‘Suits’ e ‘The Good Fight’: inteligência, leveza e sagacidade dominando os tribunais | Levando a Série | F5 News - Sergipe Atualizado

‘Suits’ e ‘The Good Fight’: inteligência, leveza e sagacidade dominando os tribunais
Séries jurídicas levantam questionamentos importantes, porém flertando com a comédia
Blogs e Colunas | Levando a Série 17/09/2021 18h45

As chamadas “séries jurídicas” costumam fazer bastante sucesso, mesmo entre quem mal sabe a diferença entre mandado e mandato. Gosto do gênero e o prestigio com frequência, embora a princípio desconfiada de que tudo já foi feito. Felizmente, a criatividade de roteiristas e o talento dos elencos quase sempre desmontam essa tese. As duas sugestões de hoje vão de um já clássico aclamado por público e crítica – Suits (Ternos), na Netflix – a uma proposta politizada sem disfarce, esta bailando entre o supostamente real e o loucamente surreal: The Good Fight (O Bom Combate), disponível na Amazon Prime Video.

Suits foi exibida de junho de 2011 a setembro de 2019 no canal fechado USA Network, que responde pela produção, a mais duradoura entre as séries com sua assinatura. A história se passa no ambiente do escritório de advocacia “Pearson Hardman”, em Nova York, que vai ganhando outros sobrenomes na porta ao longo das temporadas. Jessica Pearson (Gina Torres) é a sócia-administradora, eficiente e arrojada, assim como o advogado estrela-da-empresa, Harvey Specter (Gabriel Macht). Um poço de autoestima, acumulando vitórias em contendas judiciais, ele está refratário em atender à determinação da firma, pela qual precisa contratar um assistente formado em Direito para chamar de seu. Mas isso acaba ocorrendo em meio a circunstâncias muito insólitas e, assim, entra para o time de feras o jovem Michael “Mike” Ross, interpretado por Patrick J. Adams, que atuou também em Lost e em Orphan Black, ambas já recomendadas aqui. 

Harvey Specter se apresenta como um cara frio, durão, obstinado pela vitória – pelo sabor dela e também para manter seu elevado padrão de vida, via merecidos pagamentos por parte dos clientes corporativos, escopo de atuação da empresa. Mike Ross faz com ele um divertido contraponto, mostrando coração atento à justiça na qual parece acreditar, em termos ideológicos, e cuja performance vai granjeando respeito, com precioso auxílio de sua memória eidética. Porém, nem Harvey pode ser classificado como “mau”; nem Mike um parâmetro de correção, ao menos na letra fria da legalidade, como se verá logo no início da série. O fato é que eles dão liga um com o outro, despertando os ciúmes do advogado Louis Litt, sócio júnior que nutre por Harvey sentimentos contraditórios – ora ele o idolatra como referência de brilhantismo; ora o detesta, por se sentir menosprezado, não apenas pelo colega, mas pela empresa em geral.

A atuação genial do ator Rick Hoffman – um veterano de séries, com presença, por exemplo, em Monk e em The Mentalist, também já recomendadas aqui -, faz de Louis Litt um dos personagens mais complexos dos últimos tempos, em produções da TV ou originais de plataformas de streaming. Intimamente frustrado pela falta de reconhecimento no nível que almeja, Louis sofre também porque, no frigir dos ovos, inexiste verdadeiro amor em sua jornada. À semelhança do mundo real, pessoas mal resolvidas costumam despejar nos outros as próprias questões; no caso do advogado fictício, exercendo tirania sobre seus subalternos e mesquinhez sobre qualquer um. Porém, vez por outra, evidencia-se sua fragilidade, um lado humano autêntico, belo e capaz de gestos de grandeza, daí a complexidade a que me referi.  No decorrer de Suits, Louis Litt suscita emoções fortes no público, não raro opostas, falando por mim.

A maior virtude da série reside justamente nas múltiplas nuances dos personagens principais, afeitos à manipulação e ao blefe, estabelecendo uma espécie de pôquer onde brechas jurídicas são as fichas. "Eu não jogo com as probabilidades, eu interpreto a pessoa", prega o idolatrado e odiado Harvey Specter. 

No que parece uma guerrilha ininterrupta, mais pulsante talvez na equipe entre si do que em prol da defesa dos clientes, se destaca outra presença feminina, além da sócia sênior Jessica Pearson: Donna Paulsen (Sarah Rafferty), assistente pessoal de Harvey. Na Idade Média, uma mulher como ela iria direto arder nas fogueiras da Inquisição, tachada de bruxa. Incrivelmente sagaz, dotada de percepção ímpar, ela fareja tudo – no ambiente e, mais além, o que move ou paralisa cada um no grupo em seu entorno. E usa esse poder com bondade e sapiência, ao ponto de resolver ou minimizar crises, expressando ousadia e argumentos cuja solidez lhe confere crescentes admiração e ganhos profissionais.

Também se destaca à parte dos “homens de terno” a advogada Rachel Zane, personagem que deixou Suits ao fim da sétima temporada, por motivo de força maior, digamos assim. A atriz que a interpretava, Meghan Markle, concretizou a fantasia de muitas meninas e moças no passado, felizmente cada vez mais risível: se casar com um príncipe, a saber, Harry, o caçula do também príncipe Charles e da saudosa Diana, o que ocorreu em maio de 2018, numa cerimônia no Castelo de Windsor. Em 2020, o casal se afastou da realeza, após várias polêmicas, mas não vou me ocupar disso além da informação relevante: a série registrou significativa perda de audiência depois que a atriz saiu do elenco e virou duquesa.  

