A arte de arruinar uma vizinhança! | Clarisse de Almeida | F5 News - Sergipe Atualizado

A arte de arruinar uma vizinhança!
Que progresso é esse que torna piores os lugares que são por ele tocados?
Blogs e Colunas | Clarisse de Almeida 24/01/2022 11h25 - Atualizado em 24/01/2022 15h59

Paulatinamente as atividades econômicas vão sendo retomadas; a construção civil que vinha se arrastando em função da pandemia começa a mostrar seu vigor aqui e acolá na cidade, e com ela vem as mazelas que são os brindes que acompanham os empreendimentos, os quais alegremente dispensaríamos. Brindes próprios de uma visão antiquada, egoísta e displicente que as construtoras insistem em manter. Mas o que são estes brindes? Vejamos a seguir:

Tomemos como exemplo um novo condomínio em construção encravado numa área ambientalmente bem frágil, entre os Conjuntos Beira Mar II e Santa Tereza, no bairro Aeroporto.

Área ladeada por um importante canal de drenagem natural, até seis meses atrás era o pulmão da região abrigando arvoredo significativo, lar de centenas de pássaros, lagartos, e fauna diversa, que repentinamente foi expulsa de seu habitat, quando praticamente todas as árvores foram arrancadas para o início da terraplenagem. Começa então o martírio da vizinhança com o primeiro brinde: - o aumento da temperatura nos arredores com a ausência da cobertura verde que funcionava como elemento de absorção de calor.

Mas temos que nos conformar. “É o progresso!”, diriam alguns.

Continuando os trabalhos de implantação do previsível e simplório empreendimento, começam os aterros, usando terras de alhures trazidas em imensos caminhões que multiplicam inexoravelmente as atividades de faxina das casas vizinhas.

Ah! E haja antialérgico... Consideremos este o segundo brinde.

Próximo passo, a ruptura do espaço! Começam a construção do muro cego que transformará a longa calçada do condomínio em lugar de perigo, desértico, vulnerável, sem a necessária troca e vigia que chamamos de “olhos da rua”.

Jane Jacobs, famosa jornalista americana que tratava de algumas questões urbanas, em seu livro “Morte e Vida das Grandes Cidades”, nos mostra quão cruel é o muro cego que exclui, que confina, empurrando à própria sorte os pedestres que por ali circularem. Protegidos pelos muros, os mal-intencionados estarão livres para ação. Mas e o outro lado da rua? Infelizmente terá o mesmo destino, tendo em vista o terreno lindeiro pertencer à mesma construtora.

Temos esses problemas expostos nas ruas da Zona de Expansão, no chamado bairro Nova Aruana, ao longo dos condomínios de alto padrão predominantes, que voltam as costas para as vias urbanas, incapazes de ouvir um grito de socorro. Então, temos como terceiro brinde um corredor de insegurança formado por muros cegos, surdos e insensíveis.

Ainda identificando as mazelas, temos uma outra silenciosa, imperiosa e fatal.

A absoluta falta de valores estéticos que encontraremos nas novas construções. Os blocos anunciados, “caixas de sapato” coloridas, nada de extraordinário, belo ou ousado trazem em si, dessa forma sendo de nós roubada a oportunidade de conviver com estética agradável, com formas graciosas, provocantes, estimulantes, nos empurrando para uma convivência monótona com paisagem de pouco valor visual. Esse é o quarto brinde.

Então, ficam as perguntas: que progresso é esse que torna piores os lugares que são por ele tocados? Como uma intervenção que pretende oferecer benesses pode ser vilã na vizinhança?

Pobre de nós!!

 

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Arquiteta e Urbanista pela FAUSS/RJ, especialista em Tecnologia Educacional pela UERJ e em Paisagismo pela UFLA/MG. Atua com ênfase em Desenho Urbano e Projetos de Edificação e Paisagismo. Leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIT. Possui trabalhos reconhecidos nacionalmente e tem sido palestrante em variados eventos. É membro da equipe da Ágora Arquitetos.

E-mail: arqclarissedealmeida@gmail.com

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