De ‘Doce de Mãe’ a ‘Onisciente’, produção ficcional brasileira mostra seu valor
As duas séries nacionais abordam desafios cotidianos com muita inteligência e talento singular
Blogs e Colunas | Levando a Série 02/04/2021 17h00 - Atualizado em 02/04/2021 21h25

O Brasil tem mais de 28 milhões de pessoas na faixa etária de 60 anos ou mais, o equivalente a 13% da população do país, segundo o IBGE, percentual que o instituto prevê dobrar nas próximas décadas. O aumento da expectativa de vida – desde 1940, acrescida em 30,5 anos – atesta avanço em várias áreas, sobretudo no acesso a serviços médicos, à água potável e ao saneamento básico. Mas como lidar com seus idosos é uma questão a preocupar muitas famílias, em especial aquelas cuja sobrevivência de seus membros, em qualquer idade, se tornou uma luta cotidiana. 

Essa é uma das ênfases do telefilme "Doce de Mãe", protagonizado pela fenomenal Fernanda Montenegro, que ganhou em 2013, por essa atuação, o Emmy Internacional de Melhor Atriz. O especial de fim de ano exibido pela TV Globo em dezembro de 2012 foi escrito por Jorge Furtado, Ana Luiza Azevedo e Miguel da Costa Franco, já tendo em mente que a protagonista, Dona Picucha, fosse interpretada pela gloriosa atriz. De fato, o telefilme, com produção assinada pela Casa de Cinema de Porto Alegre, abordou os desafios inerentes ao envelhecimento, mas de forma bem humorada e leve. O enredo agradou ao ponto da história ter continuidade, desta vez na série homônima, com 14 episódios, o primeiro deles exibido em janeiro de 2014. No ano seguinte, nova façanha: ganhou o Emmy Internacional, na categoria Melhor Comédia. 

Doce de Mãe traz exatamente os mesmos personagens do telefilme, mantidos também os atores e atrizes que lhes dão vida, um time de primeira linha. Dona Picucha tem quatro filhos já adultos: o primogênito Sílvio (Marco Ricca); Elaine (Louise Cardoso), mãe de Carolina (Elisa Volpatto); Fernando (em ótimo papel de Matheus Nachtergaele), namorado de Roberto (Evandro Soldatelli) e rotulado de irresponsável pelos irmãos – mas não pela mãe – e, por fim, a caçula Susana (Mariana Lima).

Outros personagens de destaque são Jesus (Daniel de Oliveira), ex-aluno notável do falecido marido de dona Picucha, o professor Fortunato (Francisco Cuoco), mas cujos infortúnios o levaram a ser morador de rua; e Rosa (Drica Moraes), que aluga o apartamento da octogenária. Constam ainda no elenco estelar Emiliano Queiroz – o inesquecível Dirceu Borboleta da novela O Bem-Amado – no papel de Alfredinho, amigo de Picucha, e Otávio Augusto, a interpretar o irmão dela, Júlio. 

Some-se essa gente toda, entre outros personagens, e o resultado é uma salada deliciosa, a unir entretenimento e reflexões sobre o futuro que espera a todos nós, salvo se a morte vier antes. Envelhecer me soa muito mais agradável e, ao modo de Dona Picucha, um ótimo projeto - embora concretizá-lo não dependa exclusivamente da escolha de cada um.

Aos 85 anos, a matriarca da família é animada, alegre e, na prática, incontrolável, o que perturba a rotina de sua cuidadosa prole. Cheia de vida, aproveita cada minuto, sabedora de que não há pela frente tanto tempo quanto gostaria. Doce de Mãe transita pelos desafios da velhice, sem adentrar no drama. Ao contrário, a série expõe a sabedoria de Dona Picucha e a perspicácia que capacita a adorável senhora a manipular os filhos facilmente e, com isso, ver atendidos seus desejos. 

Classificada como “comédia humanista” por seus autores, a série faz jus à definição. É realmente divertida e apresenta uma família da melhor estirpe, sem idealizações. Os filhos têm personalidades muito diferentes, há desentendimentos, mágoas, dilemas, mas Dona Picucha a tudo harmoniza como uma maestrina dos relacionamentos. Pessoalmente, achei admirável a mensagem de tolerância da octogenária, expressa em várias ocasiões, inclusive no apreço pelo filho gay, numa conexão repleta de ternura que até desperta ciúme nos irmãos. Na verdade, a idosa de cabeça aberta não liga a mínima para a sexualidade dele, é irrelevante – como deveria ser para todo mundo, penso eu. 

A matriarca, de bem com a vida e com as idiossincrasias da espécie humana, personifica a evolução existencial cujo caminho se alicerça no amor e na aceitação das diferenças. Um espírito livre e belo. Quero ser uma Dona Picucha, se chegar até lá. Doce de Mãe dá um show em termos de enredo e atuações, um exemplo ficcional de como a vida pode ser melhor e mais leve, quando as pessoas se livram do que as apequena e, por extensão, ao processo civilizatório. Felizmente o talento brasileiro nos concede criações desse nível, no qual se insere a segunda recomendação de hoje: Onisciente.

