Editorial
Desmatamento no cerrado e seus impactos sociais e no meio ambiente
Exploração sem critérios já tem reflexo na oferta da água doce limpa que alimenta oito das 12 regiões hidrográficas do Brasil
Editorial | Por Monica Pinto 12/09/2018 07:30

Ontem – 11 de setembro – foi o Dia Nacional do Cerrado e, com o perdão pelo uso de um clichê, não houve nada a se comemorar. Há anos que organizações não governamentais inclusive com apoio de empresas cientes da própria responsabilidade ambiental, vêm alertando para a necessidade de se proteger o segundo maior bioma brasileiro, que só perde em extensão para a Floresta Amazônica.

As advertências foram em vão, como atestou um levantamento divulgado em agosto passado pelo MapBiomas, um grupo de 30 organizações não-governamentais, universidades e empresas brasileiras. Utilizando o acervo de fotos feitas via satélite ao longo de mais de 30 anos, por um projeto da Nasa e do Serviço Geológico dos Estados Unidos, o estudo verificou que, de 1985 para cá, o Brasil perdeu 71 milhões de hectares de vegetação nativa, equivalente ao tamanho dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul. O bioma afetado em maior proporção foi o cerrado, cuja cobertura no território nacional diminuiu 18%. O impulso para tal cenário ficou evidente no levantamento: em 33 anos, a área da agricultura aumentou três vezes e a usada pela pecuária cresceu 43%.

O desequilíbrio entre o interesse do setor agropecuário e a necessidade óbvia de preservação ambiental constitui ameaça à grandiosa biodiversidade que o cerrado abriga, parte dela endêmica. E responde por impactos sociais significativos às muitas comunidades que sobrevivem dos recursos do bioma, a exemplo de etnias indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Na esteira do abandono, seus saberes tradicionais tendem a cair no esquecimento, inclusive o uso medicinal de mais de 200 espécies de plantas.

Frear o desmatamento do cerrado é o clamor sobre o qual organizações em defesa do bioma formularam um documento aos candidatos à Presidência. Com o título “Desenvolvimento Socioeconômico Responsável, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade, Redução do Desmatamento e Restauração da Vegetação Nativa”, foi lançado em evento da Frente Ambientalista na Câmara Federal no dia 4 e traz dados potencialmente capazes de despertar preocupação até nos mais refratários a causas que, para esse universo, seriam classificadas como “papo de ecochatos”.

Conforme mostra o estudo, a exploração sem critérios do cerrado já tem reflexo na oferta da água doce limpa que alimenta oito das 12 regiões hidrográficas do Brasil – “Houve a diminuição da vazão em rios e a modificação do ciclo das chuvas, provocando crises de disponibilidade da água para irrigação, abastecimento humano e animal, industrial, geração de energia, mineração, aquicultura, navegação, turismo e lazer, além de prejudicar a produtividade agrícola em muitas partes do bioma”, diz o documento.

Se os abalos já em curso na qualidade de vida dos brasileiros não bastam para fomentar práticas atentas ao quadro inexorável de esgotamento dos recursos naturais, talvez a saída esteja em uma nova ordem mercadológica, que depende de políticas públicas aptas a conciliar produção com preservação. Tarefa negligenciada usualmente pelas esferas de poder, livres de pressão à altura da importância que o tema requer – salvo o brado guerreiro de entidades do terceiro setor e da academia, muito pouco repercutido.   

 

Mais Notícias de Editorial
A Fafen permanece aberta em Sergipe – ainda bem
23/09/2018 12:00 A Fafen permanece aberta em Sergipe – ainda bem
Reversão da proposta do Governo Federal salva do desemprego um contingente de 4 mil trabalhadores
Tradições e suas contradições
16/09/2018 11:30 Tradições e suas contradições
De caça às baleias à mutilação genital feminina, a "tradição" vem sendo usada para disfarçar a barbárie
F5 News e o compromisso com a democracia
09/09/2018 17:00 F5 News e o compromisso com a democracia
Portal entrevista candidatos ao Governo de Sergipe e ao Senado
As várias tragédias anunciadas da vida brasileira
05/09/2018 07:30 As várias tragédias anunciadas da vida brasileira
O padrão de ineficácia das autoridades está no alicerce de sucessivos sinistros registrados no país
As consequências do chamado “voto de protesto”
02/09/2018 07:30 As consequências do chamado “voto de protesto”
Rinoceronte, mosquito e macaco amealharam milhares de votos, na prática equivalentes aos nulos
Veja Mais