‘Chacrinha’ e ‘Elvis’: duas deliciosas aulas de história em aspectos diferentes | Levando a Série | F5 News - Sergipe Atualizado

‘Chacrinha’ e ‘Elvis’: duas deliciosas aulas de história em aspectos diferentes
Obras biográficas trazem ótimas reflexões sobre o campo do entretenimento e muito mais além
Blogs e Colunas | Levando a Série 09/07/2021 17h40 - Atualizado em 09/07/2021 17h55

Começo a escrever essa coluna ainda tomada por uma forte emoção, movida à nostalgia. Voltei a meados de 1985, quando eu terminara um namoro de quase cinco anos e me sentia um tanto solitária – em parte por opção. Nesse período, adotei uma espécie de ritual: todos os sábados, descia a um boteco que havia perto de onde morava, no Rio de Janeiro, e comprava dois bombons. Os doces eram apreciados enquanto eu me divertia horrores assistindo ao “Cassino do Chacrinha” na TV Globo, emissora para a qual o hilariante apresentador voltara em março de 1982 e onde ficou até 1988, quando o “Velho Guerreiro” deixou de “balançar a pança”, ambos termos cunhados por Gilberto Gil na canção “Aquele abraço”.  

Revivi essa lembrança ao assistir à minissérie disponível na Globoplay que conta aspectos da vida e da carreira desse inesquecível comunicador. Trata-se, na verdade, de uma divisão em quatro episódios da cinebiografia lançada em 2018, com grande sucesso: “Chacrinha – o Velho Guerreiro”.  O pernambucano de Surubim nascido José Abelardo Barbosa de Medeiros em 1917, ao criar o personagem que se tornaria um ídolo pop nacional, inventou uma nova forma de fazer TV, apostando na alegria e em um jeito incontrolável que soou muito bem às massas – eu incluída.

A minissérie mostra a trajetória de Abelardo Barbosa, desde que larga a Faculdade de Medicina para se aventurar no rádio – nessa fase interpretado por Eduardo Sterblitch – até e depois de se tornar o Chacrinha, agora na pele de Stepan Nercessian, que já tinha feito o papel do Velho Guerreiro em um espetáculo musical poucos anos antes do filme, em 2015. Nada mais justo, o ator se sai muitíssimo bem, encarna o personagem quase que literalmente. 

A direção de Andrucha Waddington confere meritória fluidez à narrativa, que aborda as relações conturbadas do apresentador com singular clareza, algo talvez incômodo para quem não distingue devidamente personagens das pessoas reais a lhes darem vida. Na minissérie essa diferença é exposta sem meios-termos. O Chacrinha que o público associou à irreverência, à esculhambação e à alegria é mostrado na obra como um homem ríspido, não raro descambando para a grosseria, características suportadas por sua esposa e seus filhos, aos quais dedicou menos de si do que à própria carreira.  

Disse Andrucha num comunicado à imprensa: “optamos por retratá-lo como um ser humano, de uma forma não romantizada, uma pessoa que, como qualquer outra, tem um lado solar e um lado menos solar”. E assim foi muito feito. Em Chacrinha – A Minissérie, título adotado pela Globoplay, a gente confere um homem obstinado em busca do próprio caminho, lidando com seus dramas, erros, agonias e sofrimentos, e não o personagem mitificado, ilusório.  

O mais valioso, porém, é a aula sobre um significativo recorte temporal da cultura brasileira, que vai se desnudando em paralelo à vida de Chacrinha. Imagens de arquivo constituem minidocumentários, pelos quais o público absorve informações sobre os cassinos, a era do rádio, o início da televisão, os concursos de calouros e de maluquices já da alçada do comunicador, a exemplo da escolha do “homem mais feio do Brasil”.

“O material documental colabora com a parte ficcional de uma maneira muito interessante, porque contextualiza a figura do Chacrinha e sua personalidade com a época em que ele vivia”, disse o roteirista Cláudio Paiva na divulgação da obra à imprensa. Nesse aspecto, eu mesma desconhecia a opressão enfrentada pelo Velho Guerreiro na ditadura militar, já que classificado como “figura anárquica”. “Ele foi o comunicador mais perseguido pela censura”, diz seu filho Leleco. Em um dos trechos, Chacrinha derrama impropérios sobre uma censora que aparece na gravação de seu programa. Não vou reproduzir o que ele supostamente disse a ela, que eu sou da turma “gentileza gera gentileza”, mas achei merecido.

