Bolsonaro não tem preparo, avalia cientista político | Joedson Telles | F5 News - Sergipe Atualizado

Bolsonaro não tem preparo, avalia cientista político
Blogs e Colunas | Joedson Telles 11/10/2021 09h08

Nesta segunda-feira, dia 11, ao comentar os mil dias do governo Jair Bolsonaro, o cientista político Gentil Melo afirma, nesta entrevista, que o presidente demonstra falta de preparo político, no que concerne à capacidade de articulação e de diálogo com os partidos políticos e com as Instituições Democráticas constituídas e falta de conhecimento dos problemas sociais e econômicos do país. "Os exemplos estão nas diversas áreas sociais, econômicas, diplomáticas e estratégicas para o desenvolvimento do Brasil", afirma, assegurando que Bolsonaro nunca teve um projeto político. O cientista critica ainda a postura do presidente da República, ao lidar com a imprensa, e avalia o peso de Bolsonaro e Lula nas eleições para o Governo do Estado de Sergipe.

Os mil dias de Jair Bolsonaro à frente do Governo Federal estão dentro das suas expectativas?

Não. O governo Bolsonaro tem demonstrado falta de preparo político no que concerne à capacidade de articulação e de diálogo com os partidos políticos e com as Instituições Democráticas constituídas e falta de conhecimento dos problemas sociais e econômicos do país. Os exemplos estão nas diversas áreas sociais, econômicas, diplomáticas e estratégicas para o desenvolvimento do Brasil. O governo não conseguiu aprovar uma agenda positiva para o país e os problemas sociais e econômicos estão se agravando. No campo político também não é diferente, o que ele tem adotado é a prática política do clientelismo e personalista sendo generoso com o bloco do Centrão para garantir a continuidade do seu governo o que até então ele criticava.

Como avalia a situação do servidor público no governo Bolsonaro?

Uma conjuntura muito difícil e adversa para o conjunto dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. Adotando como marco temporal a redemocratização, nunca tivemos um presidente que desvalorizasse e criminalizasse tanto os servidores e que vem adotando políticas de retirada de direitos e do não investimentos nos serviços públicos, cujos prejudicados em sua maioria são as classes sociais mais vulneráveis economicamente. Vale ressaltar a PEC 32/202 - Reforma Administrativa - Projeto de Emenda Constitucional de autoria do Poder Executivo que traduzindo significa inviabilizar os serviços públicos para posteriormente entregar a iniciativa privada, tônica dos governos do campo conservador.

Os equívocos do presidente estão mais no terreno do projeto político ou no perfil do próprio Bolsonaro?

As duas coisas estão em sintonia, primeiro porque ele nunca teve projeto político, inclusive durante a campanha ele nunca apresentou projeto de desenvolvimento para o país era notório em suas falas a linha do seu discurso. Focou sua campanha no combate a corrupção, na defesa da família e na defesa da pátria é tanto que se apropriou da bandeira nacional um dos símbolos mais importantes e que está interiorizado na consciência do povo brasileiro. No tocante ao seu perfil, basta acompanhar os noticiários e constatar como ele se apresenta e como tem dialogado com a população, estabelece um diálogo muito chulo e desrespeitoso para com todos, principalmente com a imprensa quando o questiona sobre a condução da política no país. Outro registro que tem que ser feito é que o presidente desrespeita e xinga as pessoas e depois publicamente se retrata dos erros e excessos cometidos o que não é compatível com a postura de um chefe de Executivo.

Os eleitores de Bolsonaro se tornaram mais coniventes com erros do que os petistas, tão criticados por eles?

Regra geral, a maioria dos eleitores de Bolsonaro reproduz o que ele pensa e tem concordância de como ele governa o país, portanto, segundo eles, o governo não tem cometido erros ou crimes a ponto de ser criticado ou afastado, uma vez que o parâmetro utilizado são os erros ou equívocos cometidos pelo PT, o que na minha avaliação é uma falta de critério just,o considerando os avanços dos governos do PT. Em relação a autoavaliação dos petistas, certamente, assim o fizeram quando muitos se abstiveram do processo eleitoral de 2018 e que, certamente, estão pagando um preço muito caro por esta decisão.

O senhor diria que a rejeição ao PT, e especialmente ao ex-presidente Lula, dificulta o discernimento de uma fatia do eleitorado diante dos erros do presidente Jair Bolsonaro? Há, como se diz no português popular uma ¨cegueira política¨?

As eleições de 2018 revelaram esse fenômeno quando, aproximadamente, 40 milhões de brasileiros não compareceram às sessões para votar. Grande parte desse segmento não aprovou o PT, mas também não aprovou a candidatura de Bolsonaro. Em certa medida, tenho concordância com o seu questionamento, porém o número de apoiadores ao governo Bolsonaro vem se apresentando em queda quando as pesquisas têm revelado os números de intenções de votos. Em relação à "cegueira política", no Brasil atual foi criado uma figura singular pela falta de senso crítico e inteligência para a participação na política brasileira.