Outra delícia no gênero é The Good Fight (O Bom Combate), produção da Paramount Plus exibida pela Amazon Prime Video. Derivação de um grande sucesso –  "The Good Wife" (A Boa Esposa) -, o spin-off mantém boa parte dos personagens da série que lhe deu origem, sendo agora catapultada ao protagonismo a advogada Diane Lockhart, um excelente papel da atriz Christine Baranski. Além de muitos filmes no currículo, ela tem um histórico de presença em séries e, para citar apenas uma, interpreta a psiquiatra Beverly Hofstadter, mãe do físico Leonard, no quarteto de nerds da divertidíssima The Big Bang Theory.

Em The Good Fight, embora de novo na pele de uma profissional competente e obstinada, Christine Baranski imprime à personagem Diane Lockhart muito de seu inquestionável talento para a comédia. Aqui é preciso avisar que o leitor a nutrir qualquer simpatia pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump, não vai achar nenhuma graça. A série é clara e assumidamente antagonista ao republicano, defenestrado da presidência pelo instrumento democrático do voto. Como eu não admiro gente que separa crianças dos pais e as prende em jaulas, sejam imigrantes ou não, dei muita risada, sobretudo na terceira temporada – a última disponível no Brasil, por enquanto - na qual o roteiro embarca de vez na surrealidade. Aguardo ansiosa a chegada por aqui da quarta, já exibida na terra do Tio Sam.

O “dramédia” jurídico já começa com a protagonista, a democrata Diane Lockhart, reagindo ao discurso inaugural de Trump. E episódios posteriores incorporaram tweets fictícios e ações do então presidente em seu enredo. A ojeriza de Diane se alinha à da grande maioria dos colegas no escritório onde trabalha em The Good Fight e cuja maioria é afro-americana. No objetivo de promover diversidade e inclusão, muitas coisas acontecem – nem todas positivas, apesar da legitimidade e da relevância do movimento.

Em termos resumidos, a série acompanha o trabalho e as vidas particulares da equipe do escritório, isoladamente e/ou em conjunto. Diane Lockhart divide o protagonismo com o sócio Adrian Boseman (Delroy Lindo), a sócia Liz Reddick (Audra McDonald) , filha do fundador da empresa, e a advogada Lucca Quinn (Cush Jumbo) – todos afro-americanos.

Mas há também uma personagem fundamental:  Maia Rindell (Rose Leslie), filha de um financista muito amigo de Diane, que inclusive é madrinha dela, também advogada.  E mais não posso dizer, do contrário vai ser uma chuva de spoiler.

The Good Fight apresenta de forma leve as questões jurídicas nas quais transita o time de advogados(as), incluindo juízes e juízas bem peculiares e, por isso, engraçados. O escritório de Direito lida com causas sérias, ganhou fama em processos contra a violência policial dedicada a afrodescendentes, mas o enredo só pesa raramente. Em geral, apresenta mais diversão do que drama, com ênfase para as fustigadas ferozes em Donald Trump, isso com o republicano ainda na presidência. Registre-se, porém, que há uma verdadeira salada entre as acusações a ele na vida real e o que se limita ao território da ficção. Tomo de empréstimo a definição do The Washington Post, um dos mais importantes jornais daquele país: “Poucas séries enraizaram suas premissas tão profundamente na (oposição à) presidência de Trump”.

Quando Donald deu adeus ao cargo em 2020, muito se especulou sobre uma perda de força na narrativa, mas, pelo que já li sobre a quarta temporada, tal previsão não se concretizou. Os criadores de The Good Fight, Robert e Michelle King, que também assinam o trabalho do qual deriva a série, se mostraram tranquilos com suas opções criativas. “Diane foi estabelecida como uma liberal fervorosa quando começamos 'The Good Wife' em 2009. Sabíamos que ela - assim como seus colegas em um escritório de advocacia afro-americano de Chicago - teria uma opinião firme sobre o atual governo. Parecia uma mentira não dramatizar isso”, disseram em entrevista ao USA Today. Justiça seja feita, não há santos ou mitos na série. Em meio à esculhambação para cima de Trump, surgem opositores democratas para quem vale tudo na meta de apeá-lo do poder. Desaprovo. Ganhar “no tapetão”, como se diz no jargão futebolístico, passa longe de vitória: é uma indignidade.

De qualquer forma, The Good Fight marca posição importante ainda num outro sentido. “A série vem minando constantemente o boato de Hollywood de que grandes públicos não podem ser encontrados por programas com elencos racialmente diversificados e/ ou papéis principais para mulheres mais velhas”, avaliou o The Guardian, que elogia: “Muito bom combate feito”. Também acho.

Hoje me despeço expressando minha gratidão a todos e todas que prestigiam minhas análises neste espaço. Levando a Série fez um ano de sua estreia em 28 de agosto passado e eu nem me dei conta do aniversário. Admito que estava abalada com a perspectiva de minha neta e meu neto crescerem numa ditadura, a exemplo do que houve comigo. Foram 55 publicações, sempre às sextas-feiras, ao longo das quais sugeri 103 alternativas de entretenimento de qualidade, entre séries ficcionais, documentais e reality shows. Muito obrigada, mesmo! Sigamos em frente com paz, amor e empatia, que violência, maldade e pandemônio deveriam ficar circunscritos à ficção.

Para maratonar:

Suits – Nove temporadas, 134 episódios, disponível completa na Netflix; 

The Good Fight – Três temporadas, total de 33 episódios, disponível na Amazon Prime Video (quarta já exibida nos EUA e quinta já confirmada).

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