"É importante que brasileiros digam menos 'sim, senhor'" | F5 News - Sergipe Atualizado

"É importante que brasileiros digam menos 'sim, senhor'"
Ben Strik, o ativista dos direitos humanos holandês, fala ao F5 News
Política 29/10/2011 07h23


Por Sílvio Oliveira

 

O missionário holandês Ben Strik (89) está no Brasil e veio a Aracaju participar de um bate-papo com ativistas dos movimentos sociais. Ele falou ao F5 News, após ter feito uma palestra em Propriá (SE), cidade que manteve uma estreita relação ao participar nos anos 70/80 da defesa das terras às margens do rio São Francisco, junto com o então bispo Dom José Brandão de Castro. Ben participou de movimentos em prol das lutas democráticas durante a ditadura militar, contribuiu para a organização popular do Partido dos Trabalhadores, da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e das Comunidades Eclesiais de Base. Voltando à Holanda, criou três fundações para ajudar o Brasil. Sua luta contra o nazismo custou dois anos num campo de concentração, na Alemanha. Tornou-se sacerdote salesiano, chegando ao Brasil em 1950, quando foi missionário na região amazônica, ficando no país até 1972. O holandês também escreveu o livro Morrer para Viver, com prefácio de Frei Beto, contando a luta do frei Tito de Alencar Lima, que foi exilado e torturado na época da ditadura. Ben Strik está no Brasil desde 12 de setembro, acompanhado de sua esposa, Patty.  O missionário passou por Itajaí (SC), Belo Horizonte (MG), Campinas (SP), Curitiba (PR), Vitória (ES), Goiânia (GO), Fortaleza (CE), Recife (PE), Propriá (SE) e Aracaju (SE) e, nos próximos dias, segue para Salvador (BA).

 

F5 News - O que o fez deixar a Holanda e vir ao Brasil para participar dos movimentos sociais e das lutas pelos direitos Humanos?

Ben Strik - Isso aconteceu em 1950, vivi 22 anos aqui no Brasil, voltei para Holanda para comprar máquinas de algodão e vir para Rondônia. Montei três fundações na Europa e através da música brasileira conseguimos trabalhar para aqueles que necessitam mais do que nós de uma ajuda. Comecei o movimento em Natal, quando estudei Filosofia. Trabalhei na Amazônia com os índios, depois São Paulo, nas favelas, e de lá fui para Rondônia, quando fiquei 14 anos. Levantamos obras, recebi muita gente do Sul que vinha para trabalhar e achar um pedaço de terra. Então, consegui levantar cooperativas, abrimos hospital. Eu fui vigário em Rondônia, depois meu sucessor foi morto e ele sempre me dizia que eu estava marcado para morrer por fazendeiros também.  Não concordava com aquilo que movia a guerra.

 

F5 News - Qual era a bandeira principal da luta em Rondônia que o fez ser marcado para a morte por fazendeiros?

Ben - A luta pelos direitos humanos. Organizar os populares. Levantar aqueles que não tinham condições contra aqueles que sempre se posicionaram para abusar dos outros. Conseguir levantar aquela gente, sempre abusada por fazendeiros. Sempre eu me coloquei onde houvesse a necessidade de defender os mais fracos, contra aqueles que negligenciam os deveres que têm.

 

F5 News - E a história com Sergipe?

Ben - Vim para cá em 73. Encontrei Dom José Brandão de Castro. Ele viajou comigo depois para a Holanda. Aliás, ele não iria. Quem iria era Dom Evaristo Arns, então cardeal de São Paulo. Dom Evaristo disse que indicaria uma pessoa melhor para ir comigo, que seria Dom José Brandão. Ele foi lá denunciar o que se tinha de errado ao longo do rio São Francisco: derrubando casas, nas colheitas, retirar as pessoas para o levantamento da represa em Paulo Afonso, tudo que se fazia lá. Fomos até o banco na Holanda, que também colocava dinheiro na represa, e perguntamos se ele sabia onde ele estava colocando o dinheiro dele. Vejo o que acontece hoje com a questão do futebol: é uma coisa muito triste o que está acontecendo ao redor dos estádios. Fui até o Maracanã, aonde vai se gastar bilhão para ajeitar aquilo. Tanto dinheiro, tantos guindastes e quase todo um bairro tem que desaparecer por completo. 129 pessoas vão sair de lá e só 40 podem receber alguma coisa do Estado. É tanta injustiça. O mais importante é estádio, o futebol. É esconder a pobreza e depois tem que tentar de novo para reconhecer o direito dos pobres coitados que não receberam apoio.

 

F5 News - Como o senhor vê o cumprimento dos direitos humanos aqui no Brasil, já que o senhor também tem a visão macro desses direitos na Europa?

Ben - A comunidade europeia é mais equilibrada, mais democrática em quase todos os países. As pessoas que não têm nada recebem um apoio para viver, de mais ou menos R$ 1 mil. Recebem o apoio do governo, enquanto que no Brasil o real se vai pela economia imposta pelo exterior. É muito investimento de fora e tão pouco é investido em obras sociais para tirar aquela camada de baixo. O que tiram daqui, deveriam também deixar muito mais. Há muita diferença entre o Brasil e os países da Europa. A diferença social entre ricos e pobres é enorme. Ficou muito maior. A alegria é menos do que 50 anos atrás quando estive aqui. Muito dinheiro sobrando, mas...

 

F5 News - A diminuição do abismo social seria uma promessa para o Brasil?

Ben - Acho que a criação de um novo partido. Começar com “P “ maiúsculo, porque todos que estão aí dizem que vão fazer e até hoje não fizeram, pela influência de fora e pela falta de união com o povo. Os ricos não se incomodam. Pessoas que fazem coisas maravilhosas, que lutam, morrem. Poderão incentivar e construir grupos de jovens, cursos de lideranças, gente que pense de baixo para cima, que pense em servir mais do que em fazer carreira. Tudo é possível, mas qualquer lugar deverá pensar em nivelar a economia mundial e tirar o valor do dólar e colocar outro valor para que todo mundo possa usufruir das riquezas que são de todos.

 

F5 News - E o Partido dos Trabalhadores, o senhor mantêm um laço?

Ben - Não sou político. Ajudei a brasileiros que foram enviados à Holanda. Estive com a CUT em Belém, Manaus, em São Paulo, fui para reuniões, cursos, ajudamos um pouco, mas na direção da liberdade e para acabar com a ditadura. Encontrei com gente do PT nas 25 cidades. O PT já fez o que podia. O Brasil está mais rico e tem quase tudo para tomar as rédeas pela primeira vez e criar uma independência. Está na hora de falar com a energia que tem, para depois dividir melhor sua renda.

 

F5 News - O que o povo brasileiro precisa para viver melhor, respeitar os direitos humanos e ser mais igualitário?

Ben - Deixe pensar... O povo brasileiro por natureza tem sua alegria, por isso, suporta bem o sofrimento. É importante que os brasileiros digam menos “Sim, senhor” e digam mais “Não, senhor”. Tem muita gente dependendo de uma Bolsa Família. A coisa é caridade, caridade. Na Holanda a caridade foi substituída por justiça. Por isso não se tem mais quase religiosos, porque não precisa mais. O Estado assumiu a responsabilidade e o que Igreja fazia está sendo feito pelo Estado, por justiça. Todos têm direitos e isto são os direitos humanos. Todos têm direito, sem exceção.

 

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