Estimular uso do transporte coletivo pode melhorar trânsito de Aracaju
Aracaju é a terceira capital do Nordeste no número de carros de passeio
Cotidiano | Por Saullo Hipolito 17/01/2020 19h00 - Atualizado em 17/01/2020 19h16

A busca pela qualidade em termos de mobilidade urbana é um desafio enfrentado pela maioria das grandes cidades no Brasil, que esbarram em problemas como o privilégio aos transportes individuais, e em Aracaju não é diferente. Segundo o Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros (Setransp), atualmente a cidade contabiliza 313.537 carros de passeio para 657.013 habitantes, uma média de quase um carro para cada duas pessoas, proporção que situa Aracaju como a terceira capital do Nordeste com o maior número de veículos, ficando atrás apenas de Teresina (PI) e João Pessoa (PB).

Para se ter ideia, entre 2009 e 2019 houve um aumento de 74% no número de veículos dentro de Aracaju. Esse crescimento, mesmo que em escalas diferentes, se dá em todo o Brasil, segundo estudo do Observatório das Metrópoles, devido à má qualidade do transporte público; à redução de impostos por parte do Governo Federal sobre produtos industrializados (o que inclui os carros); à concessão de mais crédito ao consumidor; e à herança histórica da política rodoviarista do país.

De acordo com a superintendente do Setransp, Raissa Cruz, o excesso de carros nas vias é, sim, um dos principais desafios da mobilidade urbana. Segundo ela, esse grande quantitativo causa congestionamentos cada vez maiores e compromete o desempenho operacional também do transporte público.

Para diminuir a quantidade de congestionamentos dentro da cidade e desenvolver meios para dar condições à população de se deslocar no espaço geográfico da capital sergipana, alguns métodos foram priorizados pelos órgãos responsáveis por essa mobilidade e alternativas foram tomadas por parte da população, que justifica a medida com a diminuição do tempo de deslocamento ou ainda pela prática de hábitos saudáveis no dia-a-dia, tudo isso para fugir de um problema apontado por especialistas: o alto número de veículos individuais.

Mais fluxo na capital

Entre as principais soluções para essa questão da mobilidade urbana, na visão de muitos especialistas, está o estímulo aos transportes coletivos públicos. Em Sergipe hoje são 570 ônibus em sua frota e a intenção dos envolvidos com o setor de trânsito na capital é apresentar uma solução para esses desafios através da melhoria de suas qualidades e eficiências, além do desenvolvimento de um trânsito focado na circulação desses veículos.

Por isso, a Prefeitura de Aracaju tem trabalhado nos corredores viários espalhados pela cidade. No último e mais ousado deles (corredor viário compreendido pelas avenidas Hermes Fontes, Adélia Franco e Empresário José Carlos Silva (antiga Heráclito Rollemberg), a gestão pretende realizar o recapeamento asfáltico, acrescentar mais uma faixa em cada sentido e modernizar as estações de ônibus da região, que ficarão no lado esquerdo, ou seja, no canteiro central.

"Vai ser uma mudança muito grande. É uma obra com características diferentes de todos os outros corredores, porque vamos fazer um corredor de ônibus pelo lado esquerdo, vamos tirar uma parte do canteiro central, para que a gente possa alargar as ruas, além disso, os pontos de ônibus ficarão em cima do canteiro, junto com as sinalizações para os condutores", afirmou o prefeito Edvaldo Nogueira na época em que assinou a execução do projeto.

Conforme dados cedidos pela Setransp, o que tem sido promovido em Aracaju pode ter um efeito positivo na mobilidade urbana, tendo em vista que um carro transporta de quatro a cinco pessoas e um ônibus do sistema de transporte coletivo leva cerca de 40 passageiros ao mesmo tempo.

Por exemplo, numa via dupla, se 900 carros circulassem em uma hora, a expectativa era de que aproximadamente 1,3 mil pessoas fossem transportadas. Com o acréscimo da terceira faixa, sendo uma exclusiva para a circulação de ônibus do serviço coletivo, 13,5 mil pessoas poderiam ser transportadas por hora, promovendo ainda mais a procura pelo serviço.