 O senhor acredita numa terceira via nas eleições para presidente do Brasil ou a disputa será Bolsonaro x um candidato que unifique a esquerda?

Não. Primeiro por que diante da polarização da política no Brasil não há espaço para uma terceira via, vejo como uma possibilidade remota e suicida para o grupo que deseja derrotar o governo Bolsonaro. Segundo que a candidatura que venha a se apresentar como uma terceira via não terá como apresentar um projeto político que se identifique com essa alternativa se apartando das diretrizes dos partidos que estariam no campo da esquerda. E por último uma possível unificação da esquerda - se assim pudermos classificar - somente dar-se-á sob a liderança do PT, que hoje se aproxima mais do centro do que da extrema esquerda, embora com posições predominantes da esquerda.

Alguns analistas políticos afirmam que Bolsonaro não termina o governo. O Senhor acredita que haverá impeachment?

Não. Existem mais de 100 pedidos de impeachment contra Bolsonaro, provenientes de diversos segmentos da sociedade brasileira, desde a iniciativa de partidos políticos a outras organizações sociais. Há alguns meses foi enviado ao Congresso Nacional o super pedido de impeachment e tanto este como outros estão aguardando o acolhimento pelo presidente da casa. O presidencialismo de coalizão é um dos entraves políticos para que esse instrumento prospere no jogo político.

Lula será o candidato da esquerda na sua ótica?

Existe um apelo dos movimentos sociais organizados, de parlamentares do campo progressista e de outras instituições em construir uma candidatura que avance, principalmente, nas pautas sociais. Portanto, se o candidato será de esquerda é outro entendimento vai depender de como conceituamos o que é ser de esquerda no espectro político brasileiro, porém Lula tem se apresentado como a maior força política para enfrentar o grupo comandado por Bolsonaro; as pesquisas têm revelado o crescimento do seu nome com aproximadamente o dobro de intenções de votos em relação a Bolsonaro para pleitear a Presidência da República.

Em sendo Lula, como ele chegará ao pleito? Como conquistar a confiança de uma faixa de eleitorado que nutre a imagem de um político corrupto?

As pesquisas têm revelado que ele chegará forte, pelo menos os números confirmam. Acredito que a população não nutre e nem defende um candidato corrupto. O problema da corrupção no Brasil e nos países periféricos ou subdesenvolvidos está associada à falta de educação cívica, do gozo de uma cidadania plena onde assegura os direitos civis, políticos e sociais e de mecanismos efetivos de intervenção nas gestões públicas, desprovidos dessas condições e instrumentos a população será sempre impulsionada a defender políticos que se apresentem como salvadores da pátria tendo como principal bandeira o combate a corrupção.

Qual o peso de Lula e Bolsonaro nas eleições para o Governo do Estado de Sergipe? Em ambos sendo candidatos, há como um candidato a governador de Sergipe obter êxito fora dos dois palanques?

As candidaturas à Presidência da República influenciam consideravelmente as coligações nos demais níveis. Para ilustrar, basta analisar a composição da Câmara dos Deputados, no que diz respeito ao número de candidatos eleitos em 2018 pela sigla do PSL, ex-partido de Bolsonaro, partido criado para concorrer às eleições presidenciais de 2018. Em relação ao segundo questionamento, não percebo êxito fora desses dois palanques, caso venham a se concretizar. Basta ver como as alianças em torno de alguns nomes estão sendo construídas no Estado, inclusive existem nomes bem definidos em torno desses dois palanques.

Como avalia os trabalhos da CPI da Covid 19?

Frustrante do ponto de vista dos resultados positivos para a sociedade no que concerne à efetiva punição dos responsáveis pelos crimes cometidos durante o processo de combate ao novo coronavírus. Mas, ao mesmo tempo, é uma instância que de alguma forma desgasta a imagem política dos envolvidos, pelo menos para isso serve.

Particularmente, os senadores por Sergipe que fazem parte da CPI, Alessandro Vieira e Rogério Carvalho, estão no caminho correto?

São dois parlamentares experientes e que possuem uma certa expertise na condução dos trabalhos da CPI. O senador Alessandro Vieira, embora no primeiro mandato, por ser delegado de carreira estabelece procedimentos e métodos ao inquirir os depoentes o mesmo ocorre com senador Rogério Carvalho também tem uma grande ferramenta que é o conhecimento da medicina - o que, certamente, contribui na forma de elaborar os seus argumentos. Exercem um papel regimental previsto na casa, porém, entendo que estão no caminho certo por eu entender que houve crimes praticados por agentes políticos e pessoas vinculadas a administração pública nas políticas adotadas para o combate ao novo coronavírus, e o Congresso Nacional é uma das Instituições que possuem a prerrogativa de apurar dentro dos seus limites previstos em lei.

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