Foi muito bom me lembrar das chacretes, embora, ao mesmo tempo, lamente a constatação de que o Brasil só faz soterrar o espírito libertário que o caracterizou por muitas décadas, encantando grande parte do mundo. É exposto na minissérie – e disso eu já tinha conhecimento – o propósito de Chacrinha em manter suas dançarinas como respeitáveis “moças de família”, razão pela qual ele as vigiava de perto nas muitas turnês que fizeram juntos, exercendo um controle assumido sobre a diferença entre rebolar diante das câmeras e o embarcar nas seduções de homens cuja soma de dinheiro e tara poderia desviá-las do que o chefe encarava tão somente como trabalho. Zero dúvida de que Chacrinha e as chacretes seriam hoje alvos de operações destilando ódio, travestidas de “luta moral” pela “família brasileira”, seja lá como chamam esses movimentos aos quais não me alinho. 

Outra coisa que chamou minha atenção em Chacrinha – a Minissérie foi confirmar a beleza da relação dele com Elke Maravilha, jurada da qual me lembrava rotineiramente o chamando de “painho”. Essa biografia mostra que Elke, interpretada por Gianne Albertoni, teve consideração de filha, da mais gloriosa estirpe, leal a esse sentimento mesmo nas “vacas magras” da carreira do pai de coração, o que, convenhamos, nem sempre ocorre no âmbito familiar consanguíneo.

A minissérie lembra também o relacionamento da cantora Wanderléa com José Renato Barbosa de Medeiros, o Nanato, filho de Chacrinha. Ela o namorava há dois anos, estavam para ficar noivos, quando Nanato, aos 21 anos, sofre um acidente numa piscina e passa a viver em uma cadeira de rodas, paraplégico. A "Ternurinha" se casa com Nanato mesmo assim. 

Mas bom mesmo para mim foi o jorro de lembranças suscitadas por esse trabalho biográfico, entre as quais a primeira vez que eu vi os Titãs, exatamente no Cassino do Chacrinha. Um monte de homens agitados cantou “Sonífera Ilha”, uma letra que, assumo, não me fez sentido. Depois, virei fã do grupo. O rock nacional, cujos nascedouro e efervescência sou grata por acompanhar nesses sábados solitários, me levou também a conhecer o axé, inicialmente com Luiz Caldas e Sara Jane, e ao longo do tempo, conferindo o Chiclete com Banana, entre outras bandas que tinham espaço cativo no programa.  

Ao final de Chacrinha - A Minissérie, a impressão que me ficou foi a de que o Velho Guerreiro lutou muito pelo reconhecimento e o fez por merecer, mas sequer chegou a usufruir de fato dos confortos proporcionados por seu tamanho sucesso. Não sou juíza de ninguém, prefiro cuidar da minha vida do que da alheia, mas me veio à mente que, se Chacrinha tivesse despendido iguais tempo e esforços em ser um bom Abelardo Barbosa na vida em família, provavelmente teria sido mais feliz.

Outro trabalho biográfico de excelente condução é Elvis – The Searcher (nesse contexto, “O Buscador”), disponível na Netflix. O documentário em dois episódios, ao enfocar a vida e a obra do cantor Elvis Presley, nos leva a uma verdadeira viagem por parte da história da música norte-americana e de suas influências sobre o mundo. E, como na obra a respeito de Chacrinha, a gente se lembra que o sucesso é construído paulatinamente, com muito trabalho duro, e nem sempre garante um encontro com a plenitude existencial.

O Elvis mostrado nos episódios, com uma hora e meia de duração cada, é um homem que amava estar nos palcos e nos estúdios gravando, isso enquanto conseguiu executar aquilo que lhe corria no coração. A biografia mostra um artista e músico de talento espetacular – na perfeita acepção dessa palavra -, cuja carreira teve ascensão meteórica a partir do início da década de 1950. Nesse período, o cantor, ainda movido pelas próprias ideias e seguindo seus instintos, começava a transformar para sempre o panorama cultural do Século XX.

