TEXTOS ANTIVIRAIS (69) | Luiz Eduardo Costa | F5 News - Sergipe Atualizado

TEXTOS ANTIVIRAIS (69)
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 09/08/2021 09h22 - Atualizado em 09/08/2021 09h38

SERGIPE DO ENGENHO AO AGRONEGÓCIO (1)

(Do carro de bois à modernidade, o trajeto não tem sido fácil)

No tempo dos engenhos, que foram numerosos, “produtividade” era sinônimo de uma grande quantidade de escravos tendo carnes rijas para suportar o eito, e alma submissa, impedindo a desobediência ou revolta.

Sergipe, nos meados do século dezenove , segundo Orlando Dantas, no seu livro A Vida Patriarcal em Sergipe andava pela casa dos trezentos e cinquenta engenhos. Juntas de bois moviam as moendas e também serviam para puxar os carros com grandes rodas de madeira, que, madorrentamente, “gemiam” nos eixos,  tornando-se uma emblemática expressão sonora do lamento emudecido dos que suavam e sofriam, tratados como  bestas.

Entre a aristocracia dos engenhos, eram poucos os que exibiam vistosos cabedais, mas, isso não retirava a vaidade e a arrogância do mando sem limites no universo miúdo onde tudo podiam. Quando a máquina a vapor começou a substituir a tração animal e o braço escravo, aqueles que se apegaram ao passado,  arrastaram-se na decadência,  foram acumulando dividas, e perdendo seus canaviais, ou transformando-os em pastagem. Na virada do século, após o fim da escravatura, os engenhos sergipanos já não chegavam a uma centena.

Dizia-se, que o autêntico senhor de engenho não se conformava em ver das varandas que cercavam a “casa grande” os pastos substituindo o canavial. Alguns deles, proibiram filhos de se transformarem em pecuaristas, considerando que não era uma atividade à altura da posição social que ostentavam. Mas os filhos, desobedientes, foram criar gado mais distante, pelo fundo do agreste, se abeirando do sertão, ou passando limites, e indo enriquecer na Bahia.

Pelo meio do século vinte, Orlando Dantas, que recebera do pai Manoel Dantas um engenho já transformado em usina, enxergando, como estudioso social o inevitável fim dos engenhos, defendia o surgimento de duas centrais açucareiras modernas. Ele pretendia reunir o que sobrara dos antigos senhores de engenho, já tendo  mudando de nome para “ usineiros “, logo que investiram em maquinário, que, todavia, já era obsoleto, e   não sobreviveriam por muito tempo.  A ideia de Orlando não foi aceita, por causa de uma excessiva vaidade de quem preferia quebrar, sendo dono único e exclusivo de um negócio ruim, para ser sócio de um empreendimento onde não teriam o mando absoluto. E faliram.

Sobraram dois.

Augusto Franco que dedicou-se a modernizar a Usina Pinheiro, tornando-a uma das mais eficientes do país, e o próprio Orlando, que ampliou a Vassoura, e foram praticamente essas duas que sobreviveram, absorvendo também outras usinas menores. Depois, restaria apenas a Pinheiro, sempre com eficiência de gestão e alta produtividade.  Vieram os investimentos em usinas sucroalcooleiras, mas aí, a coisa já se transformara em agronegócio, e a palavra produtividade tornou-se, de fato, sinônimo de gestão eficiente e adesão às tecnologias em permanente sintonia com a necessidade de mudar e evoluir.

Sergipe se foi transformando num grande pasto, mas, paralelamente à primitiva criação extensiva, alguns, dedicaram-se a um processo de seleção, alcançando grande  êxito na produção do gado indú-brasil, com alta qualidade genética. Sergipe foi chamado o “reino do indu-brasil”, e chegou a exportar exemplares daquela raça para países africanos ,e os vizinhos aqui da América Latina.

Nisso, foram pioneiros criadores como Oviedo Teixeira, Horácio Góis, Martinho Almeida, o grupo industrial Peixoto Gonçalves, Antônio Almeida, (Belinho), Nelson Pinto, os banqueiros Ronaldo Calumby e Murilo Dantas, este, tendo uma visão ousada de futuro, avançou em experiências genéticas, iniciou a transferência de embriões, auxiliado pelo seu filho Arnaldo, que se especializara em zootecnia, e foi além, criando a NUTRIAL,  um frigorifico  de grandes dimensões ao lado de uma rede  de suprimento de insumos, financiando suinocultores, e confinadores de gado, ao mesmo tempo plantando uma extensa área de milho, para usar na fabricação de rações.  Era, nos anos setenta o modelo avançado do agronegócio verticalizado, isso que ainda nos falta hoje, no Brasil de um modo geral, com elevada produção agropecuária e baixo índice de industrialização.