Imagine que você pudesse ter absoluta segurança contra a violência urbana, mas o preço a pagar por ela fosse a vigilância contínua, até dentro da sua casa – incluído o  banheiro. Essa é a questão central de Onisciente, série original Netflix assinada por Pedro Aguilera, o criador de "3%", um sucesso brasileiro no streaming, já em sua quarta temporada. Destaque-se que, em março de 2017, a Netflix informou que  "3%" era a série de língua não-inglesa mais assistida nos Estados Unidos desde o seu lançamento, em novembro do ano anterior. 

Diante disso, provavelmente Aguilera não encontrou grandes obstáculos para emplacar Onisciente como original Netflix. A história também se passa no futuro, mas este é bem melhor do que o exposto em "3%", no qual 97% da população brasileira sobrevive imersa na miséria, em condições degradantes. Agora, a tecnologia que dá nome à série é contratada por prefeituras. A partir disso, cada cidadão na cidade a fechar negócio é seguido de perto por um drone minúsculo, que lembra um pernilongo e me pareceu tão irritante quanto o inseto, com a diferença de que o enjoo ficcional ao menos é silencioso. Esses drones enviam seus dados para um megacomputador e a empresa Onisciente garante que ninguém consegue ter acesso a eles. “Não é segurança versus privacidade; é segurança e privacidade”, prega o marketing do sistema.  

Toda uma geração já cresceu sob essa vigilância ininterrupta, fora quando o morador da cidade sai dela, porque nesse caso o inseto robô fica, deixa de segui-lo.  Dentro dos muros que delimitam a urbe, a criminalidade praticamente inexiste, pois os mosquitos high tech são capazes de avaliar variações de batimentos cardíacos, tom de voz agressivo e outros indicativos de que há violência a caminho.  Não fica muito claro como a tecnologia distingue um crime de atividades como sexo selvagem ou uma luta de boxe, por exemplo, mas a pista é que o drone consegue identificar o que faz parte – ou não - da rotina de cada pessoa vigiada.

Parece um sonho viver sem medo, no entanto, por várias vezes me flagrei pensando como seria adorável dar uma raquetada no meu hipotético inseto vigilante. Na série, a segurança falou mais alto e aparentemente a aprovação ao sistema Onisciente, vendido como infalível, é majoritária. A protagonista Nina Peixoto (Carla Salle) participa de um programa de treinamento na empresa criadora e provedora da tecnologia e disputa com outros trainees a chance de ser efetivada no emprego. É a realização de um desejo antigo, pois seu pai, Inácio (Marco Antônio Pâmio), lá trabalhou até se aposentar, foi um dos que atuou na implantação do sistema naquela cidade.  

Tudo parecia correr bem, até que o infalível falhou. Justamente o pai de Nina é morto na cozinha da própria casa, baleado, e a moça o encontra numa poça de sangue. Não é spoiler, isso está no trailer de Onisciente. A partir dessa perda, o que era encanto vira decepção e a trama adentra o território do suspense com bastante eficiência. Nina tenta obter formalmente as imagens do drone de Inácio, mas a empresa continua entoando que “o sistema não falha”; finca o pé quanto à impossibilidade do crime e de tal liberação, essência do compromisso com a privacidade dos cidadãos. Para piorar, a moça descobre que, no atestado de óbito do pai, a morte dele consta atribuída a “causas naturais”. 

Com o irmão, Daniel (Guilherme Prates), Nina dá início a uma investigação que rende cenas cheias de adrenalina e recebe o surpreendente auxílio de uma servidora da Prefeitura, Judite Almeida (Sandra Corveloni), cujas reais intenções são nebulosas. O enredo se desenrola bem amarrado, numa escalada de suspense que alimenta a curiosidade e mantém vivo o interesse do público. Gostei bastante, principalmente por verificar que os agentes do entretenimento nacional enfim olharam para a ficção científica, gênero de escasso investimento aqui, muito bem representado por Onisciente

Vale citar que a série chegou a ser classificada como a “Black Mirror brasileira”, uma associação agora usual sobre qualquer produção cujo enredo questione uma tecnologia, abordando seus potenciais efeitos danosos. O cinema já fez isso em incontáveis ocasiões e, para ficar no campo dos seriados, igualmente vários episódios de Além da Imaginação (The Twilight Zone), também já comentada aqui. Discordo ainda de críticas à atuação da atriz Carla Salle, na pele da personagem principal Nina. Tudo bem, a protagonista é um tanto estranha, mas acho plausível que uma moça cujo pai foi morto, levada a enfrentar um esquema poderoso, não se apresente em seu momento mais equilibrado.

Se virá uma segunda temporada de Onisciente é uma incógnita, diante da aparente falta de interesse da própria Netflix. “A plataforma não divulgou trailer em suas redes sociais, incluindo o YouTube, não acionou o mailing de imprensa para lembrar da estreia, nem destacou o lançamento desta quinta (29/1) no evento grandioso que realizou em São Paulo até quarta (28/1) para promover, vejam só, sua programação nacional. O que se pode deduzir disso?”, questiona o jornalista Marcel Plasse, editor do portal Pipoca Moderna.

Por fim, despeço-me com uma frase do grande Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes, modernizado pela BBC em uma série incrível já recomendada aqui: “A mediocridade não reconhece nada que lhe seja superior, mas o talento reconhece a genialidade instantaneamente”.

Para maratonar: 

Doce de Mãe – Telefilme e série com 14 episódios disponíveis na Globoplay; 

Onisciente – Uma temporada com seis episódios, disponível na Netflix.

 

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