O documentário revela ainda as formas pelas quais Elvis se deixou levar por seu agente, Tom Parker, a quem todos chamavam de “Coronel”, título honorário que lhe fora concedido pelo então governador da Louisiana no ano de 1948. A relação com Tom Parker começou em 1955 e se estendeu por toda a carreira do cantor, com grande prejuízo a sua caminhada, pelo que se depreende da biografia. Entre os exemplos disso estão a recusa do Coronel em promover turnês de Elvis fora dos Estados Unidos, um sonho do astro, pela única razão de que o agente, nascido na Holanda, poderia ter problemas no retorno ao país, já que imigrante ilegal.

Além disso, Tom Parker enveredou Elvis por sucessivos contratos com a indústria cinematográfica, no início cumprindo o desejo do agenciado, cuja pretensão era de atuar em filmes sérios. O que ocorreu em seguida, porém, foi o embarque na trivialidade desejada comercialmente pelo Coronel, de modo a encher de dinheiro seus bolsos e de tristeza a carreira de Elvis. Quando criança, assisti a muitos desses filmes, com grande alegria, destaque-se. Meu preferido era “Feitiço Havaiano”, lançado em 1961, eu nem tinha nascido, mas a TV brasileira exibiu este e os outros dessa fase rotineiramente durante grande parte da década de 70.

Você deve estar pensando: “por que um astro de tamanha grandeza ficou à mercê de um agente que o via apenas como um burro de carga?”. Bem, essa questão aparece muito em Elvis – The Searcher, nas bocas de vários amigos e instrumentistas que dividiram o cenário musical com ele. Essa dificuldade de compreender o que se passava ecoa também nos depoimentos da ex-esposa de Elvis, Priscilla Presley, produtora executiva do documentário, dirigido por Thom Zimny, que já fez trabalho semelhante sobre Bruce Springsteen. Bruce, a propósito, é uma das muitas vozes pelas quais vai se desnudando a trajetória de Elvis. Digo vozes porque nenhuma das pessoas que narra as próprias vivências com o astro aparece falando, nem mesmo Priscilla Presley.

Os depoimentos acontecem todos em off, o que a gente vê desfilando pela tela são imagens de fotos e filmes antigos, alguns dos quais evidentemente caseiros; trechos de entrevistas, de gravações em estúdio e de shows do posteriormente classificado como “rei do rock”. Quem assiste ao documentário descobre, porém, que esse título, embora pareça enaltecer Elvis, o apequena. Desde garoto, ele se lançou a estudar uma variada gama de estilos, a começar do gospel, com ênfase também em country e blues.

Apostando numa desenvoltura cênica singular e soltando aquele vozeirão, ele ganhou o país. Seu balanço de pernas, quadris e ombros levava os jovens ao delírio, em especial a mulherada, o que rendeu a Elvis reprovação moral de parte da geração mais velha, com acolhida do segmento midiático conservador. Quanto mais sucesso, pior a reação, sorte dos fãs que não funcionou. Ao contrário, o cantor foi se soltando, adotou aquelas vestimentas repletas de franjas e pedrarias e caprichou no requebrado. 

Pelas mãos do agente Coronel, assumia agendas de shows exaustivas e Elvis dava muito valor a cumprir seus compromissos. Nessa missão hercúlea, abusava cada vez mais de drogas lícitas, prescritas por médicos, que tanto o faziam dormir, quanto o ajudavam a ter forças para levantar da cama ou para subir ao palco. Ao mesmo tempo, o ídolo enfrentava o sobrepeso crescente, um pecado no mundo do entretenimento.

Em 16 de agosto de 1977, aos 42 anos, ele teve uma parada cardíaca. Foi encontrado morto no banheiro da mansão em Graceland, propriedade comprada por Elvis principalmente pensando em dar à mãe, Gladys, o máximo conforto, em retribuição ao amor e ao apoio que sempre recebeu dela. Em resumo, por Elvis – The Searcher se depreende que o ídolo foi um homem essencialmente bom e seu legado continua bem vivo. Minha gratidão.

Por fim, deixo à reflexão frase do genial Fernando Pessoa, meu poeta preferido, que muito se adequa às trajetórias de Chacrinha e de Elvis Presley: "A arte é a autoexpressão lutando para ser absoluta".

Para maratonar:

Chacrinha – A Minissérie: uma temporada, quatro episódios, disponível na Globoplay; 

Elvis – The Searcher: uma temporada, dois episódios, disponível na Netflix.  

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