Editorial
Um tiro no pé do agronegócio brasileiro
Representantes do setor defendem a importância de operar com respeito ao meio ambiente
Editorial | Por Monica Pinto 25/08/2019 01:25 - Atualizado em 25/08/2019 01:45

"It's the economy, stupid" (É a economia, idiota). A frase atribuida em 1992 a James Carville, então estrategista da campanha do democrata Bill Clinton contra o republicano George H. W. Bush, presidente dos Estados Unidos que tentava se reeleger, dimensiona como o combate à recessão em que vivia aquele país à época foi determinante para o sucesso de Clinton. Esse panorama encontra similaridade com o brasileiro no pleito passado, quando Jair Bolsonaro chegou à presidência da República com um discurso que, entre outras plataformas, se comprometia a promover a recuperação econômica do Brasil. 

Mas é justamente nesse aspecto que os dados recordes de queimadas no país, confirmados até pela Nasa, podem gerar retrocessos, com prejuízos em especial à balança comercial brasileira e, por consequência, ao PIB – sem contar a perda imensurável de biodiversidade no local mais afetado pelo fogo, a região amazônica. Reportagem publicada hoje por F5News mostra que estudos científicos de qualidade inquestionável alertam para  os riscos à produção agropecuária mundial, se mantida a atual escalada de degradação do solo e dos recursos hídricos. Em suma, “um tiro no pé”, obstáculo concreto à manutenção da boa performance do agronegócio brasileiro,  setor chave para o desenvolvimento econômico do país e que apresenta avanços inclusive na seara da conservação ambiental. 

Em nota ao jornal O Globo, a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), que reúne as principais empresas do setor de papel e celulose, afirmou que “há anos o Brasil vem construindo uma imagem internacional de conservação com produção e não podemos jogar esse trabalho fora”. O comunicado foi logo após o ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi, acionista da Amaggi, maior trading do agronegócio de capital nacional, afirmar em entrevista ao jornal Valor Econômico que o discurso "agressivo" do governo Jair Bolsonaro na área ambiental tem combustível suficiente para cancelar o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia anunciado em 28 de junho. Maggi colocou ainda que o Brasil deve reivindicar soberania sobre seu patrimônio ambiental, mas de forma diplomática, compondo com outros países. “Há anos o Brasil vinha defendendo preservação com produção, tínhamos avançado bastante, já tínhamos ganhado confiança do mercado, mas com esse discurso [do governo], voltamos à estaca zero”, disse ao Valor Econômico.

Nesta sexta-feira (23), em pronunciamento em rede nacional, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que os incêndios florestais acontecem em todo o mundo e não podem "servir de pretexto para sanções internacionais". Era claramente uma resposta às críticas que o governo vem sofrendo em relação às políticas públicas na Amazônia Legal. 

Pretextos ou não, o fato é que as ameaças de sanções comerciais existem e justificam as preocupações de fortes representantes do agronegócio. Repetindo o que já havia antecipado, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou neste sábado (24), em discurso de início da cúpula do G7 – grupo que reúne as maiores economias mundiais -, que uma das suas prioridades no evento seria mobilizar “todas as potências, em parceria com os países da Amazônia”, para combater o desmatamento e investir no reflorestamento. “A Amazônia é nosso bem comum. Estamos todos envolvidos, e a França está provavelmente mais do que outros que estarão nessa mesa [do G7], porque nós somos amazonenses. A Guiana Francesa está na Amazônia”, disse Macron. 

Enquanto já ferviam no Brasil reações a favor do posicionamento do presidente francês, e muitas contrárias, sob o argumento de que essa intervenção é um acinte à soberania nacional, ainda na sexta-feira (23), a Finlândia, que tem a presidência rotativa da União Europeia (UE), declarou em um comunicado emitido por seu Ministério das Finanças a intenção de buscar meios para levar o bloco a banir a importação de carne bovina brasileira. 

Em entrevista a O Globo, o engenheiro de alimentos Marcello Brito, diretor-executivo da Agropalma, maior produtora de óleo de palma do país, e presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), disse que a grande maioria dos empresários do agronegócio já entendeu que o setor está ligado de modo irreversível à preservação do meio ambiente, tanto pela dependência de terra e de água, quanto pelo fato de que quem não se enquadra na nova agenda ambiental global perde mercados no exterior.

É a mesma lógica de Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, ao comentar que qualquer mensagem contra o meio ambiente cria dificuldades para os negócios do Brasil. “O selo Brasil tem que ser associado a boas práticas, à preservação da maior biodiversidade do planeta, é isso que nos abre mais mercado. Sustentabilidade é novo padrão e quem quer vender tem que se adequar”, afirmou também ao jornal O Globo.

A mácula na imagem do Brasil não será equacionada com comparações sobre que países mais destruíram seus recursos naturais ao longo das respectivas histórias, tampouco atribuindo a culpa pelas queimadas a ONGs internacionais – sem apresentar qualquer evidência que ampare esse entendimento. Só a efetividade de ações de combate à devastação,  confirmada por dados científicos, tem chance de frear um movimento de reprovação quase unânime e, pela continuidade de medidas em prol do desenvolvimento sustentável, trabalhar por sua completa reversão. Não se trata de tarefa fácil, nem de rápida execução, sobretudo porque, não sejamos ingênuos, interessa a muitos países tirar do páreo o Brasil como força na concorrência – por vezes, liderança – em vários mercados no exterior. Mas a vontade política posta em prática com eficiência e a devida prioridade,  fundamental à conservação do grandioso patrimônio ambiental do Brasil, como se viu nesse episódio, é imperativa no caminho de seu crescimento econômico. 

 

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