Editorial
As consequências do chamado “voto de protesto”
Rinoceronte, mosquito e macaco amealharam milhares de votos, na prática equivalentes aos nulos
Editorial | Por Monica Pinto 02/09/2018 07:30

Antes do advento da urna eletrônica – que estreou em 1996 -, as cédulas de papel foram instrumento para o chamado “voto de protesto”, uma tentativa de externar insatisfação por parte do eleitorado. Embora em termos práticos tal movimento não tenha resultado em nenhuma melhoria na vida pública brasileira, alguns episódios passaram à história.

O primeiro de que se tem registro ocorreu em 1959, na cidade de São Paulo. O rinoceronte Cacareco – na verdade, uma fêmea – fora emprestado pelo Rio de Janeiro para a inauguração do zoológico local e, por brincadeira, o jornalista Itaboraí Martins, do jornal O Estado de São Paulo, lançou a candidatura do animal. Conforme reportagem do portal iG, “milhares de cédulas eleitorais foram impressas em gráficas com o nome do bicho como parte da intervenção. E o resultado foi estrondoso. Cacareco conquistou quase 100 mil votos nas eleições”.

Em Vila Velha, no Espírito Santo, no final dos anos 80, outro animal teve performance ainda mais avassaladora. Revoltados com o surto de dengue na cidade, 29.884 eleitores escreveram “mosquito” na cédula de votação, universo capaz de superar o saldo do vencedor da espécie humana, cujo nome, escolhido por 26.576 pessoas, obviamente garantiu a ele o assento de prefeito.  

O episódio de maior repercussão, porém, se daria em 1988, com o lançamento da candidatura do chimpanzé Tião - maior atração do zoológico do Rio de Janeiro - a prefeito da cidade, por obra dos humoristas autores do jornal "O Planeta Diário" e da revista "Casseta Popular". Num período em que o país vivia a transição da ditadura para a democracia, argumentaram eles que o propósito era libertar "o último preso político", concorrente pelo fictício Partido Bananista Brasileiro. A estimativa é de que Tião tenha recebido cerca de 400 mil votos – o terceiro lugar no pleito. Morto pela diabetes em 1996, aos 34 anos, tornou-se ícone da descrença na política partidária.

Se na prática esses votos de protesto foram o equivalente aos nulos, no âmbito dos ditos racionais, essa opção viabilizou aberrações como a verificada em 2002, quando o candidato a deputado federal pelo estado de São Paulo, o folclórico Enéas Carneiro, saiu das urnas como fenômeno, com mais de 1,5 milhão de votos. “Os eleitores transformaram Enéas no Cacareco do novo milênio”, disse a revista Veja na ocasião. E prosseguiu: “A diferença entre os dois cacarecos é que o primeiro continuou encarcerado no Jardim Zoológico. Já o candidato do Prona não só assumiu o mandato em 2003 como levou outros cinco deputados nas costas”.

Um deles, o professor Irapuan Teixeira, alçado à Câmara Federal com irrisórios 637 votos, propôs obrigar os condenados a mais de 30 anos de prisão a doarem um dos órgãos duplos, como pulmões e rins, além de medula ou dois terços do fígado. Dessa ideia esdrúxula em todas as leituras possíveis, se pode inferir o nível do preparo de um parlamentar cujos salários e benefícios foram pagos pelo povo brasileiro.

Passando pelo estilista e apresentador de TV Clodovil em 2006, também eleito deputado federal por São Paulo, recordista de votos e levando de carona duas nulidades, até o palhaço Tiririca, em 2010 fenômeno eleitoral cujo sucesso fez chegarem à Câmara dos Deputados outros três zeros à esquerda, esse voto de protesto inconsequente não serviu para nada. No caso dos animais, vigorou o resultado legal. No caso dos humanos, desqualificou ainda em maior escala um Legislativo que se mantém decepcionante – resguardadas escassas exceções. 

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