Dando ênfase ao assunto, a superintendente da Setransp reforça a importância da faixa prioritária para os ônibus, que já existem em alguns locais da cidade e que será implementada com as atuais obras. “A faixa prioritária é indispensável para o desenvolvimento da mobilidade urbana, pois ela possibilita maior fluidez no trânsito, aumentando a velocidade dos ônibus que levam a maioria das pessoas em cerca de 40% e assim geram mais agilidade no serviço ao passageiro”, salientou Raissa Cruz.

Ainda segundo ela, o uso regular das faixas exclusivas em Aracaju chegou a alcançar cerca de 20 minutos de redução no tempo de viagem dos ônibus, o que pode gerar melhor mobilidade para todos, uma vez que, ainda de acordo com ela, as faixas contribuem também para o ordenamento do trânsito com a distribuição justa do espaço viário, reduzindo acidentes. O principal mérito, porém, é dar maior fluidez ao transporte público coletivo, responsável pelo tráfego diário de mais de 70% da população, ocupando menos de 30% do espaço viário, contrapondo-se aos carros de passeio, que ocupam 70% das vias e transportam menos de 30% das pessoas.

O superintendente municipal de Transporte e Trânsito, Renato Telles, concorda com Raissa e garante que as obras vão assegurar um ganho a todos. “[as obras] Vão dar condições de levar mais pessoas com maior agilidade e reduzindo a poluição da cidade. Temos uma meta na SMTT de uma redução em 20% nos tempos de deslocamento, com isso, gera o benefício de ter a mobilidade para os carros e em especial aos ônibus”, afirmou.

Conforme o Setransp, o principal motivador para que os usuários voltem a optar pelo transporte coletivo é priorizar os ônibus nas vias. Com sua fluidez, os passageiros poderão ter um serviço mais ágil, garantindo os horários previstos de chegada aos destinos e a falta de agilidade - o maior entrave para a acolhida ao transporte coletivo - terá seu impacto reduzido.

Contudo, o que percebe-se a cada dia é que cada vez mais pessoas têm discutido essa situação nos mais variados espaços da sociedade. Muitos optam por meios alternativos, o que facilita o seu acesso ao destino final, como também geram impacto positivo na mobilidade, se esse indivíduo utilizar uma bicicleta, ainda que eventualmente, em detrimento de um carro.

O principal meio alternativo

O técnico em Saúde e Segurança do Trabalho Rivaldo Dias desde 2017 transformou sua vida ao optar em ir ao seu trabalho de bicicleta. Segundo ele, a ideia inicial foi fugir das superlotações e dos atrasos dos ônibus, mas ele garante que hoje há incentivo na utilização da bike dentro da cidade, principalmente com a construção de ciclovias.

“Os transtornos eram muitos, às vezes, mesmo sendo de bairro tão próximo e saindo tão cedo, chegava atrasado, se eu decidisse sair mais cedo que o horário habitual, ficava na porta do escritório aguardando e corria o risco de assaltos. Tudo mudou depois que me adaptei - de ônibus eu gastava de 20 a 30 minutos para chegar, já de bicicleta gasto dez minutos, fora que vivo sem o estresse do trânsito”, disse Rivaldo.

Percorrendo as regiões com ciclovias por tanto tempo, ele ainda destaca a necessidade de se ampliar o trajeto delas pois, segundo ele, em alguns pontos os ciclistas ainda têm que dividir o espaço com os condutores de veículos motorizados e muitos não os respeitam.

“Muitas áreas ainda precisam de ciclovia sim, mas isso é algo que tem que ser realmente estudado, porque não adianta nada implantar várias ciclovias na cidade sem ter uma qualidade e causar transtorno para a sociedade aracajuana”, avalia o ciclista.

De acordo com a assessoria da Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT), Aracaju atualmente possui 75 km de ciclovias e a tendência é de que esse número cresça no decorrer da realização das obras que estão a todo vapor. O superintendente do órgão, Renato Teles, ainda garantiu que o foco e principal objetivo de se criar as ciclovias é dar conforto ao trabalhador.

“O que fazemos não são apenas obras para os veículos de passeio, no corredor da Avenida Augusto Franco, por exemplo, os usuários de bicicletas vão ter um ganho enorme, uma vez que a via vai ser totalmente refeita com uma nova ciclovia que vai percorrer toda a sua extensão e com condições de locomoção, principalmente para o trabalhador que utiliza esse transporte”, informou o superintendente.

Edição de texto: Monica Pinto
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