As Exposições agropecuárias realizadas em Aracaju, depois em Lagarto, eram as amostras do nosso sucesso, e atraiam criadores de todo o país e do exterior. O Parque João Cleofas, criado em 1953 pelo governador Arnaldo Garcez, era depreciativamente chamado Palácio das Vacas, mas, nele, aglomeravam-se multidões de interessados em “ ver as vacas” os implementos agrícolas, e atraídos pelos shows artísticos.

 Isso acabou, e outros parques também no interior acompanharam o desânimo.

Agora, quando assume a secretaria de estado da agricultura e pecuária, o criador e político Zeca Silva, há uma promessa de que as Exposições serão refeitas para acompanhar o novo ritmo que se observa na produção leiteira, onde despontam polos importantes, como o de Santa Rosa do Ermírio, numa das áreas mais ressequidas do sertão em Poço Redondo, onde pessoas que chegaram ali pensando em criar bodes, compraram vacas de três litros de leite,  e hoje possuem rebanhos de alta qualidade genética, chegando a uma produção que se aproxima dos 150 mil litros –dia. Assim, se  faz no sertão sergipano o agronegócio na sua melhor acepção, com modernidade , inclusão social e tendo a produtividade como meta.  Uma só família, a de Zé do Poço, já produz mais de 15 mil litros dia, superando o maior produtor, o engenheiro Paulo de Deus.  Em Canindé do São Francisco ele mantem um rebanho leiteiro de alta qualidade genética, assegura o suprimento  do volumoso, com extensas áreas plantadas de palma, e faz, com muita tecnologia a mistura das rações enquanto acompanha no computador o que produzem, e o custo diário de cada uma das suas vacas.

O governador Belivaldo Chagas, que tem tentado reinventar a noção do Estado investidor e indutor do desenvolvimento, começou um programa de melhoria genética no semiárido, e inicia em Santa Rosa do Ermírio um Parque de Exposições, afagando a ideia de uma Adutora do Leite, ou seja: levando água do São Francisco, até  a bacia leiteira de Santa Rosa do Ermírio. Se a adutora garantir água farta ao rebanho de vacas, em cinco anos a produção leiteira poderá duplicar. (continua)

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O PACTO DE JAPARATUBA

(O pacto de Japaratuba forma um arco de alianças com líderes destacados, resta eles convencer e mobilizar a sociedade apresentando um projeto consistente)

Tudo indica que em Japaratuba nasceu, ou foi revelada, uma novíssima, todavia muito aguardada aliança política.

Foram dois os convites para atos distintos. Um, partido de Belivaldo para a assinatura da ordem de serviço, iniciando-se a tão aguardada estrada litorânea ligando Pirambú às margens do São Francisco. Trata-se de um trecho onde misturam-se às praias, uma densa vegetação, dunas e pantanais. Um novo roteiro turístico como já o definiu o Secretário Sales Neto, nesses dias de peito inflado, como anda, em face de tão boas noticias, e a melhor de todas: a inauguração nesta segunda dia 9 do novo Centro de Convenções, o elo que faltava para completar a nossa hoje vistosa infraestrutura turística. O outro convite partiu da Prefeita Lara Moura, de Japaratuba, para uma série de inaugurações de obras municipais.

 No ato do governo falaram apenas Belivaldo, os secretários da infraestrutura Ubirajara Barreto e do Turismo Sales Neto e a prefeita Lara Moura, que agradeceu muito pela obra, tanto ao governador quanto a André Moura, seu marido que destinou recursos quando deputado federal.

Nada explicito de politica partidária como manda a boa regra de obediência aos preceitos traçados pela legislação eleitoral, mas, a presença maciça de prefeitos, vice prefeitos, vereadores, dos deputados federais Fábio Mitidieri, Gustinho Ribeiro, Fábio Reis, do ex-deputado federal Heleno Silva, do prefeito de Aracaju Edvaldo Nogueira, de Ana Alves, representando a senadora Maria do Carmo, e de lideranças outras, conferia um peso explicito  de apoio a uma decisão já conhecida, a chegada de André Moura ao grupo liderado pelo governador Belivaldo. Ele, reafirmando na ocasião que cumprirá seu mandato até o fim, deixou a certeza de que comandará o processo sucessório, onde surge com maior evidencia a formação de uma dobradinha, Mitidieri ao Governo André ao Senado.

