Um mundo livre de fome e desnutrição
Blogs e Colunas | Saumíneo Nascimento 01/12/2018 21:37

 

De acordo com o último relatório publicado conjuntamente pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e outras quatro agências da ONU, cerca de 820 milhões de pessoas no planeta estão desnutridas. Trata-se de um desafio mundial constante, pois mesmo depois de décadas de reduções notáveis ​​no número de pessoas subnutridas, a fome avança novamente. 

Conforme estudos da FAO, o continente africano continua a ser o local com a maior porcentagem de vítimas da fome, já a Ásia e a região do Pacífico tem o maior número de pessoas subnutridas: mais de 500 milhões de acordo com as estimativas da organização internacional.

Para referenciar este breve ensaio, aponto um cientista brasileiro que é uma das minhas inspirações, o Médico e Geógrafo, Josué de Castro (1908-1973), autor de Geopolítica da Fome (um dos meus livros favoritos), que conforme relato de outro Geógrafo Manuel Correia de Andrade, este impressionado com o problema da fome, a princípio no Recife e em seguida no Brasil e no mundo, dirigiu seus estudos para a análise não apenas do problema da fome em si e de sua incidência sobre as pessoas mal alimentadas, mas das causas do problema e da ameaça que representava para a humanidade, das sequelas que deixava nas populações mal alimentadas, com repercussões na esperança de vida, na produção e no desenvolvimento intelectual do homem. Assim, o médico Josué de Castro, partiu para os estudos de Geografia, a fim de localizar as áreas de fome endêmicas no mundo e as implicações provocadas pelas condições naturais e pela organização social. Preocupou-se também com os estudos da Sociologia e da Economia Política, que têm implicações acentuadas sobre o problema alimentar; daí a sua visão de totalidade do problema da fome e o norteamento dado tanto aos seus estudos quanto à sua ação política nos planos nacional e internacional.

E a contradição disso é que a fome e a obesidade estão em ascensão, o que aponta para a necessidade de buscarmos medidas urgentes para acabar com todas as formas de desnutrição e também com o problema da obesidade, ambas estão matando muitas pessoas em todo o mundo.  

Uma das consequências da fome é que o retardo do crescimento infantil representa um problema sério e, quase 2 bilhões de pessoas ainda sofrem com a fome oculta que é a falta de nutrientes importantes.  O brasileiro que dirige a FAO, José Graziano da Silva reforça que também devemos incluir pessoas com sobrepeso ou obesas nas nossas preocupações de melhoria da qualidade de vida.

O Diretor Geral da FAO alerta que o número de pessoas famintas e desnutridas no mundo voltou a níveis não observados desde há dez anos, ele acrescentou que "depois de décadas de progressos na luta contra a fome vemos um revés grave e a FAO e entidades parceiras da ONU, em conjunto com os governos dos países membros e outros parceiros, estão todos muito preocupados".

O que os organismos internacionais que cuidam do tema estão concluindo é que infelizmente depois de muitos anos de enorme progresso global na redução da fome e da desnutrição, estamos diante de uma dolorosa realidade: o ritmo atual de melhoria nas condições de alimentação não é suficiente para acabar com a fome até 2030, como planejado pela ONU.

O organismo internacional especializado no acompanhamento da fome pelo mundo, o IFPRI (Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares), em seus estudos aborda que muitos países, da China à Etiópia, Bangladesh e Brasil, fizeram reduções notáveis ​​na fome e na desnutrição, e esses sucessos representam lições importantes para aqueles lugares que atualmente estão lutando para fazer progressos significativos.

Uma solução é a realização de intercâmbios de conhecimentos, métodos e ferramentas que levaram ao sucesso em muitos países, para que outros possam aprender, adaptar e acelerar o seu trabalho para reduzir a fome e a desnutrição de forma sustentável. Um noticia importante para nós brasileiros, é que o Brasil é um exemplo de país que melhorou a situação, mas ainda temos problemas em nosso país com a fome a desnutrição.

