Editorial
Fôlego para o Catolicismo e exemplo para o mundo
Primeira santa brasileira deixou um legado que perdura até hoje
Editorial | Por Monica Pinto 13/10/2019 18:00

A canonização hoje da primeira santa nascida no Brasil, a baiana Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, a Irmã Dulce – nome que adotou na vida religiosa – pode significar um novo fôlego para a Igreja Católica Apostólica Romana, cujo rebanho vem minguando nas últimas décadas. O Brasil ainda detém a liderança mundial no número de católicos, com cerca de 123 milhões de fieis, mas há décadas se observa tendência de queda. Em 1970, 92% dos brasileiros se diziam católicos – mesmo que não necessariamente praticantes. Hoje esse percentual é de 64%, sendo a maior fatia dessa perda transferida às denominações evangélicas, cujos seguidores saltaram de 5% da população para 22% nos últimos 50 anos.

A estratégia de canonizações para fidelizar e aumentar seu rebanho – no dogma católico, os santos e santas são os intermediários nos pedidos a Deus – vem sendo posta em prática pelo Papa Francisco desde o início de seu pontificado. O nascimento de Santa Dulce dos Pobres, epíteto que agora a identifica, foi o terceiro mais rápido da história – apenas 27 após sua morte, em 1992. No topo do pódio, está a canonização do papa João Paulo II, processo que durou apenas nove anos e, em seguida, o de Madre Tereza de Calcutá, concretizado 19 anos depois de falecida a religiosa albanesa que inspirou o trabalho social de Irmã Dulce.

A primeira santa brasileira ganhou o apelido de “anjo bom da Bahia”, mas, como se sabe, é de Sergipe um significativo mérito: foi na cidade de São Cristóvão que ela começou sua vida religiosa, no Convento do Carmo. A decisão do Vaticano tem, portanto, um impacto inegável sobre as tradições religiosas do estado, onde já se prevê a criação de um roteiro para peregrinos.

Voltando ao recorde de canonizações promovidas recentemente - quase 900 em apenas seis anos do pontificado de Francisco -, esse movimento da Santa Sé não pode ser visto apenas como uma estratégia. Muito além, expressa a coerência do Papa em aproximar a Igreja dos desvalidos, ao personificar seu entendimento de que qualquer pessoa pode vir a ser santo ou santa. “Ser pobre no coração – isso é santidade”, escreveu o chamado “Papa simples” em um documento oficial do Vaticano no ano passado.

Para católicos ou não, o fato é que a obra de Irmã Dulce é uma inspiração valiosa. De compleição frágil – tinha 1,48m de altura -, ela foi capaz de demonstrar a força da perseverança, em resultados práticos que perduram, como a operação de um dos maiores complexos de saúde do Brasil, criado por ela: o Hospital Santo Antônio, em Salvador, que hoje faz 3,5 milhões de procedimentos ambulatoriais por ano, gratuitamente.

Que seu legado de fé e caridade frutifique, Santa Dulce dos Pobres. Que ajude a transmutar o radicalismo indutor da separação das pessoas, ao invés de sua união, em um hino ao amor, à tolerância e à misericórdia – tripé sobre o qual deveria se erigir toda e qualquer religião.

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