VÍRUSTEMPOS
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 24/03/2020 17h22 - Atualizado em 24/03/2020 17h25

TEXTOS ANTIVIRAIS  (1)

Obediente a asséptica prevenção  imposta aos idosos,  cercado agora pelo cinturão verde das caatingas, enfim molhadas, confinado nesse exílio, e podendo atravessar meses, torna-se humanamente impossível afastar o pensamento da tragédia planetária.
Daí, esses Textos  Antivirais  que inicio,  dando proatividade a uma parcial inércia, com a esperança de que seja uma curta série.
Durante o Estado Novo,  eufemismo que criaram para nomear a ditadura de Getúlio,  cultivava-se um  excremento autoritário  tendo como modelo o fascismo italiano.  Havia entusiasmo com os rumos da Segunda  Guerra, desde quando, em 2 de setembro de 1939 movimentou-se a poderosa máquina de destruição hitlerista,  subjugando países e devastando a civilização. O idílio repugnante do Estado Novo com o nazifascismo persistiu até  dezembro de 1941, quando os japoneses atacaram o Havai,  arquipélago americano no Pacífico. Logo depois, na Conferencia do Rio de Janeiro os americanos fizeram sentir a Getúlio que precisavam  de bases no nordeste, e iriam tê-las, cedidas, ou ocupadas. Roosevelt veio ao Brasil, conversou com Getúlio, e voltou dizendo que nunca antes conhecera um ditadorzinho tão simpático. A partir de então o condecorado fascista sergipano Lourival Fontes, poderoso chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, afrouxou  os controles rígidos que eram exercidos sobre os meios de comunicação. Deixaram de ser conduzidos à delegacia de Ordem Política  e Social, o sinistro DOPS,  os  intelectuais , profissionais liberais, servidores públicos, sergipanos inclusive, muito poucos é verdade, que, em  documentos de qualquer natureza onde colocavam suas assinaturas, acrescentavam: “Saudações anti-nazi-nipo-fascistas”.

Era o repúdio demonstrado aos países que formavam o agressivo Eixo, Alemanha, Japão, Itália. 
Diante das circunstancias que atravessamos, não há dúvidas  de que existe a tentação de insinuar que comecemos a escrever: “ Saudações anti- anarcopopulismo". 
Esse anarcopopulismo é aquela nefasta ideia de que os problemas do país se resumem ao núcleo de indignados  extremistas, que simplificam soluções, escolhem um líder que traduz o que eles imaginam, radicalizando ainda mais todos os problemas, que, enfim, atormentam também a grande massa da população.  Se lhes faltam propostas, recorrem ao caminho das ruas, onde o grito substitui a razão. 
O anarcopopulismo convoca pessoas para as ruas mesmo desafiando o que aconselha o próprio Ministério da Saúde, do próprio governo que apoia, depois, acusa de impatriótica a simples e prosaica ação de bater panelas, pacificamente.  
A essência do anarcopopulismo é o tensionamento das relações sociais,  até o ponto sem volta das instituições demolidas. Em outras palavras: o caos.
Seria o caos com apoio popular. Por isso, desde antes das eleições e depois delas mais ainda, o que se tem feito em primeiro lugar é manter um clima de guerra política.
 Veio a desgraça do vírus, agora também já politizado, e objeto de uma discussão que nada resolve e tudo complica.
Estão corroendo um tema que deveria ser estritamente cuidado por especialistas, e  começaram a espalhar suas “verdades" pessoais. Gente assim como os mistificadores  da fé, Edir Macedo, Silas Malafaia, Valdomiro, empresários arrogantes e egoístas tipo Veio da Havan, Junior Durski um abutre moral que vende bifes na sua rede de restaurantes Madero. Ele disse, sem meias tintas, num vídeo que postou na redes:  “por causa de  5,  7 mil mortes, não se pode parar a economia”. Poderia acrescentar: desde que eu venda  10 mil bifes. Ou seja enriquece com a carniça, mesmo que seja a humana.
O tema é evidentemente complexo, as consequências de uma paralização de atividades econômicas redundará em graves prejuízos, mas o mundo, a ciência do mundo, os especialistas do mundo, não podem todos estar errados completamente, quando advertem que sem o isolamento social, sem  as medidas drásticas, o vírus se expandirá exponencialmente, e aí não serão 5 ou 7 mil mortos, poderão ser 70 mil, 700 mil, uma hecatombe, e suas consequências ainda piores. 
Quando o presidente, ele próprio, dissemina  a dúvida, muitos, não se acanham em imitá-lo.
Apesar disso tudo, as providencias indispensáveis estão sendo tomadas na área federal, e Bolsonaro, rompendo  barreiras criadas pelas suas ojerizas , idiossincrasias,  e malquerenças, manteve uma produtiva reunião com os governadores do nordeste e do norte. E vai reunir-se  com todos os demais, inclusive com Witzel do Rio de Janeiro, e Dória de São Paulo, aos quais tem constantemente agredido; isso, para não falar sobre o que fazem os seus filhos.
Existe a perspectiva positiva  de que,  de agora em diante haja uma coordenação  entre  a União e os estados. Alguém precisa convencer o presidente de que ele foi eleito para governar o Brasil, e o seu primeiro gesto, logo após a posse, seria a tentativa lúcida e sensata de unir o país, mas isso ainda  poderá ser feito , em face da terrível ameaça da pandemia  ficando fora de controle.