Citado o exemplo de Bangladesh, por exemplo, verificamos que o país alcançou uma das reduções mais rápidas na história do baixo peso infantil e do déficit na estatura das crianças e adolescentes, em grande parte por meio do uso de políticas públicas inovadoras para melhorar a agricultura e a nutrição. As políticas que apoiam o crescimento agrícola ajudaram a aumentar a produção, ao mesmo tempo em que apoiaram o planeamento familiar, melhoraram os serviços de saúde, aumentaram a frequência escolar, aumentaram o acesso a água potável e saneamento e o empoderamento das mulheres. Juntas, essas políticas reforçaram-se mutuamente para criar um ambiente de melhor segurança alimentar e nutricional para milhões de bengaleses.

A FAO também aponta que o crescimento econômico na China ajudou a tirar milhões de pessoas da fome e da pobreza. No Brasil e na Etiópia ocorreram transformações em seus sistemas alimentares que possibilitou a redução das ameaças de fome através de investimentos destinados à pesquisa e desenvolvimento agrícola e programas proteção social. Desde os meados dos anos 1980 e durante mais de duas décadas, a produção agrícola no Brasil cresceu 77% e que combinado com o programa Fome Zero, criado em 2003 para oferecer aos beneficiários uma ampla gama de serviços sociais, ajudou a reduzir a fome e a desnutrição no Brasil.

Da mesma forma, os investimentos agrícolas em larga escala da Etiópia levaram a um crescimento substancial na produção de cereais e na disponibilidade de alimentos, enquanto a criação do Programa de Proteção Social da Atividade Produtiva (PSNP) em atuação e que fornece alimentos e dinheiro para famílias carentes auxiliaram na redução da fome e desnutrição. Eles são entregues diretamente aos mais necessitados e condicionados ao requisito de trabalhar em outros casos. Estes investimentos, juntamente com a alta despesa pública em saúde e educação, têm reduzido drasticamente a fome e a desnutrição, mudando a imagem internacional da Etiópia de ser vítima de fomes frequentes, para um país que vive uma história de sucesso do desenvolvimento.

Em todo o mundo, melhorias na tecnologia estão ajudando a fornecer uma melhor nutrição. Por exemplo, aumentar o valor nutricional dos alimentos básicos através do enriquecimento de culturas, ou diretamente através do bioenriquecimiento está ajudando a reduzir a incidência de doenças prejudiciais, tais como anemia, e melhorar o desenvolvimento cognitivo em lugares tão diversos como a Zâmbia e a Índia.

Estratégias como a agricultura de precisão, a irrigação por gotejamento, a agricultura de conservação e a introdução de colheitas básicas resistentes à seca e à inundação representam exemplos adicionais de ferramentas poderosas que podem ajudar a produzir maiores quantidades de alimentos mais nutritivos de forma mais sustentável. .

A proliferação de novas tecnologias de comunicação e a capacidade de aproveitar grandes volumes de informações também oferecem oportunidades para expandir significativamente os sucessos e obter um impacto ainda maior.

Concordo com a visão do IFPRI de que pobreza, insegurança alimentar, má nutrição e saúde estão entre os problemas mais perniciosos que erodem a qualidade de vida e limitam a produtividade econômica.

Assim, a nutrição é a chave para o bem estar humano, mas muitas pessoas são afetadas pela má nutrição no mundo, ficando a desnutrição como um problema complexo, mas que podemos e temos como resolver.

Por isso que voltamos a tratar de um problema antigo, e às vezes esquecido pelos governos que é a magnitude do desafio global de reduzir a fome das pessoas.  Entendo que a urgência da tarefa em questão não pode ser ação isolada de Governos, mas de toda a sociedade, através de atos individuais e coletivos, mais que isso, é necessário que todos acreditem que é possível acabar com a fome e a desnutrição no mundo.

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Saumíneo Nascimento
Saumíneo Nascimento é Economista, Mestre e Doutor em Geografia, tem Pós-Doutorado em Ciência da Propriedade Intelectual pela UFS, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, da Associação Brasileira de Relações Internacionais e da Academia Nacional de Economia.

E-mail: saumineon@gmail.com


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