‘Não estamos livres da pandemia’, diz Waneska sobre mês sem mortes em Aracaju | F5 News - Sergipe Atualizado

Entrevista
‘Não estamos livres da pandemia’, diz Waneska sobre mês sem mortes em Aracaju
Secretária da Saúde comenta ações de enfrentamento à covid-19 na capital sergipana
Cotidiano | Por Will Rodriguez 30/09/2021 19h00 - Atualizado em 01/10/2021 13h50

Nos últimos 30 dias, apenas uma pessoa morreu vítima da covid-19 em Aracaju. A marca de quase um mês sem óbitos é comemorada pela secretária municipal da Saúde, Waneska Barboza, com a sobriedade que lhe é peculiar. Nesta entrevista exclusiva ao F5News, a gestora explica a atual situação da pandemia na capital, traça um paralelo entre as estratégias adotadas e a redução de internações e óbitos - ressaltando a relevância da vacinação - e expõe seu entendimento sobre questões enfrentadas nestes 18 meses de crise sanitária, dentre elas, o imbróglio jurídico em que se transformou o Hospital de Campanha, sobre o qual, assegura a médica, restará evidenciada a completa lisura.

F5News - Após um ano e meio de pandemia, Aracaju alcança 30 dias sem óbitos por covid-19. O que isso traduz? 

Waneska Barboza - Esse é o resultado de um trabalho que vem sendo feito desde o início da pandemia. Ninguém conhecia o vírus que estava chegando, ninguém sabia qual era a repercussão dessas contaminações nas pessoas, a gente só sabia que as pessoas estavam morrendo e estavam se contaminando. Ninguém sabia ao certo quais seriam as medidas realmente eficazes para tratar a pandemia e várias coisas foram feitas, a gente foi aprendendo com ela no dia a dia. Aracaju tentou criar várias ações que pudessem trazer esse impacto de redução de contaminação, olhando e acompanhando o que estava sendo feito no mundo, o que estava sendo feito em outros estados, as boas práticas.

Desde então, nosso foco tem sido quebrar a cadeia de transmissão fazendo orientações à população de como deve manter as medidas de proteção, insistindo no uso das máscaras, na higienização, além das restrições. Não fizemos um lockdown, mas também não deixamos tudo aberto. Considero que os decretos de restrições foram muito bem adequados aos momentos porque fizeram postergar a primeira onda, que demorou muito para chegar ao pico e não foi muito elevado. Além disso, fizemos ampliação da testagem, abordagem no aeroporto, os serviços do Aracaju Pela Vida e do MonitoraAju para acompanhar os casos positivos, criamos unidades sentinelas na cidade diluindo essas pessoas que poderiam estar indo às portas de hospitais.

Na segunda onda, a gente já estava com um pouco mais de experiência, então conseguimos planejar de forma antecipada a ampliação de leitos para que não houvesse desassistência. De certa forma, ela foi mais severa por conta da entrada de outras variantes mais agressivas. E depois veio a vacinação, quando tivemos acesso a um instrumento que a gente tem percebido realmente como é eficaz. À medida que a vacina foi chegando, criamos um planejamento progressivo. Mesmo ainda outros municípios ou mesmo o governo federal criando estratégias de vacinação para grupos, Aracaju quando terminou de vacinar profissionais de saúde, da educação e alguns outros profissionais específicos, não mais ficou adotando critérios de grupos, Aracaju adotou critérios de idade. Isso começou a fazer com que a gente reduzisse os adoecimentos naquelas pessoas com maior vulnerabilidade, que são as pessoas com idade avançada ou que têm alguma comorbidade.

F5News -  A partir dessa experiência prática e considerando as novas cepas, a senhora tem receio que a cidade enfrente um novo repique da doença e como é que a população deve se comportar nesse momento?

Waneska - Esse é o risco do sucesso. Temos mais de 57% da população já vacinada com a segunda dose e mais de 90% da população acima de 18 anos já com a primeira dose. Isso cria uma sensação de que as pessoas estão livres da pandemia, mas nós não estamos fora da pandemia, apenas estamos com a pandemia controlada porque estamos avançando na vacinação e mantendo  as restrições que são necessárias. Estamos abrindo as atividades sociais aos poucos, mas condicionando os protocolos sanitários. São situações fundamentais para conseguir manter o controle da pandemia e, no momento ideal, em que realmente não haja mais circulação do vírus, possamos começar a ter uma ‘vida normal’.

F5News - É possível estimar quando isso deve acontecer? 

Waneska - Se nós não estivéssemos com a entrada de variantes, poderíamos estimar que em meados de dezembro. Mas com a chegada de novas cepas, é preciso ter muito cuidado porque, apesar da população vacinada, o que a gente tem percebido é que para alguns grupos a (proteção) das vacinas têm período. E a gente não sabe ainda se isso vai ocorrer dessa maneira para todo mundo ou se somente com aquelas pessoas com maior vulnerabilidade. Não dá pra gente achar que já venceu, porque o vírus continua circulando, ainda que numa taxa menor.

F5News - Nesse um ano e meio de pandemia, o que a senhora considera como maior aprendizado? 

