Experiências pessoais que renderam dois clássicos muito divertidos
“Seinfeld” e “Todo mundo odeia o Chris” se inspiram em seus criadores, ambos comediantes
Blogs e Colunas | Levando a Série 15/01/2021 15h50 - Atualizado em 15/01/2021 16h33

Se você é interessado em séries provavelmente já ouviu falar de Seinfeld, um sucesso do gênero comédia exibido originalmente entre 1989 e 1998 nos Estados Unidos, ganhador de vários prêmios. Porém, mais significativa do que a audiência a bater recordes em algumas de suas nove temporadas, a série cravou-se na cultura pop ao desdenhar qualquer encadeamento narrativo. Em síntese, fala “sobre nada” assumidamente, se limitando a lançar os olhos sobre o cotidiano dos quatro personagens principais, suas relações entre si e as deles com os eventuais coadjuvantes. O protagonista top é o comediante Jerry Seinfeld, que interpreta a si mesmo e criou o programa em parceria com Larry David, colega de profissão igualmente famoso que viria depois a emplacar outra série, desta vez sendo ele o personagem principal interpretando a si próprio: Curb Your Enthusiasm (no Brasil, Segura a Onda), exibida pela HBO. 

A proposta de Seinfeld se resume a apresentar uma versão cômica de ocorrências rotineiras na vida da maioria das pessoas – mas dificilmente engraçadas -, como um carro que enguiça ou um almoço de família do qual participa um tio especialmente chato. Além de Jerry Seinfeld, o quarteto de protagonistas inclui seu amigão George, papel de Jason Alexander – de quem talvez você se lembre como o advogado mau caráter em "Uma Linda Mulher" (Pretty Woman) -; a ex-namorada/atual amiga Elaine (Julia Louis-Dreyfus) e o vizinho de porta no prédio onde mora, em Manhattan (NYC), o totalmente amalucado Kramer (Michael Richards), meu preferido. Jerry Seinfeld é o mais sensato do grupo, o que não chega a ser grande coisa, já que George agrega tanta baixa autoestima quanto avareza; Elaine mente sem pruridos desde que movida a fazê-lo para evitar algum problema, em geral o piorando; e Kramer, como já dito, é totalmente fora da casinha.  

Nas temporadas iniciais, a cada episódio Jerry Seinfeld aparece no palco de uma casa noturna em breves trechos de seus shows stand-up, relacionados ao tema do enredo em questão – leia-se: qualquer circunstância. Apostando no zero compromisso com profundidade, reflexões, tampouco com alguma “moral da história”, esse caráter singular deu certo ao ponto da série prosseguir até hoje reverenciada por legiões de fãs. Inclusive há pouco tempo entrou para a grade do canal por assinatura Warner e chegou ao streaming, via Amazon Prime Video. Nada mal para um programa que, lembremos, teve sua exibição original encerrada em 1998.

Estabelecida como fenômeno cultural, a série foi dissecada no livro Seinfeldia: How a show about nothing changed everything (Seinfeldia: Como um show sobre nada mudou tudo), de autoria da jornalista e crítica Jennifer Keishin Armstrong, lançado em 2017.  “A genialidade do show em muitas maneiras é como eles despojam completamente o seriado de tudo, exceto piadas; de tudo, exceto o que é engraçado.(...) Os personagens realmente não mudam ou amadurecem”, disse a autora em entrevista. De fato, o quarteto é um recorte da espécie humana para quem uma postura ética diante da vida não é prioritária. Na TV, fica muito engraçado, ao contrário de no mundo real. 

Um ponto que o livro trouxe à baila também, segundo a autora exposto por muitos roteiristas a quem entrevistou, foi o sistema de trabalho estressante a que eram submetidos, em especial por conta do “punho de ferro” de Larry David. A jornalista relata que muitos não passavam de uma temporada e um deles ficou tão traumatizado com sua experiência em Seinfeld que simplesmente deixou o show business, foi para a faculdade de Medicina e hoje trabalha como médico. 

À parte dessas informações desabonadoras – a bem da verdade, não surpreendentes no metiê da indústria do entretenimento -, Seinfeld funciona muito como diversão. E, a quem se enquadra na área de Ciências Humanas, meu caso, fornece material rico e útil para investigar estratégias, e as razões pelas quais foram adotadas, em determinado período. Dito de outra forma, pode-se saber muito sobre a sociedade contemporânea a partir do que ela escolhe consumir, num arco de amplitude infindável, a abarcar de tipos de séries a chapéus com chifres. 

A segunda sugestão é Everybody hates Chris (Todo mundo odeia o Chris), série que fez e ainda faz sucesso no Brasil, prestigiada na TV aberta pela Record, e até hoje no canal por assinatura Comedy Central. Em streaming, já estava disponível na Globoplay e há pouco entrou também para o catálogo da Amazon Prime Video. Como em Seinfeld, o personagem principal é um comediante de sucesso, Chris Rock, mas neste caso em uma adaptação livre de sua adolescência nos anos 1980, portanto anterior a qualquer perspectiva factível dele atingir esse patamar profissional. 

Criador e narrador da série, Chris Rock começa a história com a mudança da família para Bedford-Stuyvesant (apelidado de Bed-Stuy), no Brooklyn, New York City, em 1981. Filho de Julius e Rochelle, ele então com 13 anos tem dois irmãos mais novos – Drew e Tonya. O enredo com nuances autobiográficas jorra humor, inteligência e convívio com o racismo, tratado de forma leve, até divertida, o que talvez explique a aceitação longeva da série, num tempo em que remar contra tal barbaridade passou a ser chamado de “vitimismo” ou “mi-mi-mi”. Exibida nos Estados Unidos entre 2005 e 2009, foi selecionada pelo "American Film Institute" como uma das dez melhores séries de televisão de 2007, por oferecer “uma visão muito real do crescimento na América - um desafio que exige uma discussão sobre raça e classe frequentemente ausente da televisão hoje”.