De que adiantaram todos esses meses de agressões , ofensas, ideias ditatoriais circulando, se hoje os fatos comprovam que  essa insensatez só causou prejuízos aos brasileiros?  Mas os atores do anarcopopulismo, não pensam assim, não admitem o erro.
Quando a  Casa  Branca anuncia uma injeção de quase 2 trilhões de dólares na economia americana, a tese da absoluta prevalência do Mercado desmoraliza-se.
O mercado constrói crises, mas sozinho não consegue vencê-las. Aí chega o providencial  Estado, que, se fosse mínimo como desejam, não teria os salva vidas, representados aqui no Brasil, por exemplo, pelo BNDES, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, e tantos outros instrumentos de política econômica e monetária que o país ainda dispõe para agir, que, se dependessem de Guedes já estariam privatizados.
Hoje, ficam em extremos opostos e superadas diante da realidade as teses radicais  da estatização completa,  ou da supremacia absoluta  do mercado, diga-se: do cassino financeiro, que inundou o mundo com papeis que superam dezenas de vezes o valor de tudo o que efetivamente  é produzido no planeta. Trata-se de uma bolha tão gigantesca quanto frágil,  todavia, concentrando uma astronômica riqueza nas mãos de uns poucos, enquanto se amplia a pobreza,  a começar pelos Estados Unidos. Repetir isso, torna-se até uma enjoada cacofonia.
A bolha financeira é  vulnerável às pandemias e, mais ainda,   aos ataques dos modernos flibusteiros, que nem se chamam  saqueadores, pelo contrário, são festejados  megainvestidores, até pousando como generosos filantropos.
Caso essa pandemia que apenas começa,   dure mais uns 30 dias, apesar da capacidade revelada pelo ministro Mandeta, e sobretudo pela heroica dedicação dos profissionais da saúde, pelo esforço e responsabilidade dos governadores, da maior parte dos prefeitos, 
Teremos, pela frente, um desafio que exigirá dos governantes uma estatura muito acima da média daqueles   que atravessaram nossos mais cruciais momentos ao longo da história.
Não existem salvadores da pátria, mas há, sim, personagens providenciais. Citemos, no plano internacional, e no espaço da História contemporânea, três deles: Franklin Delano Roosevelt, nos Estados Unidos, Charles De Gaulle na França, e Winston Spencer  Churchill na Inglaterra.
 A Inglaterra vivia a sua hora mais trágica, sob ameaça de uma invasão das tropas de Hitler já ocupando a França, ali, do outro lado do Canal da Mancha, cujas baixas serranias podem ser avistadas em dias claros. Pouco restara do seu reduzido Exército, retirado às pressas de Dunquerque  em meio a intenso combate, quando a França esfacelou-se na inércia da covardia e da conivência de líderes pusilânimes. Mas a Inglaterra ainda era a sede do maior império já formado no mundo, aquele,” onde  o sol não se punha “. Possuía a mais forte Marinha de Guerra, e uma aviação de caça bem distribuída em pontos estratégicos.
Diante do derrotismo que já começava a ser um pesado sentimento, Winston Churchill,  torna-se Primeiro Ministro, alteia a voz, pede a união e a resistência dos ingleses,  confronta Hitler, e lhe diz ,orgulhoso, que a Inglaterra não se renderá, que lutará no mar, no ar, nas praias, nas montanhas, de casa em casa, e se vier a sucumbir, continuará a luta pela extensão do seu Império. 
E faz a afirmação corajosamente verdadeira. Promete aos ingleses: "sangue, suor e lágrimas.”
E, como é sabido, o nazifascismo foi derrotado.
Guardadas as merecidas proporções, quem, nesta crise brasileira poderia, emulando Winston Churchill, desempenhar o papel de unir a Nação, de ser uma voz  respeitada, com força moral para expor aos brasileiros toda a dimensão da crise, e convocá-los para o grande sacrifício, que, entre todos terá de ser compartilhado, preservando os mais pobres de maiores sofrimentos?
Quem?

 

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Luiz Eduardo Costa
Luiz Eduardo Costa

É jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Ambientalista, fundou o Instituto Vida Ativa que, dentre outras atividades, viabilizou em 18 anos o plantio de mais de um milhão de mudas da Caatinga e Mata Atlântica.

E-mail: lecjornalista@hotmail.com

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