Waneska - O maior aprendizado é saber que, por mais que você tenha conhecimento da área da saúde por ser médica, por ter cursos, você não sabe de nada. A pandemia é algo que iguala todo mundo, todo mundo não sabe o que pode acontecer e a capacidade de inovar, de não se ater apenas ao que você tem de conhecimento, é fundamental para que você possa criar estratégias, às vezes, algumas até que não estão nos livros. Nós procuravamos ações lógicas e analisamos as que realmente nos levaram no caminho certo.

F5News - Qual foi o momento em que a senhora se sentiu mais desafiada ou até angustiada?

Waneska - Foram os momentos em que vimos a população só adoecendo e a gente precisando ampliar cada vez mais os leitos de hospitais, vendo os profissionais cansados, precisando ser estimulados para que a gente não fraquejasse. Foi em momentos assim que eu, realmente, achei que a gente iria perder essa batalha. Mas a vontade, o compromisso da nossa equipe, a dedicação, às vezes abrindo mão da nossa própria família, foi de uma força tão grande que fez com que a gente esquecesse até que tinha vida própria e se voltasse a trabalhar pela sociedade. Foi a vida da sociedade que prevaleceu. 

F5News - Como a pandemia transformou a operação da Secretaria da Saúde, o modo de gerir a área?

Waneska - É na crise que a gente aprende, que você desperta. Então, tínhamos um planejamento baseado no que sempre foi feito, na organização de melhoria dos serviços que eram prestados à população, mas sempre na mesma lógica. Quando a gente se vê diante de uma pandemia, que exige diversas estratégias, que você precisa sair da caixa, que você precisa lançar mão de coisas que antes você não tinha como, por exemplo, atendimento virtual, são aprendizados que vão ficar. 

Hoje nosso planejamento em saúde não vai ser mais o mesmo. Teremos várias outras possibilidades inovadoras, não só do ponto de vista da tecnologia, mas do ponto de vista de processos de trabalho, para um atendimento mais humanizado, mais voltado para o resultado, voltado para a eficiência. 

A pandemia traz um sentimento de coletividade , de que nós não podemos viver pensando somente individualmente, que a gente vive em sociedade e no momento de crise precisamos dar mãos para vencer as batalhas.

F5News -  A Secretaria enfrenta questões judiciais ligadas ao Hospital de Campanha. Este mês, o Ministério Público Federal denunciou empresários e servidores da SMS. Qual é a postura da senhora enquanto secretária e a atual situação desses funcionários públicos, eles ainda estão vinculados?

Waneska - É lamentável que no momento de pandemia, de agonia social, onde o objetivo da Secretaria foi salvar vidas, que se traga a questão para um lado e análise política. Eu tenho plena convicção de que a Secretaria não fez nada de errado, todos os procedimentos foram adotados de forma correta. Só quem estava passando por aquele momento era a Secretaria de Saúde e seus servidores. Era um momento em que havia um número elevado de pessoas adoecidas, pessoas morrendo, que precisava ampliar leitos para atender essas pessoas, e tudo que foi feito foi dentro dos procedimentos legais.

Nunca houve comando nenhum para que ninguém fizesse nada fora da legalidade, e eu tenho plena convicção que os servidores também não agiram fora da legalidade. Considero um grande equívoco quando se tenta encontrar ações irregulares nos processos de trabalho dos servidores da Secretaria. Hoje, quando a gente olha lá para trás, é difícil os órgãos de fiscalização entenderem o que estava se vivendo naquele momento, em que só a Secretaria de Saúde tinha condições de dizer o que era necessário fazer, para que as pessoas não morressem. É fácil apontar o dedo para aquelas pessoas e achar que elas fizeram o procedimento errado, fora da legalidade. Acredito que tudo isso vai ser esclarecido na Justiça. Obviamente, se algum servidor por qualquer motivo fez alguma coisa errada por conta própria, esse servidor vai responder, nós também não estamos aqui para passar a mão na cabeça de ninguém. Os que foram denunciados permanecem em seus cargos, apenas um já tinha sido afastado por decisão judicial. 

F5News - A pandemia permanece no foco, mas quais outras ações compõem o planejamento de médio e curto prazo da Secretaria da Saúde? 

Waneska - Nós estamos construindo a maternidade do 17 de Março, que deve ser entregue até o início do próximo ano. Outro projeto é a qualificação da Atenção Primária. Com a pandemia, a gente percebeu que ela precisa cada vez mais ser fortalecida para que mais de 80% das necessidades da população sejam resolvidas ali dentro. São necessidades básicas de saúde e a gente conseguiu melhorar muito a nossa assistência, pois havia muitos déficits de profissionais, por exemplo. Hoje, Aracaju tem 141 equipes de Saúde da Família, todas reconhecidas pelo Ministério da Saúde. Temos um cadastramento da população que saltou de 200 mil aracajuanos para quase 600 mil. Além disso, há um projeto de diminuição de filas - que foram pioradas pela pandemia porque alguns procedimentos foram suspensos- mas queremos otimizar a oferta desses procedimentos para diminuir o tempo de espera da população. 
 

Edição de texto: Monica Pinto
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