieram para esta nossa outra vida; aqui, onde estamos, já recebemos tantos descendentes de amigos nossos e de coestaduanos, chegando por conta dessa pandemia. O que estará acontecendo, o capitão presidente, não teria lido na Escola Militar a história daquele Osvaldo Cruz, no nosso tempo, que acabou a epidemia da varíola usando a vacina? E no meio desse desastre, ainda sobra tempo a esse capitão para vaguear e vadear por Maceió, falando tantas coisas improprias, logo ele, um Chefe de Estado?

E Floriano encerrando a conversa: - Deodoro, você usou os verbos certos para definir a viagem do tal capitão: vaguear e vadear. O verbo intransitivo vaguear, nem precisa de complemento, ele mesmo se completa, caracterizando uma atitude que é explícita, de andar ociosamente, perder os dias vagueando, sem destino certo, sem objetivo claro.

Já o outro verbo, vadear, deixa bem claro o que você deduz daquela viagem . Vadear é transitivo, precisa de algo que o explique melhor.

O capitão vadeava, estaria a contornar um rio, o que ele desejava realmente? Afrontar aquele senador Renan, ou servir ao nosso povo alagoano, que tantas carências ainda tem? Não lhe parece Deodoro, uma atitude assim um tanto miúda, mesquinha, eu até diria, um gesto infantil, seria isso?

E o marechal criador da República cofiando os seus vastos bigodes continuou: - O que lhe parece meu caro vice, (hoje eu já consigo lhe chamar assim, antes de fazer a passagem, você sabe, é necessário o perdão) então, as burras brasileiras estarão hoje, assim tão repletas para custear gastos desnecessários, e inúteis? No nosso tempo, ainda andávamos de trem ou vapor, viajar era mais difícil, mas hoje, com tantos jatos, com tanto aparato militar de segurança, acho que é mais custoso. E uma outra coisa que muito me decepcionou: eu acompanho os jornais, virtualmente, é claro, por aqui nossa Internet é de última geração, vejo todo dia que um tal Paulo Guedes, o que está sentado sobre as burras, fala sempre sobre os gastos desnecessários, os altos salários dos servidores públicos, quer reduzi-los, diz até que morrendo mais gente reduzem-se as despesas com a previdência, mas, ao mesmo tempo, assina uma portaria aumentando o que eles chamam teto constitucional dos vencimentos, isso, somente para o capitão e o seu séquito.

E o Itamar Franco que se afastava, dá meia volta, e um tanto exaltado, diz: - Senhores Marechais ex-presidentes, meus colegas, então, se no meu tempo de presidente do Brasil um Ministro ousasse fazer uma portaria dessas, tão imoral, tão cafajestica, tão absurda, eu o demitiria, e mandaria abrir um processo crime contra ele.

Floriano, fazendo o gesto de puxar a espada troveja: - eu o expulsaria do Catete a fio de espada, e você Deodoro não faria o mesmo?

A pergunta ficou sem resposta. O velho marechal, na sua cadeirinha de palha já ressonava ruidosamente.

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