Editorial
As várias tragédias anunciadas da vida brasileira
O padrão de ineficácia das autoridades está no alicerce de sucessivos sinistros registrados no país
Editorial | Por Monica Pinto 05/09/2018 07:30

O incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro se encaixa à perfeição no conceito de “tragédia anunciada”, mas não é o primeiro exemplo adequado e, muito provavelmente, não será o último. A presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogéa, disse ao portal G1 que desde 2004 o Iphan pedia providências. E lamentou que a UFRJ não tenha interditado a instituição, tampouco o Corpo de Bombeiros, responsável por vistoriar os equipamentos contra chamas, inexistentes.

Se agora o Brasil e o mundo perderam patrimônio histórico, artístico e cultural irrecuperável, há poucos anos foi nossa biodiversidade que sofreu prejuízos cuja reversão plena, se possível, demandará a passagem de séculos: em 5 de novembro de 2015, ocorria o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Como se sabe, milhões de toneladas de rejeitos de mineração da Samarco literalmente mataram o rio Doce e seus afluentes. Cidades ribeirinhas foram devastadas pela avalanche de lama tóxica – em Bento Rodrigues, mais de 200 famílias perderam suas casas e 19 pessoas, as vidas. Na esfera ambiental, se classifica como a maior tragédia brasileira –à semelhança da ocorrida no museu, fartamente anunciada. A perícia criminal federal encontrou danos estruturais na barragem, sobretudo falhas nos sistemas de drenagem interna que vinham desde 2008. E o pior: constatou que tal cenário era integralmente do conhecimento de técnicos e gestores da Samarco.

Outro exemplo de tragédia anunciada que causou comoção nacional se deu na cidade gaúcha de Santa Maria, onde, em janeiro de 2013, 242 jovens morreram em um incêndio na boate Kiss – famílias destruídas pela soma de condições de segurança precárias e deficiência na fiscalização, quadro que já fora denunciado sem suscitar qualquer providência a respeito.

O padrão de ineficácia das autoridades está no alicerce de vários sinistros registrados na vida brasileira contemporânea, fato que perverte um famoso dito popular: aqui choramos sobre o leite derramado, posto que aparentemente transborda a negligência. Até quando?

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