O jovem Chris é muito bem interpretado por Tyler James Williams, que foi crescendo e portanto mudando fisicamente ao longo da história, assim como seu irmão Drew (Tequan Richmond), a caçula Tonya (Imani Hakim) e o melhor amigo dele, Greg (Vincent Martella). O patriarca Julius, caminhoneiro e entregador de jornais, corresponde ao pai da vida real nesse aspecto - tinha iguais profissões – e em parte do nome: Christopher Julius Rock II. Ele morreu em 1988, sendo o filho comediante Christopher Julius Rock III. O ator a interpretar Julius na série é o queridíssimo Terry Crews, cujo engajamento na luta contra a violência sexual/doméstica adveio assumidamente de uma infância traumática, ao longo da qual testemunhou o pai alcoólatra abusando de sua mãe. Ao ser homenageado em 2018 no evento Safe Horizon’s Annual Champion Awards Gala, em Nova York, ele fez um discurso emocionado: “literalmente fiz xixi na cama até os 14 anos porque não sabia o que iria acontecer(...) Vivemos um pesadelo durante anos ... não tínhamos esperança”. Pessoalmente, tiro o chapéu para quem usa seu poder, suas influência e visibilidade no propósito de não permitir que o inaceitável se torne “normal”.  

A matriarca na adaptação televisiva, Rochelle (Tichina Arnold), cospe fogo em cima da prole, na luta para que não se desvie dos estudos e da honestidade. Várias vezes fui associada a ela por minhas filhas e sempre ri muito, eu mesma já constatara identificação com a personagem num território simbólico. Na vida real, a mãe do Chris, Rosalie Tingman Rock, era professora, profissão nunca exercida pela ficcional Rochelle. O número de integrantes da família – seis filhos – também foi reduzido na versão romanceada. E não havia nenhuma mulher, razão pela qual o irmão Tony Rock acabou inspirando a Tonya da série.

Sou fã de “Todo mundo odeia o Chris”, que me rendeu alguns ataques de riso. Um deles, inesquecível, nasceu da cena em que o pai, Julius, notoriamente “controlado” com dinheiro, vê a esposa jogar um punhado de sal, que derramara sobre a mesa, por cima do ombro – como prega a crendice popular. Aparece ele correndo com um pote de pipocas e o orienta em direção ao movimento dela, de modo a que o sal seja salvo do desperdício. 

A série é recheada de cenas assim, nonsense – algumas menos que outras. A professora de Chris, Senhorita Morello, protagoniza algumas delas, exercendo seu “racismo bondoso” – se é que existe algo assim. Em um episódio, os alunos estão levando à escola alguns alimentos não perecíveis, tirados das despensas das respectivas casas, para fazer uma doação. A Senhorita Morello diz ao Chris que ele não precisa participar do movimento beneficente, com base no pressuposto de que sua família, por ser negra, passaria privação ao aderir. Em outra cena, sala de aula cheia, ela pergunta ao aluno cujo estereótipo o estabelece como membro de um lar problemático: “Você não tem pai, né?”. Responde o Chris: “tenho, sim”, com ar de surpresa. Emenda a professora: “sua mãe é drogada, né?”. Chris nega de novo, cada vez mais chocado. E ela determina: “Você é um filho do crack”. Bem se vê que não conhece a Rochelle...

Ainda que a decisão do comediante adulto tenha sido pela leveza, no lançamento de Everybody hates Chris, ao ser entrevistado no programa "The Early Show", Chris Rock afirmou: “é muito mais fácil rir agora do que naquela época”. O melhor achado da minha pesquisa para esta coluna, porém, foi um fato ocorrido em 2013, que conecta diretamente Jerry Seinfeld a este colega de profissão. Ele entrevistava Chris Rock no último episódio de sua webserie “Comedians in cars getting coffee” (Comediantes em carros tomando café), quando foram parados por um policial por excesso de velocidade, em Nova Jersey, trafegando num Lamborghini Miura. O convidado negro brincou com o anfitrião: “Seria um episódio tão melhor se ele me puxasse para o lado e me espancasse”. E completou: "Se você não estivesse aqui, eu ficaria com medo. Sim, sou famoso – e ainda negro”.

Por fim, deixo à reflexão um pensamento atribuído ao genial Charles Chaplin: “A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”.

Para maratonar:

Seinfeld – noves temporadas, total de 171 episódios, disponível na Amazon Prime Video;

Todo mundo odeia o Chris – quatro temporadas, total de 88 episódios, disponível na Globoplay e na Amazon Prime Video.

Mais Notícias de Levando a Série
Arte: Sidney Xambu
19/02/2021  17h00 Quando o sobrenatural atesta a qualidade de produções brasileiras
Arte: Sidney Xambu
12/02/2021  17h25 Expansão da consciência e como ela pode ajudar cada pessoa e a sociedade
Arte: Sidney Xambu
05/02/2021  15h55 As origens de uma lenda e de um herói em releituras que valem muito a pena
Arte: Sidney Xambu
29/01/2021  16h30 A vida após a morte em duas abordagens intrigantes e bem humoradas
Arte: Sidney Xambu
22/01/2021  16h00 Quando crimes compensam e o público tende a torcer pelos “bandidos”

Blogs e Colunas
Levando a Série
Levando a Série

Monica Pinto é Jornalista, editora do portal F5News, mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná e viciada em séries

E-mail: monica.pinto@f5news.com.br

O conteúdo e opiniões expressas neste espaço são de responsabilidade exclusiva do seu autor e não representam a opinião deste site.