Editorial
Agronegócio e o lucro comprovado da preservação ambiental
Vegetação nativa conservada rende ao Brasil cerca de R$ 6 trilhões anualmente
Editorial | Por Monica Pinto 16/09/2019 12:30

Um artigo publicado recentemente na revista Perspectives in Ecology and Conservation, endossado por 407 cientistas brasileiros, de 79 instituições de pesquisa, calcula que os 270 milhões de hectares de vegetação nativa preservados em propriedades rurais – entre áreas desprotegidas e de Reserva Legal – rendem ao Brasil R$ 6 trilhões anuais. Esse montante corresponde aos chamados serviços ecossistêmicos, que incluem polinização, controle de pragas, segurança hídrica, produção de chuvas e qualidade do solo.

“O artigo tem o objetivo de mostrar que preservar a vegetação nativa não é um impedimento ao desenvolvimento social e econômico, e sim parte da solução. É um ativo para o desenvolvimento sustentável do Brasil, de uma forma diferente do que foi feito na Europa há 500 anos – quando o nível de consciência ambiental era diferente”, disse à Agência Fapesp  Jean Paul Metzger, do Departamento de Ecologia da Universidade de São Paulo (USP) e primeiro autor do trabalho, intitulado Why Brazil needs its Legal Reserves.

Conforme a Agência Fapesp, um dos argumentos apresentados no artigo é o impacto de polinizadores na produtividade das lavouras de café. “Um estudo realizado pelo nosso grupo mostrou que a produção dos frutos de café é maior com a presença de abelhas, e que isso representa um ganho de R$ 2 bilhões a R$ 6 bilhões por ano no Brasil. Sem o trabalho das abelhas, continuaria tendo produção de café, mas 20% menor”, disse Metzger à reportagem, que alerta: “o serviço de polinização, no entanto, ocorre apenas em áreas adjacentes à vegetação natural, geralmente a uma distância inferior a 300 metros, o que exige a criação de interfaces entre culturas agrícolas e mata nativa”.

O mais promissor do ponto de vista da preservação ambiental é que o entendimento de representantes do agronegócio já corrobora ser inclusive desnecessário caminhar contra o desenvolvimento sustentável. Um peso-pesado do setor, Marcelo Vieira, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), foi entrevistado pela longeva rede britânica BBC – em sua sucursal brasileira: “Vieira atua há cerca de 40 anos como produtor e administrador de empresas nos setores de café, açúcar e álcool. Entre 2005 e 2014, foi diretor no Brasil da Adecoagro, empresa do megainvestidor americano George Soros, que adquiriu usinas de Vieira em Minas Gerais e Mato Grosso do Sul”. Disse ele à reportagem: “a área atualmente ocupada pela agropecuária é de 30% do território brasileiro apenas, mas com os ganhos de produtividade que vêm ocorrendo nas últimas décadas, continuando na mesma tendência, nós temos condição de produzir mais que o dobro do que nós produzimos hoje na mesma área”.

Um editorial de F5News publicado no final de agosto cita que estudos científicos de qualidade inquestionável alertam para  os riscos à produção agropecuária mundial, se mantida a atual escalada de degradação do solo e dos recursos hídricos - Um tiro no pé do agronegócio brasileiro. A situação particular e recente do desgaste da imagem do Brasil no exterior – mesmo que ainda não tenha sido comprovada uma relação causal na queda de suas exportações para fortes mercados (fora os EUA) – inspira a reflexão sobre um modelo de “desenvolvimento” que, ao que tudo indica, não interessa a ninguém dotado de bom senso. 

 

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