Restaria a definição de como se comportará o deputado federal Laércio Oliveira, que não pode ficar ausente de uma composição, depois de tantos serviços prestados, e de ter aberto caminhos na área federal pela sua ligação com o bolsonarismo, e pessoalmente com o próprio presidente. Mas essa característica não seria exatamente favorável no clima de hoje em Sergipe, para definir uma posição em chapa majoritária. Pode ser que isso mude, diante do reconhecimento a Laércio pelo seu trabalho no destravamento do mercado de óleo e gás, o que sem duvidas favorecerá Sergipe como grande produtor. Mas, os resultados concretos somente aparecerão a partir de 2023. E haveria, também, a possibilidade embora remota, diante do que fala e faz o presidente, de uma recuperação da imagem dele tão desgastada, e isso tornaria possível a um candidato ficar bem na foto com ele. Mas isso já é outra história.

 A saída do PT do governo já começa a acontecer, todavia sem que isso signifique rompimento. Apenas uma delimitação de territórios que Belivaldo pretende fazer no sentido de dar mais solidez ao grupo que lidera. Assim, será trocada a Pasta da Agricultura, a ser ocupada pelo ex-deputado Zeca Silva, que buscará uma rápida reaproximação com o agronegócio, dando ênfase à pecuária leiteira, à cultura do milho, à citricultura, à atividade canavieira, à necessidade de abrir mais áreas ao plantio do coco e do caju,  e aos perímetros irrigados.

Depois, haverá a substituição no Ipesaúde do Dr. Cristiano, que é bem avaliado, mas,  aliado incondicional de Rogério Carvalho.

Belivaldo tem bons laços de amizade com Rogério, até lhe demonstra gratidão pelo apoio que sempre recebeu dele com a liberação de verbas e  a ajuda a projetos do governo, mas, entenderia que Rogério tomou sua decisão solitária de candidatar-se ao governo, sem dialogar com a base de apoio atual, da qual o PT ainda faz parte, e com isso deve ter preferido traçar um rumo próprio, esperando contar com o apoio de Lula, caso ele venha a concorrer à presidência . Mas, há no bloco de Belivaldo, setores que claramente manifestam a intenção de também votar em Lula, e para Lula então,   caberia uma avaliação mais pragmática das circunstancias.

O fato é que tudo começou a clarificar-se em Japaratuba, e isso já ligaria o nome daquela cidade ao acordo, por enquanto entre as cúpulas, e necessitando ainda mais,  sobretudo, de ser acolhido pela opinião publica. Tarefa que terá de desafiar a habilidade dos candidatos.

Corre em faixa própria também o senador Alessandro Vieira. Ele, apesar do excelente desempenho na Comissão Parlamentar de Inquérito, adotando posições destemidas e consequentes, na caracterização dos crimes perpetrados pelo governo Bolsonaro, não vem conseguindo, sequer, arrumar o seu próprio partido, e carece de uma sustentação maior em termos de cooptação de lideranças para construir um arco de alianças por mínimo que seja, e enfrentar  a complexidade de uma disputa pelo governo, sem que se repitam  as mesmas circunstancias que favoreceram um Delegado de Policia sem experiência nem bases eleitorais, e lhe abriram as portas do Senado, onde,   vem tendo um desempenho que  o projeta nacionalmente.

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AS RUAS DA DISCÓRDIA

(A readequada Avenida Hermes Fontes tem gerado protestos que merecem ser ouvidos e avaliados)

A decisão de alterar o transito em ruas perpendiculares à readequada Avenida Hermes Fontes, agora tomada pela EMURB, poderia ter sido construída com mais vagar, após a oitiva ampla e democrática  das pessoas que por ali residem, ou têm seus negócios. É mero e desgastado truísmo dizer-se que a “pressa é inimiga da perfeição”, mas, no caso em tela, as turbulências que estão sendo produzidas, atestam que não custa nada relembrar o velho adágio. Havia, em curso, ações judiciais de pessoas e do próprio Ministério Publico, então, aguardar pelo menos o desfecho na Justiça dessas pendengas, teria sido a atitude mais prudente. Prudência e bom senso são aliás atributos que não faltam ao prefeito Edvaldo Nogueira. Na fase de plena sintonia com a opinião pública que ele atravessa, resultante de uma administração de fato transformadora, ter de enfrentar protestos de empresários que se dizem prejudicados, de moradores que reclamam da mudança, de donos de lojas que se dizem diante da opção de fechar as portas antes de falirem, é algo que estaria criando dissonâncias aos ouvidos do prefeito, sempre afinados para sentir o estado de espírito da população. É um caso de  discórdias  reduzidas a um setor, sem duvidas, mas, quando uma parcela da população, por menor que seja, se diz prejudicada , nada melhor para um politico com raízes fincadas na luta popular como é Edvaldo, do que ir ao cerne do problema, buscando, ele próprio, o diálogo com os que agora protestam em pequeno numero, mas, poderão servir de pretexto para narrativas politico–eleitorais  fortalecidas com o veneno da desinformação que percorre as redes sociais, em estado de tumulto.

Jogar água fria no incipiente braseiro seria a mais lógica e sábia das opções.

 

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