O ir e vir
Blogs e Colunas | Clarisse de Almeida 28/05/2018 22h02 - Atualizado em 28/05/2018 23h19

Com a recente greve dos caminhoneiros, finalmente os olhos se voltaram para uma das mais importantes funções da cidade: a mobilidade.

Ainda que tenha sido por meio de uma crise, é incrivelmente positivo que se pense na circulação das pessoas. Nessa reflexão, a primeira constatação é que somos perigosamente reféns do petróleo, pois infelizmente nunca pensamos nas extraordinárias alternativas de que poderíamos lançar mão.

Tenho observado desde o inicio da paralisação nas rodas de amigos conversas sobre  o quanto a falta de ações objetivando a criação de diferentes e melhores opções de locomoção urbana, ao longo dos anos e nas sucessivas gestões públicas, nos empurrou para essa situação.

Nessa análise cabem duas vertentes: novos combustíveis e diferente modais/meios de transporte; nenhum dos dois devidamente encorajados. Pelo contrário, o álcool, que chegou a ter seu lugar garantido em nosso dia-a-dia, passou a ser bem menos que um coadjuvante nos postos de abastecimento; mesmo o gás veicular, que ainda não tem rede de distribuição e nem carros fabricados com tecnologia bem adaptadas, teve o seu uso estimulado. Sem falar nos carros elétricos que ainda engatinham em nosso leque de opções.

Além dos biocombustíveis que já deveriam estar popularizados há muito tempo, também os modais alternativos já poderiam ocupar espaços nos transporte urbano. Pensando localmente, o trem, os barcos, e os miniveículos como os triciclos com cabine, conhecidos como os “Tuk Tuk indianos”, responderiam bem à vocação de nossa capital.

 Embora em péssimas condições de manutenção, temos trilhos entre o bairro Bugio e o Santa Maria, extremos norte e sul da cidade, pensou-se  até em utilizá-la para um impossível, em função do custo, VLT – Veículo Leve sobre Trilhos, mas que serviria a uma retomada do uso dos trens  convencionais, pelo menos para distribuição do fluxo até um sistema capilar de locomoção local.

 Somos circundados por uma hidrografia generosa, que com um pouco de investimento voltaria a ser plenamente navegável de norte a sul, que seria outra alternativa para a mobilidade. Não menos importante, o “Tuk Tuk” serviria satisfatoriamente aos nossos bairros mais antigos, com ruas e calçadas estreitas, coletando usuários para pequenos percursos.

Ainda essas pequenas distâncias poderiam ser vencidas por duas formas primárias de locomoção: pedalar e caminhar. Porém, infelizmente não podemos considerar essas hipóteses em nossa cidade. Faltam-nos as árvores para sombrear as calçadas e ciclovias, e faltam-nos as calçadas adequadas para caminhar. Muitos tiram seus carros da garagem para se deslocar por míseros 2 km, distância  que em cidades gentis com seus pedestres costuma-se vencer diariamente para trabalhar, e ou mesmo se divertir, a pé. Não é a toa que na Europa temos uma população reduzida de obesos. Lá todos caminham muito. Porém, nos desculpando, suas vias são em sua maioria arborizadas.

Sim, aqui em nossa querida Aracaju, nossos problemas de locomoção se agravam muito por falta de árvores; aquelas que ignorantemente suprimem os que acreditam que suas folhas sujam as ruas e que não podem conviver com suas raízes. Bem, já falamos aqui sobre isso. Por ora vamos apenas pensar um pouco sobre mais esses motivos para a preservação e estímulo à arborização.

Quem sabe quando o caminhar venha a ser prazeroso, possamos abrir mão da escravidão de um carro. Melhor para o bolso e a saúde, e logicamente para as tão congestionadas cidades.

Quem circulou aqui esses dias, pelo Centro e adjacências, não pôde deixar de notar quão agradável ele se tornou com a frota de carros particulares confinados em suas garagens.

 Que fossem assim todos os dias.

 

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Clarisse de Almeida

Arquiteta e Urbanista pela FAUSS/RJ, especialista em Tecnologia Educacional pela UERJ e em Paisagismo pela UFLA/MG. Atua com ênfase em Desenho Urbano e Projetos de Edificação e Paisagismo. Leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIT. Possui trabalhos reconhecidos nacionalmente e tem sido palestrante em variados eventos. É membro da equipe da Ágora Arquitetos.

E-mail: arqclarissedealmeida@gmail.com

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